
- Porquê tanta preguiça, marido?
- Eu não durmo por preguiça. Eu durmo de tristeza.
Não era tristeza. Era um vazio. Os tristes têm um céu. Cinzento, mas céu. Os desesperados têm um deserto. Meu pai olhava para trás: era mais o esquecido que o vivido. O que não lembrava era porque se esquecera de viver? Ou tudo tinha ficado lá na mina que desmoronou? Quando se cruzava comigo, de pijama, a meio dia, meu pai se justificava:
- Sua mãe quer que eu faça dessas coisas que criam alma na pessoa. Só que ela não entende: se eu estou vivo é porque não tenho alma nenhuma.
E agora, olhando-o sob aquele estilhaçado luar, me pareceu que meu pai não era senão poeira entre poeiras de Lua. Sua alma ficara sepultada entre longínquos minérios.
A Chuva pasmada ( Mia Couto)

Meu olhar foi pintor e a formosura
que é tua pôs na tábua do meu peito,
a guardá-la meu corpo é a moldura,
na perspectiva fui pintor perfeito.
Pelo pintor verás o seu engenho
e onde é pintada a tua imagem bela:
está na loja do meu seio e tenho
vidrada dos teus olhos a janela.
Que boas voltas olhos a olhos deram:
os meus traçam-te a forma e os teus a mim
são janelas do peito e reverberam
o doce sol para te olhar assim.
Mas falta-lhes na arte engenho e graça:
desenho à vista o coração não traça.
Os Sonetos de Shakespeare ( Vasco Graça Moura)

La vue de tout ce qui est extrêmement beau, dans da nature et dans les arts, rappelle le souvenir de ce qu'on aime, avec la rapidité de l'éclair. C'est que, par le mécanisme de la branche d'arbre garnie de diamants dans la mine de Salzbourg, tout ce qui est beau et sublime au monde fait partie de la beauté de ce qu'on aime et cette vue imprévue du bonheur à l'instant rempli les yeux de larmes. C'est ainsi que l'amour du beau et l'amour se donnent mutuellement la vie.
Stendhal ( De l'amour)

O fogo é-nos mais caro que o amor ou o alimento,
quente, apressado, mas queimando se lhe tocares.
O que devemos fazer
não é unir o nosso amor ou a nossa boa vontade, ou qualquer
coisa dessas,
pois temos a certeza de introduzir muitas mentiras,
mas sim o nosso fogo, o nosso fogo elementar
de modo a que se erga numa enorme chama como um falo no
espaço vazio
e venha fecundar o zénite e o nadir
enviando milhões de centelhas de novos átomos
e nos queime e incendeie a nossa casa.
D.H.Lawrence ( Os animais evangélicos e outros poemas)

Comboio
Aqui ( movente ou parada?)
Vou contra a vida que foge
Nos campos que à desfilada
Vão ao invés do que corre.
Que deus me ilude ou me mente?
Porquê na hora fugaz
Eu julgo que vou para a frente
Se tudo avança para trás?
Acaso egressa o tempo
Ao que era antes do mal
Nas árvores que recuam
À floresta inicial?
Natália Correia

I
Glorifiquei-te no eterno,
Eterno dentro de mim
Fora de mim perecível.
Para que desses um sentido
a uma sede indefinível.
Para que desses um nome
À exactidão do instante
do fruto que cai na terra
sempre perpendicular
à humidade onde fica.
E o que acontece durante
Na rapidez da descida
é a explicação da vida.
Natália Correia ( O Livro dos Amantes)

Do sentimento trágico da vida
Não há revolta no homem
que se revolta calçado.
O que nele se revolta
é apenas um bocado
que dentro fica agarrado
à tábua da teoria.
Aquilo que nele mente
e parte em filosofia
é porventura a semente
do fruto que nele nasce
e a sede não lhe alivia.
Revolta é ter-se nascido
sem descobrir o sentido
do que nos há-de matar.
Rebeldia é o que põe
na nossa mão um punhal
para vibrar naquela morte
que nos mata devagar.
E só depois de informado
só depois de esclarecido
rebelde nu e deitado
ironia de saber
o que só então se sabe
e não se pode contar.
Natália Correia

