
I
Passo a minha mão pela tua cabeça,
recurvamente, atentamente, e só com dedos brandos,
Olhando-a como passa e vendo onde passou.
Quero tanto saber o que tu pensas.
II
O que tu pensas, mas apenas como,
e quando e o porquê, e não
que estejas pensando ou não que a minha mão,
atenta e recurvada, passa brandamente.
Quero saber aquilo que nem sabes.
III
Aquilo que nem sabes- como saberias
o que o pensar é antes de pensar-se?
A mão que pousa e vai passar atenta.
O olhar que espera ver passar o gesto.
A tácita lembrança de volver os olhos.
A brisa que sabemos vai soprar tão mansa,
ainda antes, no fremir de pétalas ou folhas,
mas não na expectativa de arrepio prévio.
III
Por que esperaste, ciente, a pele da minha mão?
Jorge de Sena ( Fidelidade )

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
- Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.
Herberto Helder ( Poemacto-1961)

Conheço esta quietude. Conheço esta tarde. As ovelhas debaixo dos sobreiros, como mortas. A cadela deitada ao pé de mim. As ervas miúdas a vergarem-se numa aragem fraca. O céu de encontro à terra, a reflectir o vagar do céu, o céu a reflectir o vagar da terra. Conheço esta tarde, porque a vivi muitas vezes, porque muitas vezes escutei esta quietude e esta certeza serena. Penso: talvez haja uma luz dentro dos homens, talvez uma claridade, talvez os homens não sejam feitos de escuridão, talvez as certezas sejam uma aragem dentro dos homens e talvez os homens sejam as certezas que possuem.
Um ardor no lugar do coração afiança-me que vem aí. Caminha nesta direcção. Sinto no meu corpo o seu corpo a caminhar, os seus passos, nem lentos, nem rápidos. Sinto no meu corpo as suas ideias simples e as suas intenções sinceras. Sinto no meu rosto a sua expressão de homem e criança, de criança tornada homem por leis apressadas. Vem aí. E, quando a tarde for mais branda e o calor principiar a desistir, chegará. Vindo da direcção do monte, chegará e, vendo-me, começará a correr, como corre uma criança com medo para os braços da mãe.E, como se nos abraçássemos, olhar-me-á com olhos sempre sinceros. Acreditará em mim. E partirá no sossego dos simples. Eu, com a tarde moribunda numa limpidez clara e quase nocturna, serei o tormento que sou, serei o desalinho das minhas dores e esperanças. E, aqui, sob este céu a tocar-me com o seu incêndio, agora, sei que assim será. Afiança-mo um ardor no lugar do coração.
José Luís Peixoto ( Nenhum lugar)

Ápice
O raio de sol da tarde
Que uma janela perdida
Reflectiu
Num instante indiferente-
Arde,
Numa lembrança esvaída,
À minha memória de hoje
Subitamente...
Seu efémero arrepio
Ziguezagueia, ondula, foge,
Pela minha retentiva...
- E não poder adivinhar
Por que mistério se me evoca
Esta ideia fugitiva,
Tão débil que mal me toca!...
-Ah, não sei porquê, mas certamente
Aquele raio cadente
Alguma coisa foi na minha sorte
Que a sua projecção atravessou...
Tanto segredo no destino de uma vida...
É como a ideia de Norte,
Preconcebida,
Que sempre me acompanhou...
Mário de Sá Carneiro ( Dispersão)

Esfregava os olhos, olhando em redor, mas o mal não era dos olhos. Era das coisas. Diziam-lhe que acreditava nela, mesmo antes de a conhecer; quando se olha o mundo sem os olhos do mundo, divide-se em pormenores sem nexo, tristemente separados uns dos outros, como as estrelas na noite.(...)
O querer, o saber e o sentir estão enrolados num novelo; só se dá por isso quando se perde o fio à meada; mas será que se pode caminhar pelo mundo sem ser pelo fio da verdade?
Robert Musil ( Tonka)

