setembro 30, 2005

A um ti que eu inventei

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Pensar em ti é coisa delicada.
É um diluír de tinta espessa e farta
e o passá-la em finíssima aguada
com um pincel de marta.

Um pesar grãos de nada em mínima balança
um armar de arames cauteloso e atento,
um proteger a chama contra o vento,
pentear cabelinhos de criança.

Um desembaraçar de linhas de costura,
um correr sobre lã que ninguém saiba e oiça,
um planar de gaivota como um lábio a sorrir,

Penso em ti com tamanha ternura
como se fosses vidro ou película de loiça
que apenas como o pensar te pudesses partir.

António Gedeão ( Poemas escolhidos)

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setembro 29, 2005

A olhar a parede branca

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Há cartas que nunca mais chegam,
as que não chegarão nunca.

O nosso destino suspenso
das notícias de longe.

Para alguém temos de ser
a luz e o lume,
o fogo e a água.


João Camilo (Bilhetes postais(exercícios sobre a ausência))




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setembro 28, 2005

Algumas dessas modificações são sublimes

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No dia em que uma estátua é acabada, começa, de certo modo a sua vida. Fechou-se a primeira fase em que, pela mão do escultor, ela passou de bloco a forma humana; numa outra fase, ao correr dos séculos, irão alternar-se a adoração, a admiração, o amor, o desprezo ou a indiferença, em graus sucessivos de erosão e desgaste, até chegar, pouco a pouco, ao estado mineral informe a que o seu escultor a tinha arrancado.
Já não temos hoje, todos o sabemos, uma única estátua grega tal como a conheceram os seus contemporâneos: já só ao de leve apercebemos a cabeleira de uma Koré ou de um Kouros do século VI, traços avermelhados que hoje nos parecem um pálido hena, a provar a sua antiga qualidade de estátuas pintadas, vivas dessa intensidade quase assustadora de manequins e de ídolos que eram obras-primas, por acréscimo. Esses objectos duros trabalhados para imitar formas de vida orgânica sofreram, à sua maneira, o equivalente do cansaço, do envelhecimento, da desgraça. Mudaram como o tempo nos muda.As sevícias dos cristãos ou dos Bárbaros,as condições em que vivem soterradas durante séculos de abandono até que as redescobrimos, os restauros sábios ou desajeitados por que passaram, bem ou mal, as sucessivas camadas, verdadeiras ou falsas, que nelas se foram sobrepondo, tudo, até a atmosfera dos próprios museus onde hoje se encontram encerradas, marca o seu corpo de metal ou pedra para todo o sempre.
Algumas destas modificações são sublimes. À beleza, tal como a concebeu um cérebro humano, uma época, uma forma forma particular de sociedade, ela juntam a beleza involuntária que lhes vem dos acidentes da História e dos efeitos naturais do tempo.(...)
O perito não hesita no entanto:esta linha apagada, esta curva desaparecida aqui e logo encontrada, não pode vir senão de uma mão humana, humana e grega, que viveu em tal lugar e em tal século. O homem inteiro está aí , a sua colaboração inteligente com o universo e a sua luta contra ele, até à derrota final em que o espírito e a matéria que lhe serve de suporte acabam por perecer juntos. A sua intenção afirma-se até ao fim na ruína das coisas.(..)


Marguerite Yourcenar ( O Tempo esse grande escultor)

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setembro 27, 2005

Aquele que acredita...

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Aquele que acredita no girassol não meditará dentro de casa.
Todos os pensamentos de amor serão os seus pensamentos.

René Char (1907-1988 A Religião do Girassol)

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setembro 26, 2005

O que é o fogo?


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O fogo e o calor fornecem meios de explicação nos mais diversos campos, pois facultam-nos o ensejo de recordar coisas imorredoiras, experiências pessoais simples e decisivas. O fogo é, portanto, um fenómeno priviligiado que pode explicar tudo. Se aquilo que se modifica lentamente se explica através da vida, o que se modifica depressa é explicado pelo fogo. O fogo é ultravivo. O fogo é íntimo e universal. Vive no nosso coração. Vive no céu. Sobe das profundezas da substância e oferece-se como o amor. Volta a tornar-se matéria e oculta-se, latente, contido, como o ódio e a vingança. Entre todos os fenómenos, é ele realmente o único que pode aceitar as duas valorações opostas: o bem e o mal. Brilha no paraíso. Arde no Inferno. É doçura e tortura. É cozinha e apocalipse. É prazer para a criança que se senta com juízo à lareira; no entanto castiga qualquer desobediência de quem pretende brincar demasiado perto das chamas. É bem estar e respeito.É um deus tutelar e terrível, bom e mau. Pode contradizer-se: é portanto um dos princípios de explicação universal


Gaston Bachelard ( A Psicanálise do Fogo)

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setembro 25, 2005

As noites esmagam o coração...