Canção do Amor-Perfeito
O tempo seca a beleza,
seca o amor, seca as palavras,
Deixa tudo solto, leve,
desunido para sempre
como as areias nas águas.
O tempo seca a saudade,
seca as lembranças e as lágrimas.
Deixa algum retrato, apenas,
vagando seco e vazio
como estas conchas das praias.
O tempo seca o desejo
e suas velhas batalhas.
Seca o frágil arabesco,
vestígio do musgo humano,
na densa turfa mortuária.
Esperarei pelo tempo
com suas conquistas áridas,
Esperarei que te seque,
não na terra, Amor-Perfeito,
num tempo depois das almas.
Cecília Meireles

Poética
Estou farto do lirismo comedido
do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro do ponto expediente
( protocolo e manifestações de interesse ao Sr.
( director
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
( o cunho vernáculo de um vocábulo
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sífilítico
De todo o lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si
( mesmo.
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário amante exemplar
(com cem modelos de cartas e as diferentes
(maneiras de agradar às mulheres,etc.
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare
- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
Manuel Bandeira (Libertinagem)

IV
Mulher, casa e gato
Uma pedra na cabeça da mulher, e na cabeça
da casa, uma luz violenta,
Ainda um peixe comprido pela cabeça do gato.
A mulher senta-se no tempo e a minha melancolia
pensa-a, enquanto
o gato imagina a elevada casa.
Eternamente a mulher da mão passa a mão
pelo gato abstracto,
e a casa e o homem que eu vou ser
são minuto a minuto mais concretos.
Herberto Helder ( As Musas cegas)


Confidências
Mãe!
Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei! Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue! verdadeiro, encarnado!
Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens! Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar.
Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa.Depois venho sentar-me a teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas como as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.
Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa. Eu também quero ter um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.
Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!
Almada Negreiros ( in Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa - Eugénio de Andrade)

Ele inclinou-se, para pousar suavemente a mão no calor do ombro batido pela luz, e foi atravessado pelo sobressalto do desejo, e de sobressalto em sobressalto chegou a pensar que enfrentava outra espécie de morte, embora morte cheia de esplendor.
Tinha agora a atenção concentrada naquela mulher que se vergava e escondia. Inclinado ao pé dela fazia-lhe carícias cegas, meigas, e murmurava coisas sem nexo. Não encontrava sentido na morte nem na sua paixão pelo sacrifício, só tinha consciência da plenitude daquela mulher caída, da branca e macia pedra da vida..."Sobre esta pedra edifiquei a minha vida". A pedra penetrável da mulher viva, com pregas profundas! Da mulher que escondia a face. E ele próprio inclinado sobre ela, vigoroso e inovador como uma aurora.
D.H.Lawrence ( O Homem que morreu)

amor não sentimento não ternura
não desejo não sexo não amor
amor nada concreto não os olhos
preso nunca no peito não por cento
amor fascínio fuga sal sedento
não ângulo não vértice de vidro
não as ruas desertas pensamento
amor não sentimento não sentido
não amor não entrega nunca posse
a fuga porque não nada fragmnento
não amor por amor nunca deserto
amor não violento não de vento.
não amor desejado mão de invento
amor sempre de não de tempo a tempo.
E.M de Melo e Castro

"Não percebes porque é que não te falo? Ainda não percebes que, na personagem que de mim eu enceno, não cabe a ameaça de uma derrota, a antecipação do desencanto, a sombra de um vexame? Não te falo, para não saber que o que eu te digo é apenas a forma contida de te dizer outra coisa, mas que essa coisa não é do teu mundo, nem do mundo que eu construí, nem do precário mundo que a nossa fragilíssima ternura mútua arquitectou. E tudo isto é literário, eu sei, mas — que queres? —, a literatura é o melhor de mim e é o melhor de mim que vive dentro da minha cabeça quando estou contigo.
António Mega Ferreira ( Amor)