Eran tres.
( Vino el día con sus hachas)
Eran dos,
( Alas rastreras de plata),
Era uno,
Era ninguno
( Se quedó desnuda el agua).
Frederico Garcia Lorca ( Canciones)
-apples-peaches-pears-and-grapes.jpg)
Agosto,
contraponientes
de melocotón y azúcar,
y el sol dentro de la tarde,
como el hueso de una fruta.
La panocha guara intacta
su risa amarilla y dura.
Agosto,
Los niños comen
pan moreno y rica luna.
Federico Garcia Lorca (Canciones)

Por vezes, à beira-mar, no perpétuo movimento das águas e no eterno fugir do vento, sinto o desafio que a eternidade me lança. Pergunto-me então o que vem a ser o tempo, e descubro que não passa do consolo que nos resta por não durarmos sempre. Miserável consolo, que só os Suíços enriquece...
Noites há, em que, sentado à lareira, no quarto mais resguardado de todos, sinto subitamente a morte cercar-me: no fogo, nos objectos ponteagudos que me rodeiam, no peso do tecto e na massa das paredes; na água, na neve, no calor, no meu sangue. Pergunto-me então o que vem a ser a nossa mais humana sensação de segurança, e percebo que não passa de um consolo para o facto de a morte ser o que há mais próximo à vida. Pobre consolo, que não cessa de nos recordar o que desejaria fazer-nos esquecer!
Decido encher todas as minhas páginas em branco com as mais belas combinações de palavras que seja capaz de engendrar. E depois, porque quero assegurar-me que a vida não é absurda e não me encontro só sobre a terra, reúno-as todas num livro e ofereço-o ao mundo. Este, retribui-me com a riqueza, a glória e o silêncio. Mas não sei que fazer com este dinheiro, nem que prazer tirar de contribuir para o progresso da literatura, pois só desejo o que jamais obterei- a certeza de que as minhas palavras tocaram o coração do mundo. É então que me pergunto o que vem a ser o meu talento, e descubro que não passa de uma forma de me consolar da solidão. Risível consolo- que apenas torna cinco vezes mais pesada a solidão.
Stig Dagerman ( A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer)

BURNT NORTON
I
O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro,
E o tempo futuro contido no tempo passado
Se todo o tempo é eternamente presente
Todo o tempo é irredimível.
O que podia ter sido é uma abstracção
Permanecendo possibilidade perpétua
Apenas num mundo de especulação.
O que podia ter sido e o que não foi
Tendem para um só fim, que é sempre presente.
Ecoam passos na memória
Ao longo do corredor que não seguimos
Em direcção à porta que nunca abrimos
Para o roseiral. As minhas palavras ecoam
Assim, no teu espírito.
Mas para quê
Perturbar a poeira numa taça de folhas de rosa
Não sei.
.........................
Vai, vai, vai, disse a ave; o género humano
Não pode suportar muita realidade.
O tempo passado e o tempo futuro
O que podia ter sido e o que foi
Tendem para um fim, que é sempre presente.
T.S.Eliot ( Quatro quartetos)

Corpo, não te lembres de quanto foste amado
só; nem só dos leitos em que te deitaste;
mas também dos desejos que por ti
brilharam francamente nos olhares,
nas vozes palpitaram- e que apenas
um acaso impediu e reduziu a nada.
Agora que ao passado já pertencem todos,
quase é como se tu, a tais desejos,
também te houveras dado -como eles brilharam,
lembra, nos olhos que se demoravam,
e como nas vozes palpitaram, lembra-te, por ti.
Contantin Cavafy ( 90 e mais quatro poemas)

