
O POETA É UM ANIMAL LONGO
DESDE A INFÂNCIA
Luisa Neto Jorge ( O seu a seu tempo)
Voltarei em finais de Agosto. Um abraço especial a todos os que foram lendo e comentando as "aguarelas..." e que, assim, se foram também dando a conhecer.

Soubesse eu ao menos
- mas quem sou eu
de quem a voz que fala no poema?-
dizer-te neste dia
- mas quem és tu
quem tu a quem este poema se quer fala?-
o quanto a tua voz
não estando aqui
batendo junto à minha voz
como se uma fosse só da outra o vasto eco
me deixa abandonado
como se só essa voz- a tua voz
fosse sopro e forma de mim mesmo
a tua voz que inunda
a tua voz que percorre
por dentro das veias
a tua voz
que quando em mim a ouço
correndo-me por dentro como o sangue
se faz da minha a origem
em mim se faz princípio
me dá o encantamento de ser dia
outra vez
essa voz que sendo tu e eu ao mesmo tempo
me retira da Noite em que obscuro
permaneço sem nome e até sem rosto
sem forma nem princípio
assim se cala.
Bernardo Pinto Almeida ( Depois que tudo recebeu o nome de luz ou de noite)

Um riso canta no fogo
na cumplicidade das mãos
a grande paz dum segredo
os olhos vêem a neve
Sobre o silêncio do fogo
a palma doce da mão
E contra a noite que avança
todo o fogo do segredo
António Ramos Rosa ( Não posso adiar o coração)

adivinhava-se o mar, a gente hesitando a observarmos um jardim
- Serão acácias isto?
sem o mulato na lembrança dado que no rodar do tempo fui esquecendo o mulato consoante esqueci a minha mãe, o meu pai, a minha primeira mulher, esta doente de luto mais o crochet e a tristeza, dado que no rodar do tempo a única coisa de que me apercebo são o limoeiro do quintal, a minha irmã no berço, o cachorro que perdemos, o peso do compadre do meu pai no ombro a propósito de uma caixa
( qual caixa?)
e da terra na caixa
-Tens de preparar-te garoto
não precisa de recomendar que me prepare senhor Barbosa, eu a postos, não oiço os sinos vê, o discurso do padre, adivinho o mar
( dez ou doze quilómetros)
Para além das acácias, se a minha actual mulher
-Que tal foi?
amontoo-me na poltrona eu que costumo sentar-me, inclino a cabeça para o apoio da almofada
- Foi bem
ou antes não lhe respondo
-Foi bem
adormeço enquanto o mar se aproxima da gente, não é a minha actual mulher, é o mar que se aproxima de mim, traz uma manta para os joelhos, vai-me cobrindo com a manta, segreda seja o que for para si mesmo e eu então
- Foi bem
julgo que
( não estou seguro)
- Foi bem
suponho que eu
- Foi bem
dado que o mar, aliviado, descansado comigo, retira o crochet do saquito para continuar o naperon
António Lobo Antunes ( Eu Hei-de amar uma pedra)

Uma emoção pequenina
me vem do lado de lá
Rompe através da cortina
que envolve o mundo de cá
Chega ofegante e risonha
a escorrer gotas de orvalho
Nuns farrapos de vergonha
tem todo o seu agasalho.
Dá-lhe o sol num de repente.
Fulge rápida, num grito.
Flor de silêncio estridente,
continente de infinito.
Gota de som, dedilhada
em fios de Sol, chispando
espirros de luz irisada
como guizos tilintando.
Chama do espírito vivo
a velar corpo de luto.
Essa é a onda que escuto
quando sorrio sem motivo.
António Gedeão ( Poesias completas -1956-1967)

A poesia não me pede propriamente uma especialização pois a sua arte é uma arte do ser.Também não é tempo ou trabalho o que a poesia me pede.Nem me pede uma ciência nem uma estética nem uma teoria. Pede-me antes a inteireza do meu ser, uma consciência mais funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que eu posso controlar. Pede-me uma intransigência sem lacuna. Pede-me que arranque da minha vida que se quebra, gasta, corrompe e dilui uma túnica sem costura. Pede-me que viva atenta como uma antena, pede-me que viva sempre , que nunca me esqueça. Pede-me uma obstinação sem tréguas, densa e compacta.
Pois a poesia é a minha explicação do universo,a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso o poema não fala de uma vida ideal mas sim de uma vida concrecta:ângulo da janela, ressonância das ruas, das cidades, dos quartos. sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, respiração da noite, perfume da tília e do oregão.(...)
Sophia de Mello Breyner Andersen ( Geografia)