A terceira Elegia
Uma coisa é cantar a Amada.Outra, ai!,
aquele oculto e culpado Deus-Rio do sangue
Aquele que ela de longe reconhece, o seu jovem amado,
(que sabe
ele mesmo do Senhor do Desejo, que muitas vezes, da
sua solidão,
antes ainda que a donzela o acalmasse, muitas vezes
(também como se ela não existisse,
ai!, gotejante de que incognoscível, ergeu a cabeça
Oh, o Nepturno do Sangue, oh, o seu terrível tridente!
Oh, o sopro escuro do seu peito saído do búzio retorcido!
Escuta como a noite se arredonda e se cava. Ó estrelas,
não provém de vós o desejo do amante pela face
da amada? Não lhe vem este olhar íntimo, que penetra
na face pura dela, da pureza dos astros?
Não foste tu, ai! nem foi a sua mãe
quem lhe retesou assim de expectativa os arcos das
sobrancelhas.
Não foi,donzela que o sentes, não foi ao teu contacto
que o seu lábio se encurvou em expressão mais fecunda.
Crês em verdade que fosse o teu leve pisar que o tivesse
abalado assim, tu, que passas como o vento da manhã?
É verdade que lhe assustaste o coração; mas pavores
(mais velhos
se preciptaram nele ao leve embate.
Chama-o...não o arrancas de todo ao escuro convívio.
Decerto, ele quer, evade-se; desopresso, ele acostuma-se
ao teu coração secreto e toma dele e inicia-se.
Mas iniciou-se ele jamais?
Mãe, tu fizeste-o pequeno, foste tu que o começaste;
para ti que ele era novo, arqueaste sobre os seus olhos
novos o mundo amigo e afastaste o mundo alheio.
Mas, ai! onde vão os anos em que tu simplesmente
com a tua figura esbelta lhe barravas o caosondulante?
Muitas coisas lhe escondeste assim; o quarto nocturno
( e suspeito
fizeste-o inofencivo; do teu coração cheio de refúgio
juntaste um espaço mais humano ao seu espaço-noite.
Não foi na treva, não:-na tua presença mais próxima
é que tu puseste a lâmpada nocturna que brilhava como
( de amizade.
Em parte alguma um ranger que tu não explicasses
( sorrindo,
como se há muito soubesses quando é que o sobrado
( assim se comporta...
E ele escutava e sentia alívio. Tantas coisas conseguias
só com te ergueres ternamente;..................................
..............................................................................
..............................Mas lá dentro: quem repelia,
quem detinha lá dentro dele as torrentes da origem?
Ah! não havia precaução no que dormia; a dormir,
mas a sonhar, mas em febres: como ele se abandonava!
Ele, o novo, o tímido, como ele estava enredado,
como as pernadas invasoras do acontecer intímo
já emaranhadas em padrões, em crescimento sufocante,
( em animalescas
formas figidias.Como ele se entregava-. Amava.
Amava o seu mundo intimo, o matagal do seu intímo,
esse mato primevo dentro dele, em cula derrubada muda,
verde e luminoso, o seu coração se erguia. Amava..........
.................................................................................
Olha, nós não amamos, como as flores, com um só ano
atrás de nós; a nós sobe-nos, quando amamos,
seiva imemorial aos braços. Ó donzela,
isto: que nós amamos em nós, não um ser único, futuro,
( mas
o que está em inumerável fermentação; não um filho
( isolado,
mas os pais, que como ruínas de montanhas
repousam nas profundas de nós; mas o seco leito do rio
de mães de outrora-; mas toda a
silente paisagem sob a nublada ou
pura fatalidade-:foi isto, donzela, que se te antecipou.
E tu mesma, que sabes tu-? Conjuraste
no amante pré-história. Que sentimentos
de seres já passados vieram à tona no turbilhão! Que
mulheres te não odiaram lá! Que homens soturnos
tu não excitaste nas veias do moço amante! Mortas
crianças aspiravam a ti...Oh! manso, manso,
faz perante ele um trabalho diário querido e confiado,-
( leva-o
mesmo até ao pé do jardim, dá-lhe o peso a mais
das noites......
Retém-no......
Rainer Maria Rilke ( As Elegias de Duíno e sonetos a Orfeu- A terceira Elegia)

Com o silêncio do punhal num peito,
O silêncio do sangue a converter
Em fio breve o coração desfeito
Que nas pedras acaba de morrer,
Vive em mim o teu nome, tão perfeito
Que mais ninguém o pode conhecer!
É a morte que vivo e não aceito;
É a vida que espero não perder.
Viver a vida e não viver a morte;
Procurar noutros olhos a medida,
Vencer o tempo, dominar a sorte,
Atraiçoar a morte com a vida!
Depois morrer de coração aberto
E no sangue o teu nome já liberto...
Alexandre O´Neill ( No reino da Dinamarca)

