outubro 31, 2005

o amor é sermos fracos...



(Diego Rivera)


fico admirado quando alguém, por acaso e quase sempre
sem motivo, me diz que não sabe o que é o amor.
eu sei exactamente o que é o amor. O amor é saber
que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer.
o amor é saber que vamos perdoar tudo a essa parte
de nós que não é nossa. o amor é sermos fracos.
o amor é ter medo e querer morrer.


José Luís Peixoto ( «A Criança em Ruínas»-2001)


Posted by addiragram at 08:16 AM | Comentários: (1)

outubro 30, 2005

La Tierra verde se ha entregado a todo o amarillo...

constab3.jpg
( Constable)

La Tierra

LA TIERRA verde se ha entregado
a tolo lo amarillo, oro, cosechas,
terrones, hojas, grano,
pero cuando el otoño se levanta
con su estandarte extenso
eras tú la que veo,
es para mí tu cabellera
la que reparte las espigas.

Veo los monumentos
de antigua piedra rota,
pero si toco
la cicatriz de piedra
tu cuerpo me responde,
mis dedos reconocen
de pronto, estremecidos,
tu caliente dulzura.

Entre los héroes paso
recién condecorados
por la tierra y la pólvora
y detrás de ellos, muda,
con tus pequeños pasos,
eres o no eres?

Ayer, cuando sacaron
de raíz, para verlo,
el viejo árbol enano,
te vi salir mirándome
desde las torturadas
y sedientas raíces.

Y cuando viene el sueño
a extenderme y llevarme
a mi proprio silencio
hay un gran viento blanco
que derriba mi sueño
y caen como cuchillos
sobre mí desangrándome.

Y cada herida tiene
la forma de tu boca.

Pablo Neruda ( El Amor)

Posted by addiragram at 04:29 PM | Comentários: (0)

UM DOMINGO COM PABLO NERUDA

P17Neruda1.jpg

La Reina

PEQUEÑA
rosa,
rosa pequeña,
a veces,
diminuta y desnuda,
parece
que en una mano mía
cabes,
que así voy a cerrarte
y llevarte a mi boca,
pero
de pronto
mis pies tocan tus pies y mi boca tus labios,
has crecido,
suben tus hombros como colinas,
tus pechos se pasean por mi pecho,
mi brazo alcanza apenas a rodear la delgada
línea de luna nueva que tiene tu cintura:
en el amor como agua de mar te has desatado:
mido apenas los ojos más extensos del cielo
y me inclino a tu boca para besar la tierra.

Yo te he nombrado reina.
Hay más altas que tú, más puras.
Hay más puras que tú, más puras.
Hay más bellas que tú, hay más bellas.

Pero tú eres la reina.

Cuando vas por las calles
nadie te reconece.
Nadie ve tu corona de cristal, nadie mira
la alfombra de oro rojo
que pisas donde pasas,
la alfombra que no existe.

Y cuando asomas
suenem todos los ríos
en mi cuerpo, sacuden
el cielo las campanas,
y un himno llena el mundo.

Sólo tú y yo,
sólo tú y yo, amor mío,
lo escuchamos.


Pablo Neruda ( En ti la tierra- Los versos del capitán)

Posted by addiragram at 10:41 AM | Comentários: (1)

outubro 28, 2005

Era um sorriso aberto num contraste...

magrittehuman.jpg
( Magritte)

Quando, quando me queres?- perguntaste
Numa voz de lamento diluída;
E quando nos meus olhos demoraste
A luz dos teus senti a luz da vida.

Nas tuas mãos as minhas apertaste;
Lá fóra da luz do Sol já combalida
Era um sorriso aberto num contraste
Com a sombra da posse proíbida...

Beijámo-nos então, a latejar
No infinito e pálido vaivém
Dos corpos que se entregam sem pensar...

Não perguntes, não sei-não sei dizer:
Um grande amor só se avalia bem
Depois de se perder.

António Botto

Posted by addiragram at 08:40 AM | Comentários: (4)

outubro 26, 2005

A folha desta árvore...

0047.jpg

Gingo Biloba

A folha desta árvore que de Leste
Ao meu jardim se veio afeiçoar,
Dá-nos o gosto de um sentido oculto
Capaz de um sábio edificar.

Será um ser vivo apenas
Em si mesmo em dois partido?
Serão dois que se elegeram
e nós julgamosnum unidos?