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Alguém parte uma laranja em silêncio, à entrada
de noites fabulosas.
Mergulha os polegares até onde a laranja
pensa velozmente, e se desenvolve, e aniquila, e depois
renasce. Alguém descasca uma pera, come
um bago de uva, devota-se
aos frutos. E eu faço uma canção arguta
para entender.
Inclino-me para as mãos ocupadas, as bocas,
as línguas que devoram pela atenção dentro.
Eu queria saber como se acrescenta assim
a fábula das noites. Como o silêncio
se engrandece, ou se transforma com as coisas. Escrevo
uma canção para ser inteligente dos frutos
na língua, por canais subtis, até
uma emoção escura.

Porque o amor também recolhe as cascas
e o mover dos dedos
e a suspensão da boca sobre o gosto
confuso. Também o amor se coloca às portas
das noites ferozes
e procura entender como ela imaginam seu
poder estrangeiro.
Aniquilar os frutos para saber, contra
a paixão do gosto, que a terra trabalha a sua
solidão- é devotar-se,
esgotar a amada, para ver como o amor
trabalha na sua loucura.

Uma canção de agora dirá que as noites
esmagam
o coração. Dirá que o amor aproxima
a eternidade, ou que o gosto
revela os ritmos diuturnos, os segredos
da escuridão
Porque é com nomes que alguém sabe
onde estar um corpo
por uma ideia, onde um pensamento
faz a vez da língua
- É com as vozes que o silêncio ganha.

Herberto Helder( Teoria sentada II- LUGAR)


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E o poema faz-se contra a carne e o tempo

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O POEMA

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne.
Sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.


Fora existe mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
rios, a grande paz exterior das coisas,
folhas dormindo o silêncio
- a hora teatral da posse.


E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
Invade as casas deitadas nas noites
e as luzes e as trevas em volta da mesa
e a força sustida das coisas
e a redonda e livre harmonia do mundo.
-Em baixo o instrumento preplexo ignora
a espinha do mistério.

E o poema faz-se contra a carne e o tempo.

Herberto Helder ( A colher na boca)

Posted by addiragram at 04:23 PM | Comentários: (1)

UM DOMINGO COM HERBERTO HELDER

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Não sei como dizer-te que a minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente os teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
- eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim te procuram.

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
- E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
- não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim , te procura.

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço-

e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave-
qualquer coisa extraordinária.
Porque não sei dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,


que te procuram.


Herberto Helder (A colher na boca )

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setembro 24, 2005

Onde encontrar minha alma?

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CO'A CANDEIA de estrelas * saí rumo aos céus
À frescura dos prados * única margem do mundo
Onde encontrar minha alma * lágrima de quatro folhas?

Os mirtos magoados * prateados de sono
Regaram o meu rosto * Sopro e ando solitário
Onde encontrar minha alma * lágrima de quatro folhas?

Ó condutor dos raios * ó mago das alcovas
Adivinho que sabes * o futuro diz-me tu
Onde encontrar minha alma * lágrima de quatro folhas?

Minhas meninas trazem * luto pelos séculos
Meus rapazes carregam * espingardas e não sabem
Onde encontrar minha alma * lágrima de quatro folhas?

As noites de cem mãos * no vasto firmamento
Remexem-me as entranhas * queima-me esta dor
Onde encontrar minha alma * lágrima de quatro folhas?

Co' a candeia de estrelas * vou voltar aos céus
À frescura dos prados * única margem do mundo
Onde encontrar minha alma * lágrima de quatro folhas?

Odysséas Elytis (Louvada Seja -1911-1995)

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setembro 22, 2005

No Mundo só há um templo...

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No MUNDO há só um templo: o corpo humano. Nada mais sagrado do que esta forma sublime. Inclinarmo-nos perante um homem, é render homenagem a esta revelação na carne. É no céu que tocamos quando tocamos num corpo humano.

Novalis (Fragmentos-1772-1801)

Posted by addiragram at 09:01 PM | Comentários: (2)

Esta noite, outra noite...