A carta que era necessário teres escrito e não escreveste e agora não sabes qual. Bem entendido, é compreensível- que não saibas qual. Que a não tenhas escrito-não, isso não é compreensível. E porque não a escreveste, se era tão necessário que a tivesses escrito, aquela carta? Que carta? Vejamos eu não falo sobre nada. Foste tu que um dia me falaste na carta que um dia devias ter escrito e não escreveste e agora vives cheio de remorsos..........................Que tinhas o papel branco em cima da mesa e até o envelope.Que tinhas a caneta em cima da mesa e até o tinteiro e que a tinta era preta mas tinhas também tinta verde. Que chegaste( não me disseste onde), que te sentaste, que pegaste com a mão direita na caneta e começaste. Que não começaste afinal, que ficaste suspenso no verso de começar, a caneta nos dedos entre o papel branco em baixo e, supomos, o cotovelo um e meio ou dois palmos acima da mão. E que não escreveste. Que foi a luz que faltou mas não tens a certeza. Que te chamaram lá dentro" António anda cá", mas não tens a certeza. Que era fome, que era sede mas não estás certo. Que não escreveste.E estás certo disso pelo menos? De não ter escrito? Não me o dizes. Apenas me falaste naquela carta que devias ter escrito e não escreveste e não sei se deva acreditar-te. Porque nem sempre sabes o que dizes.
João Camilo ( O grande frémito da paixão - A carta)

Baio ou pigarço, não me lembro.
Em osso o cavalguei.
Macio como um vinho de Setembro,
O Outono bifurquei.
Nasceu-lhe a margarida numa venta
( Temos sonhos vermelhos).
A brida da saudade o seu ímpeto aguenta.
Eu, fugido sobre ele, levo a Terra nos joelhos.
Vitorino Nemésio ( O cavalo encantado)

Aprendi os primeiros versos antes das primeiras letras. Não sabia ler, mas subia para uma cadeira e recitava, emproado,"Lá vão elas/as caravelas". Não sei quem escreveu esses versos.Sei que nunca mais deixei de andar embarcado nelas, as caravelas. Ou na Barca Bela, de Almeida Garrett, que me foi ensinada por minha tia-avó Maria do Carmo Sampaio, mãe do pintor Fausto Sampaio. Eram as caravelas e a Barca Bela da língua. Estavam por dentro das vogais e das consoantes, embora eu não soubesse o que isso era. Quando aprendi a ler e a escrever foi uma desilusão.Fazia cópias em cadernos de duas linhas, não dava erros no ditado, lia, sem entusiasmo, um texto de onde, de repente, tinha desaparecido a magia das caravelas e da Barca Bela. E então pus-me a procurá-las. Escrevia algo que supunha serem versos e onde, invariavelmente, caravelas rimavam com porcelas e Barca Bela com ela. Era a procura da antiga música da língua, da inocência da linguagem, ou talvez daquele perdido reino da palavra primordial. Mais tarde........abri um daqueles armários proibidos e perigosos de onde nunca se sabe o que pode saír. Saíu uma velha revista chamada Orfeu, com a assinatura do meu avô paterno Mário Duarte, o Mário da Anadia, celebrado por António Nobre na sua Carta a Manuel. Comecei a ler: Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de verão/olho para o lado da barra, olho pró Indefinido/Olho e contenta-me ver/Pequeno, negro e claro um paquete entrando".
Fui por ali fóra.Era de certo modo, outra vez, o "Lá vão elas/ as caravelas", mas como se fosse escrito do avesso. Fiquei muito nervoso, entre o fascínio e o horror, queria parar e não podia, apetecia-me rasgar masao mesmo tempo sentia-me levado por uma irresístível tentação, estava a caír para o abismo, como se as palavras de súbito não tivessem sentido ou tivessem cheias de segredos misteriosos.
Era como se tivesse a descobrir uma língua nova. uma língua conhecida e desconhecida. Era a minha e era outra. Eu não sabia o que aquelas palavras significavam, mas sentia-me atraído por elas. E ao mesmo tempo repudiava-as. Tão perturbado fiquei, tão desorganizado por dentro, tão abalado nas minhas traves mestras que risquei, com desespero, a primeira página. Ainda hoje a conservo. Sem o saber eu tinha sido atingido pela revelação da linguagem poética............Foi um choque tão grande, uma tão intensa sensação de mistério, que acabei por adoecer.
Manuel Alegre (Arte de Marear- Primeiro poema)
.

