
Heraclito de Epheso diz:
" O pior de todos os males seria
A morte da palavra"
Diz o provérbio do Malinké:
" Um homem pode enganar-se em sua parte de alimento
Mas não pode
Enganar-se na sua parte de palavra"
Sophia de Mello Breyner Andersen
( O nome das coisas)

A cor é a expressão de uma virtude escondida.

Certos pássaros são chamas.

Um jardineiro faz-me notar que é no Outono que vemos a verdadeira cor das árvores. Na Primavera, a abundãncia de clorofila veste-as a todas com um libré verde. Chegado Setembro, elas mostram-se cobertas das suas cores próprias, a bétula loira ou dourada, o bordo amarelo-laranja-vermelho, o carvalho cor de bronze e ferro.

As raízes enterradas no solo, os ramos protectores dos esquilos brincalhões, do ninho e da chilreada dos pássaros, a sombra dada aos animais e aos homens, a cabeça em pleno céu. Haverá mais sábia e benéfica maneira de existir?

O teu corpo composto-três quartos de água, mais um punhado de minerais terrestres. É essa grande chama em ti de que desconheces a natureza. E nos teus pulmões, sorvido e libertado sem cessar no teu tórax, o ar, esse belo estrangeiro sem quem não podes viver.
Marguerite Yourcenar ( Escrito num jardim in O Tempo esse escultor)

Balada de la Placeta
1919
Cantan los niños
en la noche quieta:
Arroyo claro,
fuente serena!
LOS NIÑOS
Qué tiene tu divino
corazón de fiesta?
YO
Un doblar de campanas,
perdidas en la nieba.
LOS NIÑOS
Ya nos dejas cantando
en la plazuela.
Arroyo claro,
fuente serena!
Qué tienes en tus manos
de primavera?
YO
Una rosa de sangre
y una azucena.
LOS NIÑOS
Mójalas en el agua
de la canción añeja
Arroyo claro,
fuente serena!
Qué sentes en tu boca
roja y sedienta?
YO
El sabor delos huesos
de mi gran calavera.
LOS NIÑOS
Bebe el agua tranquila
de la canción añeja.
Arroyo claro,
fuente serena!
Por qué te van tan lejos
de la plazuela?
YO
Voy en busca de magos
y de princesas!
LOS NIÑOS
Quién te enseñó el camino
de los poetas?
YO
La fuente y el arroyo
de la canción añeja.
LOS NIÑOS
Te vas lejos, muy lejos
del mar y de la tierra?
YO
Se ha llenado de luces
mi corazón de seda,
de campanas perdidas,
de lírios y de abejas,
Y yo me iré muy lejos,
más allá de esas sierras,
más allá de los mares,
cerca de las estrelas
para pedirle a Cristo
Señor que me devuelva
mi alma antiga de niño,
madura de leyendas,
con el gorro de plumas
y el sable de madera.
LOS NIÑOS
Ya nos dejas cantando
en la plazuela.
Arroyo claro,
fuente serena!
Las pupilas enormes
de las frondas resecas,
heridas por el viento,
lloram las hojas muertas.
Frederico Garcia Lorca ( Libro de poemas- 1921)


SE AOS OITENTA você não é aleijado ou inválido, se se mantém saudável, se ainda aprecia um bom passeio, uma boa refeição ( com todos os requintes), se consegue dormir sem antes tomar um comprimido, se pássaros e flores, as montanhas e o mar ainda o inspiram, você é um indivíduo muito afortunado e devia ajoelhar-se de manhã e à noite e agradecer ao bom Senhor o seu poder conservador.
Se é jovem em anos mas já cansado em espírito, já a caminho de se transformar num autómato, pode fazer-lhe bem dizer ao seu chefe-entrdentes, claro - "Vai-te foder,Jack! Tu não és o meu dono". Se você consegue assobiar, se se excita com um rabo atraente ou um lindo par de mamas, se consegue apaixonar-se uma e outra vez, se consegue perdoar aos seus pais o crime de o terem trazido ao mundo, se está satisfeito por não ir a lado nenhum, viver cada dia à medida que vem, se se consegue perdoar e esquecer, se consegue evitar tornar-se azedo, rabujento, amargo e cínico, homem você já tem meio caminho andado!
São as pequenas coisas que contam, não a fama, o êxito ou a riqueza. No topo, há muito pouco espaço enquanto que em baixo há muitos como você, não há enchentes nem ninguém para provocar. Não pense, nem por um momento, que a vida de um génio é feliz. Longe disso. Seja grato por ser ninguém.
Henry Miller ( Viragem aos oitenta)