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ESTA NOITE,outra noite,
esta manhã que nasce pelas frinchas
da janela pequena entreberta,
por planaltos e vales caprichosos,
lagos azuis, ravinas, e pinhais,
irei de vez em quando perguntando
onde existes? onde estás?
Talvez te enroles no lençol, ou seja
tua esta voz que canta em língua estranha,
ou por galáxias amplas de aventura
noutro quarto quebrado me procures
para existires em mim uma vez mais.
Que medo tenho, de ir perdendo a sorte
em armários de gente contrafeita,
e ser, quando voltares, imunda fera
morta, sem dentes, numa esquina ou poço,
o último exemplar da sua espécie;
eu que seria jovem para sempre
em cada pensamento, em cada gesto,
em cada rima obscura do teu verso.

António Franco Alexandre (1944- Uma Fábula)

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setembro 20, 2005

Sentimentos/ análise dos sentimentos

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Os sentimentos exprimem a felicidade, fazem sorrir. A análise dos sentimentos exprime a felicidade, pondo de parte toda a personalidade, faz sorrir. Aqueles elevam a alma, dependentemente do espaço, do tempo, até à concepção da humanidade considerada em si mesma, nos seus membros ilustres! Esta eleva a alma, independentemente do tempo, do espaço, até à concepção da humanidade considerada na sua mais alta expressão, a vontade! Aqueles tratam dos vícios, das virtudes; esta trata apenas das virtudes.Os sentimentos não conhecem a ordem da sua marcha. A análise dos sentimentos ensina a fazê-la conhecer, aumenta o vigor dos sentimentos. Com eles, tudo é incerteza. São a expressão da felicidade e da infelicidade, dois extremos. Com ela, tudo é certeza. Ela é a expressão daquela felicidade que resulta, em determinado momento, de nos sabermos conter no meio das paixões boas ou más. Ela utiliza a sua calma para fundir a descrição dessas paixões num princípio que circula através das páginas: a não existência do mal.Os sentimentos choram quando lhes é preciso, tanto como quando lhes não é. A análise dos sentimentos não chora. Possui uma sensibilidade latente, que apanha desprevenido, arrasta por cima das misérias, ensina a dispensar guia, fornece uma arma de combate. Os sentimentos , sinal de fraqueza, não são o sentimento! A análise do sentimento, sinal da força, engendra os sentimentos mais magníficos que conheço.

Isidore Ducasse Conde Lautréamont ( Cantos de Maldoror ; Poesias)

Posted by addiragram at 10:16 PM | Comentários: (2)

Numa hora e dez minutos...

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VOZ

Não do corpo Mais do vulto
vem a voz que tudo evoca

Numa hora e dez minutos
mil e uma noites ocorrem

Não da boca Mais do fundo
a voz que tudo convoca

Numa hora e dez minutos
mil e uma noites ocorrem

David Mourão Ferreira ( Colar de Xerazade)


Posted by addiragram at 08:05 AM | Comentários: (1)

setembro 19, 2005

A palavra perdida

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Não somente a linguagem mas as palavras todas, por únicas que nos pareçam, por solitárias que partam e por inesperada que seja a sua aparição, aludem a uma palavra perdida, numa espécie de alvorecer que a anuncia a palpitar por momentos. E ela é também sentida a pulsar no fundo da própria respiração, do coração que a guarda, penhor do que a esperança não consegue imaginar. E na própria garganta, fechando com a sua presença a passagem da palavra que ia a saír. Essa porta que a alva fecha quando se abre. O amor que nunca chega, que desfalece ao chegar a aurora, o inapreensível que parte dos que vão morrer ou estão já a morrer, e que lutam- tormento da agonia-por a deixar aqui e a derramar e que já não lhes é possível.(...)
Perdida a palavra única, segredo do amor divino-humano. E não estará ela assinalada por aquelas priviligiadas palavras quase imperceptíveis, como o murmúrio de uma pomba : Direis que me perdi,/ Que andando enamorada,/ Por perdida me dei e fui achada.