Quase Elegia
Ainda terás nome?
Esse que te dei, chama
ou asa, ainda te pertence?
Se tens ainda nome
por que não respondes?, por que não
te aproximas para respirar
comigo o mesmo sol, o mesmo riso?
Também a transparência,
claro rumor de tílias, morre
quando se morre?,
ou só morre a espessura dos dias,
o peso do ar?
Com as mãos, com os olhos, seja
com o que for, dentes ou sílabas,
escavarei o chão até romper
a água - para sempre acesa.
Eugénio de Andrade ( Os lugares do lume)

A ilha, a ilha dele, embrenhava-se na escuridão, afastando-se dos humanos. Sentia-se
mesmo, nas cavidades sombrias e molhadas, o espírito cheio de ressentimento,
ensimesmado, como um cão molhado enroscado na sua depressão, ou uma cobra que não está desperta nem a dormir. Então, à noite, quando o vento largava a soprar em rajadas e rabanadas, como no mar, sentia-se que a ilha era um universo, tão velho e infinito como a escuridão; não era, de todo, uma ilha, mas um mundo escuro infinito em que viviam as almas todas de todas as noites passadas e a distância infinita era próxima. Desta pequena ilha no espaço passava-se, estranhamente, aos grandes domínios obscuros do tempo, onde as almas que nunca morrem passam e repassam em missões vastas e estranhas. A pequena ilha terrestre diminui, como um trampolim, e reduz-se a nada, porque dela se saltou, sem se saber como, para o amplo mistério escuro do tempo, onde o passado é vivo e vasto e o futuro não está isolado.
É este o perigo de nos tornarmos ilhéus. Na cidade, quando se vai de polainas brancas e se evita o trânsito, com o medo da morte metido na espinha, está-se protegido dos horrores do tempo infinito.
O momento é a ilhota no tempo de cada um , é o universo espacial que passa vertiginosamente à nossa volta.
Mas quando nos isolamos numa ilha pequena no mar do espaço e o momento começa a inchar e a expandir-se em grandes círculos, vai-se a terra sólida e a nossa alma escura, nua, escorregadia, acha-se num mundo intemporal, onde os carros da chamada morte se precipitam pelas velhas ruas de séculos e as almas se apinham nos caminhos a que nós, no momento, chamamos anos passados. As almas dos mortos estão vivas, de novo, e pulsam activamente em redor de nós. Estamos perdidos no outro infinito.
D.H.Lawrence ( O homem que amava as ilhas)

Amor nos três pavimentos
Eu não sei tocar, mas se você pedir
Eu toco violino fagote trombone saxofone.
Eu não sei cantar, mas se você pedir
Dou um beijo na lua, bebo mel himeto
Pra cantar melhor.
Se você pedir eu mato o papa, eu tomo cicuta
Eu faço tudo que você quiser.
Você querendo, você me pede, um brinco, um namorado
Que eu te arranjo logo.
Você quer fazer verso? É tão simples!... você assina
Ninguém vai saber.
Se você me pedir, eu trabalho dobrado
Só pra te agradar.
Se você quisesse!... até na morte eu ia
Descobrir poesia.
Te recitava as Pombas, tirava modinhas
Pra te adormecer.
Até um gurizinho, se você deixar
Eu dou pra você...
Vinicius de Morais

Querida. Veio-me hoje uma vontade enorme de te amar. E então pensei: vou-te escrever.Mas não te quero amar no tempo em que te lembro. Quero-te amar antes, muito antes. É quando o que é grande acontece. E não me digas diz lá porquê. Não sei. O que é grande acontece no eterno e o amor é assim, devias saber. Ama-se como se tem uma iluminação, deves ter ouvido. Ou se bate forte com a cabeça. Pelo menos comigo foi assim. Ou como quando se dá uma conjução de astros no infinito, deve vir nos livros.Ou mais provávelmente esse tempo nunca pôde existir, que é quando realmente existe o que vale a pena existir.
Vergílio Ferreira (Em nome da terra)