Iremos juntos sozinhos pela areia
Embalados no dia
Colhendo as algas roxas e os corais
Que na praia deixou a maré cheia.
As palavras que disseres e eu disser
Serão somente as palavras que há nas coisas
Virás comigo desumanamente
Como vêm as ondas com o vento.
O belo dia liso como o linho
Interminável será sem um defeito
Cheio de imagens e conhecimento.
Sophia de Mello Breyner Andersen (No Tempo Dividido)

Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.
Sophia de Mello Breyner Andresen ( Poesia)

...Não tremas. Eu não te vou prender, não te vou perseguir, não te vou enfeitiçar. És inteiramente livre.Poderia eu querer-te preso, mesmo a mim, depois do que para mim foste? Se eu te prendesse, ainda que com laços de imenso amor, a que tu próprio não quizesses fugir, que alegria seria a tua nos meus braços, ou a minha nos teus? Amar-me-ias por certo com uma violência maior, como se quizesses matar-me com as tuas armas de homem, e eu tiraria um prazer dobrado. Mas depois... depois como poderia eu olhar-te nos olhos, vendo neles um rancor horrível de estares preso a mim, rancor que nem tu confessarias a ti mesmo, mas que os teus olhos me diriam para sempre, a cada hora, mesmo quando ardessem no desejo ou no acto de estares em mim?
Então ele recostou na anca dela a cabeça e, de olhos fechados, ficou assim demoradamente, sem pensar em nada, sem sentir nada, apenas dado ao calor que o penetrava suavemente e era só ternura. No sono que o envolvia como um cansaço feliz, a sua ama, com a voz dela, cantava-lhe um velho cantar que, pouco a pouco, foi deixando de ouvir, na deriva em que se afastava de tudo e de si mesmo, com a sensação de que não estava só na barca que descia o rio. E a segurança que jamais estaria só, nunca, nunca, em parte nenhuma.
Jorge de Sena ( O Físico prodigioso)

Nem só o sul O'Neill nem só o sol
por debaixo da sombra há outras sombras
no interior da casa talvez na cama
sob os lençóis
no desejo reprimido na violência contida
no ancestral orgulho masculino
no grito abafado das mulheres
há outras noites outras sombras outras portas fechadas
outros domínios proíbidos
outras coutadas.
Manuel Alegre ( Alentejo e Ninguém)

A sua verdadeira tragédia (começava a entender) residia na incapacidade de comunicar aos outros o conhecimento que tinha da existência de um outro mundo, um mundo para além da ignorância e da fragilidade, para além do riso e das lágrimas. Era justamente esta barreira que o forçava a continuar palhaço, o palhaço do próprio Criador, pois em verdade não havia no mundo uma só pessoa a quem pudesse explicar o dilema. E eis que de repente lhe surgiu a ideia- tão simples!- que ser um zé-ninguém ou ser Alguém ou ser mesmo toda a gente não o impedia de ser ele próprio.(...)Tornar-se-ia de tal forma ele próprio que só a verdade, esta verdade que ardia agora nele como incêndio, seria reconhecível.
Uma vez mais fechou os olhos, para melhor se afundar na treva. Assim ficou durante longo tempo, respirando calma e pacificamente no leito do seu próprio ser. Quando descerrou as pálpebras, revelou-se-lhe um mundo despojado de todos os véus. Era o mundo que sempre existira no seu coração, pronto sempre a manifestar-se- mas que só começa a pulsar no momento em que um homem pulsa em uníssono com ele.
Henry Miller( O sorriso aos pés da escada)

XIII
Maçã cheia, pera e banana,
uva-espim...Tudo isto fala
morte e vida na boca... Pressinto...
Lede-o na cara da criança
Quando as prova e goza. Vem de longe.
Devagar perde o nome na boca?
Onde outrora houve termos, descobertas
há, libertas da polpa, surpresas.
Ousai vós dizer o que é a maçã.
Este dulçor que aos poucos se condensa
para, no gosto suave erguido,
se pôr claro, esperto e transparente,
senso duplo, solar, térreo, nosso —:
Ó experiência, tacto, gosto —, gigantesco !
Rainer Maria Rilke ( Sonetos de Orfeu)