1-versos do Cântico espiritual de S.João da Cruz


María Zambrano ( Clareiras do Bosque)

Posted by addiragram at 10:59 PM | Comentários: (0)

setembro 18, 2005

Uma porta de folhas na noite


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Quem bate a uma porta de folhas na noite
uma porta de folhas na noite
Quem toca a dura casca do teu nome na noite
a uma porta de folhas


Uma porta de folhas uma porta
Quem bate a essa porta de folhas
Quem bate a essa porta de folhas na noite
Quem bate a essa porta sou eu


António Ramos Rosa ( O mesmo e outro chão)

Posted by addiragram at 10:38 PM | Comentários: (2)

UM DOMINGO COM RAMOS ROSA

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De escadas insubmissas
de fechaduras alerta
de chaves submersas
e roucos subterrâneos
onde a esperança enlouqueceu
de notas dissonantes
dum grito de loucura
de toda a matéria escura
sufocada e contraída
nasce o grito claro

Não posso adiar o coração para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas


Não posso adiar este abraço
Que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração


António Ramos Rosa ( O Grito claro)

Posted by addiragram at 11:18 AM | Comentários: (1)

setembro 17, 2005

Narciso

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Dentro de mim me quiz eu ver. Tremia.
Dobrado em dois sobre o meu próprio poço...
Ah, que terrível face e que arcabouço
Este meu corpo lânguido escondia!


Ó boca tumular, cerrada e fria,
Cujo silêncio esfíngico eu bem ouço!
Ó lindos olhos sôfregos, de moço,
Numa fronte a suar melancolia!...

Assim me desejei nestas imagens.
Meus poemas requintados e selvagens.
O meu desejo os sulca de vermelho:

Que eu vivo à espera dessa noite estranha,
Noite de amor em que me goze e tenha,
....Lá no fundo do poço em que me espelho!


José Régio

Posted by addiragram at 09:50 AM | Comentários: (1)

setembro 16, 2005

PARA OS 1ºS MIL E QUINHENTOS !

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Esta foi a forma que encontrei de dizer obrigada a todos os meus visitantes.

Posted by addiragram at 11:56 PM | Comentários: (1)

Falar é outra coisa...

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Falar é outra coisa, é essa ponte sagrada em que ficamos pendentes, suspensos sobre o abismo. Falar é outra coisa, vos digo. Dessa vez, com esse homem, na palavra, eu me divinizei. Como perfume em que me perdesse minha própria aparência. Me solvia na fala, insubstanciada. Lembro desse encontro, dessa primogénita primeira-vez. Como se aquele momento fosse, afinal, toda a minha vida. Aconteceu aqui, neste mesmo pátio em que agora o espero. Era uma tarde boa para a gente existir. O mundo cheirava a casa. O ar por ali parava. A brisa sem voar, quase nidificava. Vez e voz, os olhos e olhares. Ele, em minha frente, todo chegado como se a sua única viagem tivesse sido para a minha vida.
No entanto, aparentava distância. O fumo escapava entre os seus dedos. Não levava o cigarro à boca. Em seu parado gesto, o tabaco a si se consumia. Ele gostava assim: a inteira cinza tombando intacta no chão. Pois eu tombei igualzinha àquela cinza. Desabei inteira sobre o corpo dele. Depois, me desfiz em poeira, toda estrelada no chão. As mãos dele: o vento espalhando cinzas. Eu.

Mia Couto ( A Despedideira)

Posted by addiragram at 03:08 PM | Comentários: (1)

setembro 15, 2005

Que faz de nós humanos?

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Variações sobre o mesmo tema

A ferida que dói e não se sente
abre em nós o vazio de ser gente:


pois só o mal de amor e o seu fogo
faz o homem ser ave antes do ovo.

Que faz de nós humanos? O que fala
ou o pulsar sem fim do que em nós cala

e brilha nos amores por viver,
nas palavras que os versos vão perder,

no respirar a cada madrugada
do que em pó se desfaz e puro nada?


A ferida que dói e não se sente
descobre o que é humano no que é rente

ao viver deslumbrado no vazio
das estrelas imersas no seu frio.


Luís Castro Mendes ( Os amantes obscuros-1999)

Posted by addiragram at 10:16 PM | Comentários: (1)

setembro 14, 2005

Gostava de atirar palavras/ gostava de escrever com um fio de água

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ESCREVER

Se eu pudesse havia de...de...
transformar as palavras em clava!
havia de escrever rijamente
Cada palavra seca, irressoante!
Sem música, como um gesto,
uma pancada brusca e sóbria.
Para quê,
mas para quê todo o artifício
da composição sintáctica e métrica,
este arredondado linguístico?
Gostava de atirar palavras.
Rápidas, secas e bárbaras: pedradas!
Sentidos próprios em tudo.
Amo? Amo ou não amo!
Vejo, admiro, desejo?
Ou não...ou sim.
E, como isto, continuando...