Ia pela mata,
Só comigo, à toa,
Longe de encontrar
Cousa má nem boa.
À sombra avistei
Que linda florinha!
Bela como uns olhos
Ou uma estrelinha.
Quando a quis colher
Ouvi-a chorar:
“Vais então cortar-me
Pra me ver’s murchar?”
Raízes e tudo
A arranquei assim,
Para casa a levei,
Pu-la no jardim.
Plantei-a outra vez
Em sítio de amores:
E agora dá ramos,
Mais folhas, mais flores.
J.W. Goethe ( Poemas- II Canções)

S. Martinho de Anta, 2 de Abril de 1961
Vamos, ressuscitados, colher flores!
Flores de giesta e tojo, oiro sem preço...
Vamos àquele cabeço
Engrinaldar a esperança!
Temos a primavera na lembrança;
Temos calor no corpo entorpecido;
Vamos! Depressa!
A vida recomeça!
A seiva acorda, nada está perdido!
Miguel Torga ( Diário IX )

Todos têm os seus momentos de êxtase, o seu secreto sentido da morte, qualquer coisa que lhes serve de apoio. Visitei cada um dos meus amigos, tentando com os dedos inseguros abrir os seus pequenos cofres fechados. Expuz-lhes a minha dor - não, não a dor, mas o sentimento de incompreensível mistério da vida- e pedi-lhes que a examinassem comigo. Alguns procuram os sacerdotes; outros a poesia. Eu refugio-me junto dos meus amigos, vou procurar o meu próprio coração, busco qualquer coisa intacta entre frases e fragmentos, eu a quem não basta a beleza que existe na lua e nas árvores e para quem o contacto de uma pessoa com outra é tudo, mas que nem sequer isso consigo estabelecer, permanentemente imperfeito, frágil e indizìvelmente solitário.
Vírginia Woolf ( As Ondas)

Deixa ficar a flor,
a morte na gaveta,
o tempo no degrau.
Conheces o degrau:
o sétimo degrau
depois do patamar;
o que range ao passares;
o que foi esconderijo
do maço de cigarros
fumado às escondidas...
Deixa ficar a flor.
E nem murmures. Deixa
o tempo no degrau,
a morte na gaveta.
Conheces a gaveta:
a primeira da esquerda,
que se mantém fechada,
Quem atirou a chave
pela janela fora?
Na batalha do ódio,
destruam-se, fechados,
sem tréguas, os retratos!
Deixa ficar a flor
A flor? Não a conheces.
Bem sei. Nem eu.Ninguém.
Deixa ficar a flor.
Não digas nada. Ouve.
Não ouves o degrau?
Quem sobe agora a escada?
Como vem devagar!
Tão devagar que sobe...
Não digas nada. Ouve:
é com certeza alguém,
alguém que traz a chave.
Deixa ficar a flor.
David Mourão Ferreira ( Canto III )

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo depois da morte
depois morreremos de medo
e sobre os nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.
Carlos Drummond de Andrade ( Amar-Amaro)

A poesia depende da memória
É a sua matéria o que se esquece
ou lembra, tanto faz; não há história
da vida verdadeira Só conhece
o que viveu quem o presente apresse
( do passado a errada divisória
a fronteira incessante) quando cesse
a dor vivida para entrar na glória
da montanha que guarda o fogo absorto
ou da voz crematória que no forno
estala com palavra sussurrada
Há-de faltar-lhe a água nesse porto
há-de o seu corpo morto ser adorno
de poemas que não recordam nada
Gastão Cruz ( crateras)
_-_20Iris.jpg)
Ébrio de êxtase, embora consciente das mais ínfimas sensações, deixou-se arrastar pelo fluxo luminoso que, do tanque, se ia perder entre rochedos. Caíu numa espécie de doce sonolência, sonhou com indescritíveis aventuras, das quais foi despertado por uma nova visão. Encontrava-se deitado sobre a relva fofa, à beira de uma fonte que parecia, ao brotar, desvanecer-se nas alturas. A poucos passos, erguiam-se uns rochedos de um azul escuro raiado de veios multicores; a luz que o banhava era mais suave e límpida do que habitualmente, o céu, de um negro azulado perfeitamente puro. Porém, o que o atraíu
e fascinou irresistívelmente, foi uma flor alta, de um azul etéreo que, debruçando-se à beira da fonte, o roçava com as suas largas pétalas luminosas. À sua volta, um cem número de flores ostentava os seus variados tons, e um perfume dos mais deliciosos enchia de fragâncias o ar. Ele, todavia, só tinha olhos para a Flor Azul, e longo tempo ficou a contemplá-la tomado de uma indescrtível ternura. Quando ia a aproximar-se, a flor começou, de repente, a mover-se e a transformar-se: as folhas, cada vez mais brilhantes, estenderam-se ao longo do caule, que se alongava, e a Flor inclinou-se para ele, desenhando as suas pétalas uma gola azul à roda de um rosto terno e flutuante.............
Novalis (Heinrich D' Ofterdingen - A Espera)