Esta carta, minha amiga, será bem longa. Não gosto muito de escrever. Tenho lido vezes sem conta que as palavras atraiçoam o pensamento, mas parece-me que as palavras escritas atraiçoam-no ainda mais. Sabeis o que fica de um texto depois de duas traduções sucessivas. Além disso, não tenho jeito. Escrever é uma escolha perpétua entre mil expressões, nenhuma das quais me satisfaz, nehuma das quais, sobretudo, me satisfaz sem as outras. Eu devia no entanto saber que só a música permite encadear acordes. Uma carta, mesmo a mais extensa das cartas, obriga a simplificar o que o não deveria ser: somos sempre tão pouco claros, mas tentamos ser completos! Queria fazer aqui um esforço, não apenas de sinceridade, mas também e exactidão; estas páginas hão-de conter numerosas rasuras;contêm-nas já. Aquilo que vos peço ( a única coisa que ainda posso acaso pedir-vos) é que não omiteis uma só destas linhas que tanto me terão custado. Se é difícil viver, bem mais penoso é explicar a vida que se vive.
Marguerite Yourcenar ( Alexis)

2
Na perfeição do ramo está a pedra.Na seiva
se descobre, no rumo se percebe. Tudo se vai
em rodas de mistério, a própria viração
é a certeza da água, da pureza da água.
Nos trabalhos humildes das nossas mãos capazes,
no seio das maçãs,
no verde-mar dos dedos,
na loucura dos medos,
na perfeição do ramo está a pedra.
Pedro Támen

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.
( O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.
Alexandre O'Neill (Tempo de Fantasmas- 1951)

Lisboa às moscas e Veneza aos gatos...
( os pombos da bondade só conspurcam
a praça de S.Marcos)
...ao gato perna alta que não vem quando o chamas,
ao contrário da patrícia mosca,
que não era para aqui chamada,
mas logo te soprou os últimos zunzuns
mal chegaste a Lisboa.
O gato de Veneza não te dá pretextos
para miares o que te vai na alma,
nem os sacros temores da miaulesca
esfinge rilkeana.
Não é um gato é um perfil de gato
tapando a saída da calleta.
O gato veneziano é gato sem regaços
e sem selvajaria.
De Veneza o gato é sempre muitos gatos
que vão à sua vida...
...como tu, afinal, não vais à tua.
( De Veneza a Lisboa, num zunido,
já trazias a mosca no ouvido...)
Alexandre O'Neill (Feira Cabisbaixa- 1965)

Mãos
Sob a forma de mão apareceu a ternura,
um dia, no teu queixo.
*
Carícia. Parece p'ra dizer, p'ra ciciar,
mas é para fazer
com uma leve, sabedora, quase perversa
mão...
*
Com as duas mãos apodero-me de ti,
retomo o teu corpo e com ele me entendo.
*
( A um pintor)
Admiro a tua paciência vegetal,
o teu crescimento de raíz,
a tua pequena mão cega e certeira,
inocente, adequada e fiel,
a mão honesta e competente
que trazes a trabalhar na tela ou no papel,
a mão que abre janelas para o mundo
da nossa imaginação
e portas para a rua onde gastamos
o coração...
Que desenho, que desígnio traça a tua mão?
*
Preciso dos outros ( quem de mim precisa?)
Nos teus olhos vejo uma promessa nua.
A esperança está viva, a vida está certa:
guarda a minha mão, guardarei a tua.
Alexandre O'Neill ( Abandono vigiado -1960)