E gostava,
para as infinitamente delicadas coisas do espírito
( quais? mas quais?)
em oposição com a braveza
do jogo da pedrada
da pontaria às coisas certas e negadas,
gostava...
de escrever com um fio de água!
um fio que nada traçasse...
fino e sem cor...medroso...
Ó infinitamente delicadas coisas do espírito...
Amor que se não tem,
desejo dispersivo,
sofrimento indefinido,
ideia incontornada,
apreços, gostos fugitivos...
Ai, o fio da água poderia
sobre vós passar, transparentemente...
ou seguir-vos, humilde e tranquilo?


Irene Lisboa

Posted by addiragram at 11:19 PM | Comentários: (1)

setembro 13, 2005

Desejo partir...

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O meu desejo é fugir.Fugir ao que conheço, fugir ao que é meu, fugir ao que amo. Desejo partir- não para as Índias impossíveis, ou para as grandes ilhas ao Sul de tudo, mas para o logar qualquer- aldeia ou ermo-que tenha em si o não ser este logar.Quero não ver mais estes rostos, estes hábitos e estes dias.Quero repousar, alheio do meu fingimento orgânico. Quero sentir o somno chegar como vida, e não como repouso. Uma cabana à beira mar, uma caverna, até, no socalco rugoso de uma serra, me pode dar isto. Infelizmente só a minha vontade m'o não pode dar.

Fernando Pessoa ( Livro do Desassossego por Bernardo Soares)

Posted by addiragram at 08:58 PM | Comentários: (1)

setembro 12, 2005

Vou agora te contar...

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Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta.De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é uma linha sub-reptícia.Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois factos existe um facto, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir-nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo e aquilo que ouvimos e chamamos silêncio.

Clarice Lispector ( A paixão segundo G.H.)

Posted by addiragram at 10:50 PM | Comentários: (2)

setembro 11, 2005

Conselho

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Coimbra, 20 de Fevereiro de i962

Salta, discretamente, a pagina do amor
No Livro de Horas,
Não leias mal o que já leste bem.
Emocionado, choras
A cada passo,
E tornas baço
O brilho que ela tem.

Deixa o texto arquivado na lembrança.
Passa adiante e cobre-o de pudor.
No jardim resta ainda tanta flor
Que podes desfolhar
Sem lágrimas na voz!...
Quem souber ter, sabe renunciar...
Há laudas de silêncio em todos nós.

Miguel Torga( Diário IX)

Posted by addiragram at 10:27 PM | Comentários: (0)

Viagem

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Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé no marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar...
( Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).

Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.

Miguel Torga (Câmara ardente)


Posted by addiragram at 05:29 PM | Comentários: (0)

UM DOMINGO COM MIGUEL TORGA

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Comunhão

Falo do sacramento do silêncio
Da muda eucaristia
Da vida,
Quando no mundo não havia ainda
Palavras
E ninguém profanava
A terra que pisava.

Falo da neve, sem qualquer imagem
A sujar-lhe a brancura.
E relembro a pureza
Do lobo a passeá-la sem a ver,
À procura
Da presa
Que há-de comer.


Falo do mar sem ninfas
E sem Camões,
Das estações
Do ano,
Conhecidas apenas
Pela fúria do vento,
Pelo cheiro das flores,
Pelo gosto dos frutos
E pelo sono das folhas fatigadas
No alto travesseiro das ramadas.

Falo de tudo que não tinha nome,
E tem nome,
E o nome desfigura,
E queixo-me de ti, humana criatura,
Que dizes madrugada
De janela fechada,
E acreditas
Que o som da tua voz enclausurada
Traz o renovo de que necessitas.


Miguel Torga ( Orfeu rebelde-1958)

Posted by addiragram at 10:57 AM | Comentários: (1)

setembro 10, 2005

Amor um mal que mata...

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Busque Amor novas artes, novo engenho
Para matar-me, e novas esquivanças,
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho
Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.
Mas, enquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê,
Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como e dói não sei porquê.

Luís de Camões ( Sonetos)

Posted by addiragram at 10:08 AM | Comentários: (1)

As brancas nuvens

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As brancas nuvens pairam sobre Chiu e Chu,
As brancas nuvens vão contigo sempre.
Estão contigo em Chiu e estão contigo em Chu,
As brancas nuvens vão para onde fores.
Cruzam aflantes sobre o rio Hsiang.
Dormindo,as brancas nuvens são o teu leito.
Se acordas, brancas nuvens são teu lar.