En la noche entraremos
a robar
una rama florida.
Passaremos el muro,
en las tinieblas del jardin ajeno,
dos sombras en la sombra.
Aún no se fue el invierno,
y el manzano aparece
convertido de pronto
en cascada de estrellas olorosas.
En la noche entraremos
hasta su tembloroso firmamento,
y tus pequeñas manos y las mías
robarán las estrellas.
En la noche entraremos
hasta su tembloroso firmamento,
y tus pequeñas manos y las mías
robarán las estrellas.
Y sigilosamente,
a nuestra casa,
en la noche y la sombra,
entrará con tus pasos
el silencioso paso del perfume
y con pies estrellados
el cuerpo claro de la primavera.
Pablo Neruda ( Los versos del Capitán)


Ó noite, porque hás-de vir sempre molhada!
Porque ´não vens de olhos enxutos
e não despes as mãos
de mágoas e de lutos!
Porque hás-de vir semimorta,
com um ar macerado e de bruxedo,
e não despes os ritos, o cansaço,
e as lágrimas e os mitos e o medo!
Porque não vens natural
como um corpo sadio que se entrega,
e não destranças os cabelos,
e não nimbas de luz a tua treva!
Porque hás-de vir com a cor da morte
- se morte já temos nós!
Porque adormeces os gestos,
porque entristeces os versos,
e nos quebras os membros e a voz!
Porque é que vens adorada
por uma longa procissão de velas
se eu estou à tua espera em cada estrada,
nu, inteiramente nu,
sem mistérios, sem luas e sem estrelas!
Ó noite eterna e velada
senhora da tristeza, sê alegria!
Vem de outra maneira ou vai-te embora,
e deixa romper o dia!
Eugénio de Andrade (As mãose os frutos)

1.
O sangue matinal das framboesas
escolhe a brancura do linho para amar.
2.
A manhã cheia de brilhos e doçura
debruça o rosto puro na maçã.
3.
Na laranja o sol e a lua
dormem de mãos dadas.
4.
Cada bago de uva sabe de cor
o nome dos dias todos de verão.
5.
Nas romãs eu amo
O repouso no coração do lume.
Eugénio de Andrade (Ostinato Rigore)

Hoje roubei todas as rosas dos jardins
e cheguei ao pé de ti de mãos vazias...
Eugénio de Andrade ( As Mãos e os frutos)

Alguém diz com lentidão:
" Lisboa, sabes..."
Eu sei. É uma rapariga
descalça e leve,
um vento súbito e claro
nos cabelos,
algumas rugas finas
a espreitar-lhe os olhos,
a solidão aberta
nos lábios e nos dedos,
descendo degraus
e degraus
e degraus até ao rio.
Eu sei. E tu sabias?
Eugénio de Andrade ( Coração do Dia)

" Poesia límpida, que vem das mãos humanas, do sangue rumoroso, do amor corpóreo, do trigo, dos frutos, da luz, do mar; poesia sem metefísica, simples nascer para o dia de um subterrâneo rio de palavras; poesia ora matinal e cara como a adolescência, ora densa de toda a elegia do pretérito imperfeito português- conhecer a poesia de Eugénio de Andrade é descobrir nalguns dos ritmos e das palavras mais correntes da língua...uma bela intenção desconhecida que tinham mas se perdia........" Óscar Lopes

O que se publica é para alguma coisa, para alguém, um ou muitos, ao sabê-lo, vivam sabendo-o, para que vivam de outro modo depois de o ter sabido; para libertar alguém do cárcere da mentira, ou das névoas do tédio, que é a mentira vital................................
Há segredos que exigem ser publicados e eles são os que visitam o escritor aproveitando a sua solidão, o seu efectivo isolamento que o faz ter sede............................................
O público existe antes de a obra ter sido ou não lida, existe desde o começo da obra, coexiste com ela e com o escritor enquanto tal.E só chegarão a ter público, na realidade,aquelas obras que já o tiveram desde o princípio...................................
Marìa Zambrano ( A Metáfora do coração)
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O ESCRITOR
ele disse não sei porque escrevo o teu nome.
eu olhei para ele, eu disse o meu nome não
é tudo o que podes escrever.
ele escrevia o meu nome num papel, ele sentava-se
numa cadeira e o luar era a luz de um candeeiro
sobre as palavras escritas.
ele disse amo-te
ele disse tenho medo que um dia deixe de poder
escrever o teu nome, eu disse o meu nome não
é tudo o que podes escrever.
ele escreveu o meu nome durante muitos anos.
e eu perguntei porque continuas a escrever
o meu nome? ele olhou para mim, e perguntou
quem és tu?
José Luís Peixoto ( A Casa, a escuridão)

Saber que será má a obra que se não fará nunca. Peor, porém, será a que nunca se fizer. Aquella que se faz, ao menos fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha visinha aleijada. Essa planta é a alegria d'ella, e também por vezes a minha. O que escrevo, o que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distracção de peor a um ou a outro espírito maguado ou triste. Tanto me basta, ou me não basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida.
Bernardo Soares ( Livro do Desassossego )