Comecei a adorar moer as coisas que ele trazia da farmácia- ossos, branco de chumbo, garança- ver como conseguia que as cores ficassem vivas e puras. Aprendi que quanto mais finamente fossem moídos os materiais, mais intensa ficava a cor. Os grãos ásperos e sombrios da garança transformavam-se num pó de um vermelho intenso que misturado com óleo de linhaça produzia uma tinta cintilante. Fazer esta e as outras cores era mágico.
Com ele também aprendi a lavar substâncias para as libertar de impurezas e a fazer aparecer as verdadeiras cores.(...)Era um trabalho demorado e fastidioso, mas era muito agradável ver a cor tornar-se mais limpa a cada lavagem e mais próxima do que era necessário.
A única cor que ele não me permitia tocar era o ultramarino. O lápis-lazuli era tão caro e o processo de extrair um azul puro da pedra tão difícil que era ele mesmo a fazê-lo.
Acostumei-me a andar por perto dele. Por vezes ficávamos lado a lado na pequena sala, eu a moer branco de chumbo, ele a lavar lazulite ou a queimar ocres na lareira. Ele era um homem calado e pouco falava comigo. Eu também não falava. Reinava a serenidade, com a luz a entrar pela janela. Quando acabávamos deitávamos água de um jarro sobre as mãos um do outro e esfregávamo-las até ficarem limpas.
(...) Não sentia tanto frio quando ele estava presente. Quando se encontrava perto de mim sentia o calor do seu corpo.
Tracy Chevalier ( Rapariga com Brinco de Pérola)

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.
Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.
Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.
Carlos Drumond de Andrade

As esculturas de Egina na colecção de Munique, a Antígona de Sófocles na melhor edição crítica, enquanto(são) as obras que são, estão enterradas ao espaço do seu estar-ser. Por mais elevados que possam ser a sua categoria e o seu poder de nos impressionar, por melhor que possa ser a sua conservação, por mais segura que seja a sua interpretação, a sua transferência para a colecção privou-as do seu mundo. Mas mesmo que nos empenhemos em superar ou em evitar tais transferências de obras- quando por exemplo,procuramos, no seu sítio, o templo em Paestum(ou) a catedral de Bamberg na sua praça,- o mundo das obras que estão perante já derruíu. Nunca mais é possível anular a privação do mundo e o ruír do mundo.As obras já não são aquilo que foram. São certamente, elas mesmas o que aí encontramos, mas elas mesmas são as que foram.
Martin Heidegger( Caminhos de Floresta)

Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada,
Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si sómente pode descançar,
Pois consigo tal alma está liada.
Mas esta linda e pura semideia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim co'a alma minha se conforma,
Está no pensamento como ideia;
(E) o vivo e puro amor de que sou feito,
Como a matéria simples busca a forma.
Luís de Camões ( Sonetos)

Não conseguia impedir que o coração lhe batesse mais depressa, quando se aproximava da mulher sentada à beira do prado; o coração bate do mesmo modo quando, subitamente, nos invade o aroma dos pinheiros ou o cheiro intenso de uma clareira onde abundam cogumelos nos penetra.
Há sempre qualquer coisa de temível na impressão que a Natureza produz e não há que ter ilusões sobre isto, pois é natural que a Natureza seja mesmo assim: terrena, angulosa, inumana e maléfica, sempre que se não cede à sua força. Talvez isto o ligasse à camponesa, mas, por outro lado, era também uma contínua admiração por ela se assemelhar tanto a uma senhora. Na verdade, era bem para admirar, encontrá-la sentada no prado, como uma dama a tomar chá...
Robert Musil ( Três mulheres)

O amor quer a posse, mas não sabe o que é a posse. Se eu não sou meu, como serei teu, ou tu minha? Se não possuo o meu próprio ser, como possuirei um ser alheio? Se sou já diferente daquele de quem sou idêntico, como serei idêntico daquele de quem sou diferente.
O amor é um misticismo que quer praticar-se, uma impossibilidade que só é sonhada como devendo ser realizada.
Bernardo Soares ( Livro do Desassossego)

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Ficámos um instante, só um instante, defronte um do outro, sem sabermos o que dizer.
Já também ao telefone, de quando em quando, nos tinha acontecido o mesmo. Ouvíamos então , descompassados, as nossas respirações, adivinhando que elas tentavam- em que ponto do espaço?- afinar uma pela outra a respectiva cadência. Depois, em torrente, frases que nem chegámos a terminar:
“Pareceu-me tão horrível se…””Também a mim. Eu é que não…””E só de pensar que… que podia acontecer… que nunca mais…” “Foi justamente o que pensei, mas…” “Nem chego a perceber como fui capaz de…””Não diga isso. O importante é que…”
Rimos, de repente, tão ridículos nos estávamos a sentir.
“ E quando é que…?”
Finalmente, as únicas frases completas:
“ Quando é que nos podemos ver?”
“Hoje. Pode ser hoje. Pode ser agora. Ia mesmo agora para Lisboa.” Emendou: “A Lisboa”. (…)
“Não era por isto. Não, não era por isto. Eu acho que não era por isto.” Depois, cavando-se um vincozinho de dúvida entre as sobrancelhas : “É como se diz? Ou para isto?”
“Depende . Tanto faz.”
E já nos estamos a beijar. E não só com as bocas: com os dedos, também, que vão de leve modelando o volume das testas o relevo das pálpebras, o contorno das orelhas, a espessura dos cabelos. É como se fôssemos afinal uma cega e um cego, de há muito conhecidos, de há muito separados, que ainda mal acreditam no milagre de se encontrarem.
David Mourão- Ferreira( Um Amor Feliz)