Eis o núcleo-após a criança ter nascido da mulher, o homem nasce da
mulher,
Eis o banho do nascimento, eis a amálgama do pequeno e do grande, e
de novo a saída.
Não vos envergonhais, mulheres, o vosso previlégio encerra todo o res-
to, e é a libertação de todo o resto,
Sois os portões do corpo, e sois os portões da alma.
A mulher contém todas as qualidades e mistura-as,
Está no seu lugar e move-se com um perfeito equilíbrio,
É todas as coisas devidamente veladas, é passiva e activa
Existe para conceber tanto filhas como filhos, e tanto filhos como filhas.
Assim como vejo a minha alma reflectida na Natureza,
Assim como vejo através da névoa, um Ser de inexprimível perfeição,
sensatez e beleza,
Vejo também a cabeça inclinada e os braços cruzados sobre o peito, ve-
jo a Mulher.
Walt Whitman ( Leaves of grass - I sing the body electric)

IX
SOU UM guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.
X
OLÁ, GUARDADOR de rebanhos,
Aí à beira da estrada,
Que te diz o vento que passa?
" Que é vento e que passa,
E que já passou antes,
E que passará depois,
E a ti o que te diz?
"Muita cousa mais do que isso.
Fala-me de muitas outras cousas
De memórias e de saudades
E de cousas que nunca foram".
"Nunca ouviste passar o vento
O vento só fala do vento
O que ouviste foi mentira
E a mentira está em ti".
Alberto Caeiro ( O Guardador de rebanhos)

AH,UM SONETO
MEU CORAÇÃO é um almirante louco
que abandonou a profissão do mar
e que a vai relembrando pouco a pouco
em casa a passear, a passear...
No movimento ( eu mesmo me desloco
nesta cadeira, só de o imaginar)
o mar abandonado fica em foco
nos músculos cansados de parar.
Há saudades nas pernas e nos braços.
Há saudades no cérebro por fora.
Há grandes raivas feitas de cansaços.
Mas- esta é boa!-era do coração
que eu falava...e onde diabo estou eu agora
com almirante em vez de sensação?...
Álvaro de Campos

QUEM TE DISSE ao ouvido esse segredo
Que raras deusas têm escutado-
Aquele amor cheio de crença e medo
Que é verdadeiro só se é segredado?
Quem to disse tão cedo?
Não fui eu, que te não ousei dizê-lo.
Não foi um outro, porque o não sabia.
Mas quem roçou da testa teu cabelo
E te disse ao ouvido o que sentia?
Seria alguém, seria?
Ou foi só que o sonhaste e eu te sonhei?
Foi só qualquer ciúme meu de ti
Que o supôs dito, porque o não direi,
Que o supôs feito, porque o só fingi
Em sonhos que nem sei?
Seja o que fôr, quem foi que levemente,
A teu ouvido vagamente atento,
Te falou desse amor em mim presente
Mas que não passa do meu pensamento
Que anseia e que não sente?
Foi um desejo que, sem corpo ou boca,
A teus ouvidos de eu sonhar-te disse
A frase eterna, imerecida e louca-
A que as deusas esperam da ledice
Com que o Olimpo se apouca.
Fernando Pessoa ( cancioneiro)