Abril o nosso mês, Rainer, o mês anterior àquele que nos uniu. Quantas vezes Abril me faz, e não certamente por acaso, pensar em ti. Porque em Abril se encontram contidas as quatro estações, com as suas horas de uma atmosfera de neve e quase de Inverno, ao lado de outras horas de um esplendor escaldante, e de outras ainda de tempestades quase de Outono, semeando o chão húmido não de folhas desmaiadas, mas de invólucros de flores em botão- e não é verdade que nesse chão habita, a qualquer hora, a Primavera, que reconhecemos antes ainda de qualquer primeiro olhar? Daí o silêncio e a naturalidade que nos uniram, como algo que tivesse existido sempre.
Se durante anos fui tua mulher, foi porque tu foste para mim o pela primeira vez real, corpo e ser humano indiferenciávelmente unos, facto indubitável da própria vida.Palavra por palavra, teria podido confessar-te o que, como confissão de amor, foste tu a dizer-me:"Só tu és real."Assim nos tornamos esposos antes de termos sido amigos e a nossa amizade também mal a escolhemos, originária de núpcias igualmente subterrâneas. Em nós não eram duas metades que se buscavam; era a totalidade surpreendida a reconhecer-se, como um calafrio, numa incrível unidade. E deste modo fomos irmãos, mas como irmãos de um tempo remoto, anterior àquele em que o incesto se tornaria sacrilégio.
A nossa solidariedade, pronta e disponível- para usar a tua expressão- para a luz e para o escuro de todas as estações teve que sofrer a prova das circunstâncias inamovíveis e imperiosas da vida, as circunstâncias que quase chegam a suprimir a própria expressão poética do que vive. Mas teríamos o direito de destroçar, como fizemos, o que então conquistou forma poética? ....
Lou Andreas-Salomé ( Escrito em Abril de1934, oito anos depois da morte de Rilke, num apêndice à sua autobiografia)

Senhor libertai-nos do jogo perigoso da transparência
No fundo do mar da nossa alma não há corais nem búzios
Mas sufocado sonho
E não sabemos bem que coisa são os sonhos
Condutores silenciosos canto surdo
Que um dia subitamente emergem
No grande pátio liso dos desastres.
Sophia de Mello Breyner Andersen ( Geografia)

O mundo onde viviam ficava agora, durante dias inteiros, coberto de nuvens que os cercavam como um estendal de roupa molhada, em tons de cinzento, verde, azul, segundo o ângulo dos raios de Sol que o atravessava. Todas as tardes, faziam um passeio até ao percípicio, e sentavam-se numa rocha a admirar a paisagem que cintilava abaixo delas durante as imprevisíveis abertas ou a observar a maneira como o vento arrancava um farrapo do véu de bruma, deixando entrever uma nesga de céu limpo.
Passaram uma noite inteira a ouvir, por cima das suas cabeças, o som ténue do voo de bandos de cegonhas demandando, de partida para o Egipto, com os seus longos pescoços e as suas grandes asas, outros céus mais clementes. As torrentes transbordaram e os gritos dos pássaros misturaram-se ao som musical da água que corria entre pedras, troncos, líquenes e musgos.
No sentido mais vital e mais profundo, nada havia a dizer: não havia balanço a calcular nem juízo a emitir sobre aquilo que começara a viajar através deles, o tempo em estado puro, como a água que passa silenciosamenteentre os dedos que, borda fora, alguém deixa mergulhada na corrente. A própria neve, ao chegar, parecia fazer parte da ordem e do ritmo do pequeno universo que os envolvia. Os leves flocos amontoavam-se contra as paredes da casa onde viviam, cintilando ao sol como miríades de gotas de orvalho subindo, por fim, até à altura do telhado do estábulo que Truman construíra para abrigar as ovelhas e a vaca. Também esses animais tinham descoberto uma passagem através do labirinto, e também para eles a felicidade deixara de ser um problema.
Lawrence Durrell ( O Labirinto das trevas)

Nome, que não se diz; nome, que não se escreve;
Quem vai meter num som o mundo, a imensidão?
O Amor que nome tem? real, jamais o teve...
Escrever!... pois é pouco um livro- O coração?...
Antero de Quental (Primaveras românticas- Beatrice )

Ponto de interrogação
Terei de descobrir o que se encontra
no ponto de encontro.
À meia-noite, com os bancos
vazios e as linhas fechadas,
terei de ver o que se esconde
no vazio do ponto de encontro.
Sentar-me-ei no banco que fica
em frente do ponto de encontro, sem
saber se alguém me irá encontrar
onde nos devíamos ter encontrado.
Um ponto não é uma vírgula;
quanto muito, pode ser um ponto
de interrogação quando me pergunto
o que se encontra no ponto de encontro.
E a resposta está no banco vazio
onde me sento, antes que tu chegues
ao ponto de encontro onde o nosso
encontro irá esvaziar de dúvidas
todos os pontos e vírgulas
que a meia-noite encerra.
Nuno Júdice ( Geometria variável- abril 2005)