Não é possível grande arte, eloquência muito rebuscada, para provar que diferentes cristãos devem tolerar-se uns aos outros. Mas vou mais longe: digo-vos que é preciso olharmos para todos os homens como irmãos. O quê? O turco, meu irmão? O chinês, meu irmão? O judeu? O siamês? Sim, sem dúvida. Não somos nós todos filhos do mesmo pai, criaturas do mesmo Deus?
Mas esses povos desprezam-nos, chamam-nos idólatras! Pois bem, dir-lhes-ei que o seu erro é grande. Estou em crer que, no mínimo, conseguiria surpreender a teimosia orgulhosa de um imã ou de um talapão, se lhe falasse mais ou menos assim:
"Este pequeno globo, que mais não é do que um ponto, gira no espaço, como tantos outros globos. Andamos perdidos nessa imensidão. O homem, com uma altura aproximada de cinco pés, é sem dúvida coisa pouca no conjunto da criação. Um desses seres imperceptíveis, nas Arábias ou no país dos cafres, volta-se para alguns dos seus vizinhos e diz: " Escutai-me, porque o Deus de todos estes mundos me iluminou: há sobre a terra cem milhões de minúsculas formigas como nós, mas só o meu formigueiro é amado por Deus; todos os outros lhe causam horror eterno; só o meu formigueiro será feliz e todos os outros sofrerão o infortúnio eterno".
Interromper-me-iam, então, e perguntar-me-iam que louco poderia dizer tamanha tolice. E eu seria obrigado a responder-lhes: " Sois vós." Procuraria de seguida apaziguá-los; mas seria muito difícil.
Voltaire ( Tratado sobre a tolerãncia)

Meu amigo:
Afinal, eu,que prometera cartas longas como avenidas, tenho guardado um silêncio de monge. Que quer? E o meu demónio interior, este demónio que anda continuadamente a conversar comigo e a mostrar-me o lado hediondo e grotesco da existência. E o que surdamente me enfurece, é, como médico, saber qual é o mal que corrói e não poder dar-lhe remédio. Você imaginará esta tortura duma criatura que se sente a morrer a vida ( vá o paradoxo) e não pode tomar uma atitude. Creio que não é um produto exclusivo deste século a tal doença esquisita, que em calão médico tem um nome grego e em linguagem vulgar se chama não poder talhar a vida ao nosso ideal. (...)É uma enfermidade de que não sofre o Lopes brasileiro, e ainda bem, porque seria relaxar muito a enfermidade. Demais a mais, a ele bem lhe bastam os calos e joanetes, que são as doenças mais transcendentais de que pode sofrer um nabo daqueles. Eu precisava de encher muitas folhas de papel para descrever-lhe isto, este lento morrer a vida ( ainda o paradoxo, perdoe!).Mas nem isso posso.(...)
Espinho, 1 de Dezembro de 1905 o seu amigo do coração
Manuel Laranjeira
Cartas de Manuel Laranjeira

Deixo na mesa baixa o livro, o bolo,
o sumo de laranjas do oriente,
e essa secreta, doce especiaria
que te torna visível por momentos.
Poderás acordar-me, se quizeres
testemunha de tal metamorfose,
ou passar só as garras caprichosas
pelo sonho vulgar que me acontece.
Verei, pela manhã, traços de passos
humanamente nus pelo soalho,
e na borda dos pratos a saliva
de raros, venenosos cogumelos.
Terás levado o livro; o bolo a meio
tem a marca felina dos teus dentes.
António Franco Alexandre ( Duende)