Li Po ( China c 700-762)

Posted by addiragram at 12:25 AM | Comentários: (0)

setembro 08, 2005

Um fado: palavras minhas

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Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.

Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido...

Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
-que são minhas, só minhas pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.

Pedro Támen

Posted by addiragram at 10:24 PM | Comentários: (1)

setembro 07, 2005

História secreta...

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Escrever um romance é uma cerimónia parecida com o strip-tease. Como a rapariga que, sob impudicos reflectores, despe as suas roupas e mostra, um por um, os seus encantos secretos, também o romancista desnuda em público a sua intimidade através dos seus romances. Há, evidentemente, diferenças. Aquilo que o romancista exibe de si mesmo não são os seus encantos secretos, como a rapariga desenvolta, mas demónios que o atormentam e obcecam, a parte mais feia de si mesmo: as suas nostalgias, as suas culpas e os seus rancores. Outra diferença é que, num strip-tease, a rapariga começa vestida e acaba despida. No caso do romance, a trajectória é inversa: o romancista começa por estar despido e acaba vestido. As experiências pessoais ( vividas, sonhadas, ouvidas, lidas) que constituíram o principal estímulo para escrever a história mantêm-se tão maliciosamente disfarçadas durante o processo de criação que, uma vez terminado o romance, ninguém, muitas vezes nem o próprio romancista, consegue escutar facilmente esse coração auto-biográfico que palpita fatalmente em toda a ficção. Escrever um romance é um strip-tease invertido e todos os romancistas são exibicionistas discretos.

Mario Vargas Losa ( História secreta de um romance)

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setembro 06, 2005

Memória e recordação

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Apesar de ser grande a diferença entre memória e recordação, elas são muitas vezes confundidas. (...) Porque a recordação é da ordem da idealidade, e enquanto tal implica um esforço e uma responsabilidade muito maiores do que a memória, que é indiferente ao conteúdo. A recordação trata de conservar, para o indivíduo, a eterna continuidade da vida, e de assegurar-lhe que a sua existência terrena se mantém uno tenore, de um só fôlego, dizível de uma só vez.(...)
Há muita gente, sem dúvida, que escreveu memórias da vida sem que nelas houvesse qualquer vestígio de recordação, e no entanto as recordações funcionam aí como penhor da eternidade. Na recordação, o homem saca uma letra de câmbio sobre o eterno. O eterno é suficiente humano para honrar todos os câmbios e admitir que todos são solventes. Mas não é culpa do eterno se um indivíduo faz de si mesmo parvo-e se guarda algo na memória em vez de interiorizar em recordação, se portanto esquece esse algo em vez de recordar, pois aquilo que se guarda na memória é o que de seguida se esquece.(...) Aquilo que se recorda também não pode esqucer-se. Aquilo que se recorda não tem para arecordação a mesma indiferença que aquilo que passa pela memória tem para a memória. Pode deitar-se fora aquilo que se recorda; mas voltará como o martelo de Thor, e não só dessa maneira, porque tem da recordação uma nostalgia semelhante à de uma pomba, sim à daquela pomba que, por muitas vezes que seja vendida, nunca passa a sers propriedade de outrem, pois que sempre regressa a casa.

Kierkegaard ( In vino veritas)

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setembro 04, 2005

UM DOMINGO COM RILKE



Se, no meio da mudança,amigos, não logramos
fazer a própria festa,pensemos então nas festas.
Olhai, são também para nós todos os jogos-de-água
da Villa d´Este, embora nem todos jorrem.

Apesar de tudo, somos os herdeiros destes jardins can-
tados;

amigos, levai a sério este dever de posse.
O que a nós, como últimos, concederam talvez deuses
(felizes,
não tem lugar honrado na renúncia destraída.

Nenhum dos deuses passe. De todos precisamos.
Que cada formada imagem tenha pra nós valor.
O que tranquilo repousa, discursos o não destruam.

E se somos diferentes dos que inda conseguiram festas,
este jacto acabado, que com vigor nos jorra,
veio até nós sobre grandes aquedutos.

Rainer Maria Rilke (Do ciclo dos Sonetos a Orfeu. Esboços
e fragmentos)
Posted by addiragram at 08:18 PM | Comentários: (1)