A terra fez do homem uma planta sem raízes nem copa, e ele pensa sem cessar no abismo para onde as suas veias rastejam. Estes figurantes que recusam rir-se, florestas, rios, rochas, animais, vivem sem conhecer o mal que consome o homem que sabe que tem de morrer. As pedras cuja idade se conta por séculos bem podem rodeá-lo de muros, jamais lhe revelarão nada dos segredos que as tornam quase eternas. As plantas são-lhe propícias, alimentam-no, atraem-no aos seus túneis de frutos, mas mesmo quando o vento as verga e faz gemer, nada dizem sobre o que é preciso fazer para afastar a morte.
Ernesto Sampaio ( Fernanda)

CANTAR DE AMIGO
(minuete)
Em que língua te falo meu amigo
com que voz te converso neste canto
se morremos os dois se vou contigo
com a arma de sombra do meu espanto
Na sanzala de Lisboa te procuro
trago o Sol no cantil para te dar
quando te aperto a mão é sempre escuro
a terra à tua beira sempre mar.
Matei-te há tantos anos e estás vivo
deixei-te agonizar quando amanhece
em que língua te falo meu amigo
se morremos os dois e tudo esquece.
António Lobo Antunes ( Letrinhas de cantigas)

- de que acontecimentos é que verdadeiramente nos lembramos?
Se não te esquecesses tanto, nunca te terias lembrado de gostar de mim. A maioria das pessoas selecciona as recordações para as usar como bóias: aqui fui feliz, é aqui que vou ficar, parado no meio do imenso e ignoto mar. Ou então: aqui fui infeliz, e daqui não quero passar. Distinguem-se assim, para uso quotidiano, optimistas e pessimistas- recordadores profissionais.
Quantos amigos tiveste que esquecer, incorporar na tua pele, para chegares ao amor de mim? Quantas palavras tiveste que esquecer para que pudesses dizer-mas pela primeira vez? Quantas pessoas serás ainda capaz de amar melhor do que nós os dois juntos alguma vez amámos, por amor de nós?
Há um exercício nos sentimentos que não pode ser levado até ao fim.Um lugar onde a eternidade se instala e a novidade das vitórias desaparece.Um lugar familiar num cinema de reprise, que já só pode existir depois de morto- como recordação radiosa. Nós já tinhamos estado nesse lugar. Nós já éramos só luz, estrelas e, como estrelas, mortos.
Inês Pedrosa ( Fazes-me falta)

Lo que queda después de los violinos
Xavier Abril
Quanto te esqueceres do meu nome,
e o meu corpo for apenas uma sombra
esbatida nas húmidas paredes deste quarto.
Quando já não te chegar o eco da minha voz,
ou o entoar das minhas palavras,
peço-te então que recordes: houve uma tarde,
umas horas, fomos felizes juntos e foi estrondoso viver.
Era domingo em Hampsead, com a frágil primavera de abril
a espontar nos rebentos dos castanheiros.
Em direcção à Igreja apressavam-se monjas irlandesas,
rapazes, endomingados e entorpecidos, pela mão.
Em cima, por detrás da sebe, na verde penumbra do parque,
dois homens beijavam-se, lentamente.
Chegaste tu, sem que me desse conta apareceste e começámos
a falar,
tropeçando de riso entre palavras, gaguejadas
no estranho idioma que nem a ti nem a mim pertencia.
Depois fizeste-te pequena nos meus braços
e a relva acolheu a tua escura cabeleira.
E sem demora a cinzenta escadaria, comprida e estreita,
a alfombra de cinza e gordura,
os teus pequenos e desolados seios na minha boca.
Sim, às vezes é simples e aprazível viver,
quero que te lembres, que não esqueças
do passar daquelas horas, do seu esperançado fulgor.
Também eu, longe de ti, quando perdida na memória
estiver a sede do teu sorriso, lembrarei, como agora,
enquanto escrevo estas palavras para todos aqueles
que num momento, sem promessas nem dádivas, puramente
se entregam;
e no desconhecimento de raças ou razões se fundem
num corpo único, mais ditoso,
para logo, aquietado já o instinto,
se separarem, cumprindo o seu destino,
sabendo que, talvez só por isso,
não foi a sua existência vã.
Juan Luis Panero (Antes que chegue a Noite)