Desejaria colocar-te flores nos cabelos.Quais? Nenhuma tem a simplicidade comovente que deveria, nenhuma é suficientemente simples. Em que Maio colhê-las?- Mas creio agora que tens sempre nos cabelos uma grinalda- ou coroa...Nunca te vi de outro modo.
Nunca te vi, que não tivesse o desejo de te rezar. Nunca te ouvi, que não tivesse o desejo de acreditar em ti. Nunca te esperei, sem desejo de sofrer por ti. Nunca te desejei, sem ter também o direito de me ajoelhar à tua frente.
RilKe a Lou Andreas-Salomé em Munique ( correspondência amorosa)
_-Wheat_Field_under_Clouded_Sky.jpg)
Em frente da porta de entrada havia uma arca enorme.Sei que nessas arcas arrumam os pobres tudo o que têm: a roupa do corpo, a roupa da cama, o milho para moer, o pão e a faca embrulhados num pano de linho grosseiro. Lembro-me do cheiro que sai da arca ao abrir- é um cheiro forte, são, de frutos naturais que a terra dá.
Ora um dia, quando me aproximei da arca- sabe-se lá se para dar a entender a minha mãe que queria pão- estava lá em cima uma coisa que eu nunca tinha visto. Em bicos dos pés, deitei-lhe a mão e puxei. Então o que aconteceu foi maravilhoso: de dentro saíu um som bonito, mais bonito ainda do que a voz da minha mãe, que certamente eu já ouvira cantar. E talvez não, talvez eu não tivesse ainda minha mãe cantar. Minha mãe era nesse tempo uma mulher triste. (cont)
Eugénio de Andrade ( De Amantes sem dinheiro)

É todo um mundo confuso, de penetração difícil, tanto mais difícil quanto mais pretendo pô-lo claro, transparente. Não sei se houve primeiro lágrimas ou o som do harmónio. Em todo o caso lembro-me de duas casas - uma na Eira e outra no Adro. Sei que as lágrimas e as estrelas eram na casa da Eira e a música do harmónio na casa do Adro.
Minha mãe disse-me que eu nasci na casa do Adro, e só um pouco mais tarde, quando a família a abandonou de todo, nos mudámos para a casa da Eira. Ambas eram casas pequenas, térreas, com duas divisões, mais que suficientes para mãe e filho viverem. Ainda há poucos anos vi essas casitas onde eu e a mãe começámos a ser um do outro, e pareceram-me incrivelmente pequenas, mais pequenas mesmo do que certas salas de brinquedos que os meninos ricos têm na cidade.(cont.)
Eugénio de Andrade (de Os amantes sem dinheiro)

Arrojos
Se a minha amada um longo olhar me desse
Dos seus olhos que ferem como espadas,
Eu domaria o mar que se enfurece
E escalaria as nuvens rendilhadas.
Se ela deixasse, extático e suspenso
Tomar-lhe as mãos mignonnes e aquecê-las,
Eu com um sopro enorme, um sopro imenso
Apagaria o nome das estrelas.
Se aquela que amo mais que a luz do dia,
Me aniquilasse os males taciturnos,
O brilho dos meus olhos venceria
O clarão dos relâmpagos nocturnos.
Se ela quisesse amar, no azul do espaço,
Casando as suas pernas com as minhas,
Eu desfaria o Sol como desfaço
As bolas de sabão das criancinhas.
………………………………….
Se ela ouvisse os meus cantos moribundos
E os lamentos das cítaras estranhas
Eu ergueria os vales mais profundos
E abalaria as sólidas montanhas.
E se aquela visão da fantasia
Me estreitasse ao peito alvo como arminho,
Eu nunca, nunca mais me sentaria
Às mesas espelhentas do Martinho.
Cesário Verde ( Poesias dispersas)

Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, indubitávelmente o livro.Os outros são extensões do seu corpo. O microscópio e o telescópio são extesões da vista; o telefone é o prolongamento da voz; seguem-se o arado e a espada, extensões do seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação.
Em César e Cleópatra de Shaw, quando se fala da biblioteca de Alexandria, diz-se que ela é a memória da humanidade. O livro é isso e também algo mais: a imaginação. Pois o que é o nosso passado senão uma série de sonhos? Que diferença pode haver entre recordar sonhos e recordar o passado? Tal é a função que o livro realiza.
Jorge Luís Borges ( Borges Oral )