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Naquele campo aberto,
Se não nos aproximarmos de mais, se não nos aproximarmos de mais,
Numa noite de verão, podemos ouvir a música
Da débil flauta e do pequeno tambor
E vê-los dançar à volta da fogueira de festa
A associação do homem e da mulher
Na dança, significando matrimónio-
Um digno e cómodo sacramento,
Dois e dois, necessária conjunção,
Dando-se a mão ou o braço
O que significa concórdia.Sempre à volta do fogo
Saltando através das chamas, ou juntos em rodas,
Rusticamente solenes em seu riso rústico
Elevando pesados pés em sapatos grosseiros,
Pés de terra, pés de marga, elevados em campestre alegria
Alegria daqueles que há muito sob a terra
Alimentam o cereal. Mantendo o compasso,
Mantendo o ritmo na sua dança
Como na sua vida nas estações viventes
O tempo das estações e das constelações
O tempo da mungidura e o tempo da colheita
O tempo da copulação do homem e da mulher
E o dos bichos. Pés elevando-se e caindo.
Comer e beber. Estrume e morte.
A madrugada surge, e outro dia
Se prepara para o calor e o silêncio. No mar o vento da madrugada
Enruga-se e desliza. Eu estou aqui
Ou ali, ou em qualquer parte. No meu princípio.
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(T.S. Eliot -East Coker )

Rien n'est jamais acquis à l'homme. Ni sa force
Ni sa faiblaisse ni son coeur.Et quand il
croit
Ouvrir ses bras son ombre est celle
d'une crix
Et quand il croit serrer son bonheur il le
broie
Sa vie est un étrange et douloureux
divorce
Il n'y a pas d'amour heureux
Sa vie elle ressemble à ces soldats sans
armes
Qu'on avait habillés pour un autre destin
A quoi peut leur servir de ce lever matin
Eux qu'on retrouve au soir désarmés
incertains
Dites ces mots ma vie et retenez vos
larmes
Il n'y a pas d'amour heureux
Mon bel amour mon cher amour ma
déchirure
je te porte dans moi comme un oiseau
blessé
Et ceux-là sans savoir nous regardent
passer
Répétent après moi les mots que j'ai
tressés
Et qui pour les grans yeux tout aussitôt
moururent
Il n'y a pas d'amour heureux
Le temps d'apprendre à vivre il est déjà
trop tard
Que pleurent dans la nuit nos coeurs à
l'unisson
Ce qu'il faut de malheur pour la moindre
chanson
Ce quil faut de regrets pour payer un
frisson
Ce qu'il faut de saglots pour un air de
guitare
..............................
Il n'y a pas d'amour qui ne soit à douleur
Il n'y a pas d'amour dont on ne soit
meurtri
Il n'y a pas d'amour dont on ne soit flétri
Et pas plus que de toi l'amour de la patrie
Il n'y a pas d'amour qui ne vive de pleurs
Il n'y a pas d'amour heureux
Mais c'est notre amour à nous deux.
Georges Brassens

Falemos de casas, do sagaz exercício de um poder
tão firme e silencioso como só houve
no tempo mais antigo.
Estes são os arquitectos, aqueles que vão morrer,
sorrindo com ironia e doçura no fundo
de um alto segredo que os restitui à lama.
De doces mãos irreprimíveis.
- Sobre os meses, sonhando nas últimas chuvas,
as casas encontram seu inocente jeito de durar contra
a boca subtil rodeada em cima pela treva das palavras.
............................................................................
Estas são as casas. E se vamos morrer nós mesmos,
espantamo-nos um pouco, e muito, com tais arquitectos
que não viram as torrentes infindáveis das rosas, ou as águas permanentes,
ou um sinal de eternidade espalhado nos corações
rápidos
- Que fizeram estes arquitectos destas casas,eles que vagabundearam
pelos muitos sentidos dos meses,
dizendo: aqui fica uma casa, aqui outra,aqui outra,
para que se faça uma ordem, uma duração,
uma beleza contra a força divina?
................................................................................
Falemos de casas como quem fala da sua alma,
entre um incêndio,
junto ao modelo das searas,
na aprendizagem da paciência de vê-las erguer
e morrer com um pouco, um pouco
de beleza.
(Herberto Helder - prefácio)



Apetece dizer uma palavra
uma palavra irrepetível irremediável
apetece uma palavra como lava
com seu cheiro de enxofre e sua cabra
apetece uma palavra que nos abra
a terra inabitável
da palavra.
Manuel Alegre
Inútil definir este animal aflito.
Nem palavras,
nem cinzéis,
nem acordes,
nem pincéis
são gargantas deste grito.
Universo em expansão.
Pincelada de zarcão
desde mais infinito a menos infinito.
[António Gedeão]