Pra responder às perguntas
Tenho o sentido real:
Não vês por meus cantos como
Sou uno e duplo afinal?

J.W.Goethe ( Do "Divã ocidental-oriental)

Posted by addiragram at 10:16 PM | Comentários: (3)

outubro 25, 2005

É a única coisa que te poderá salvar

caballo.jpg
( Picasso)


Caro Bosie,

Depois de muito ter esperado em vão, decidi-me escrever-te, tanto para teu bem como para o meu, pois não gostaria de pensar que passei dois longos anos na prisão sem ter recebido uma única linha tua, tão- pouco notícias ou mensagens, a não ser as que me causam dor. A nossa infeliz e lamentável amizade acabou por me trazer ruína e a infâmia pública. Lembro-me contudo da nossa velha afeição e entristeço ao pensar que a falta de tolerância, a amargura e o desprezo irão ocupar o lugar do amor que existia no meu coração. E tu, no teu coração sentirás, assim o penso, que o facto de me escreveres enquanto estou na solidão da vida do cárcere é bem melhor que publicar as minhas cartas sem o meu consentimento, ou o dedicar-me poemas que não pedi, embora nunca se chegue a saber quais são as palavras de dor ou paixão, remorço ou indiferença que venhas a escolher para me enviares como resposta ou apelo.
Não duvido que nesta carta, em que terei de escrever sobre a tua e a minha vida, sobre coisas amoráveis que se tornaram em amargura e sobre as amargas que poderão tornar-se em alegria, haverá muita coisa que irá ferir a tua vaidade no mais alto grau. Se assim for, relê a carta uma e outra vez até que a tua vaidade esteja morta. Se nela encontrares algo de que te sintas injustamente acusado, lembra-te que devemos estar agradecidos por haver um erro de que possamos ser injustamente acusados. E se nela houver uma só passagem que te traga as lágrimas aos olhos, chora como choramos na prisão, onde tanto o dia como a noite nos dão a liberdade de poder chorar.
É a única coisa que te poderá salvar.

Oscar Wilde ( De profundis)

Posted by addiragram at 10:40 PM | Comentários: (2)

outubro 24, 2005

Pergunto onde está a pureza do líquido inicial...

cassatt9.jpg
( Cassatt)


Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor
que se despeja no copo da vida, até meio, como se
o pudéssemos beber de um trago. No fundo,
como o vinho turvo, deixa o gosto amargo na
boca. Pergunto onde está a transparência do
vidro, a pureza do líquido inicial, a energia
e quem procura esvaziar a garrafa; e a resposta
são estes cacos que nos cortam as mãos, a mesa
da alma suja de restos, palavras espalhadas
num cansaço de sentidos. Volto, então, à primeira
hipótese. O amor. Mas sem o gastar de uma vez,
esperando que o tempo encha o copo até cima,
para que o possa erguer à luz do teu corpo
e veja, através dele, o teu rosto inteiro.

Nuno Júdice

Posted by addiragram at 11:31 PM | Comentários: (1)

outubro 23, 2005

Vi-te pela porta envidraçada

francoise_gilot1.jpg
( Francoise Gilot)


A Débil

Eu, que sou feio, sólido,leal,
A ti que és bela, frágil, assustada,
Quero estimar-te, sempre, recatada
Numa existêcia honesta, de cristal.

Sentado à mesa dum café devasso,
Ao avistar-te, há pouco, fraca e loura,
Nesta babel tão velha e corruptora,
Tive tenções de oferecer-te o braço.

E, quando socorreste um miserável,
Eu, que bebia cálices de absinto,
Mandei ir a garrafa, porque sinto
Que me tornas prestante,bom, saudável.

"Ela aí vem!"disse eu para os demais;
E pus-me a olhar, vexado e suspirando,
O teu corpo que pulsa, alegre e brando,
Na frescura dos linhos matinais.

Vi-te pela porta envidraçada;
E invejava,-talvez que o não suspeites!-
Esse vestido simples, sem enfeites,
Nessa cintura, tenra,imaculada.
(.......................................)

Com elegância e sem ostentação,
Atravessavas branca, esvelta e fina,
Uma chusma de padres de batina,
E de altos funcionários da nação.

"Mas se a atropela o povo turbulento!
Se fosse, por acaso, ali pisada!"
De repente, paraste embaraçada
Ao pé dum numeroso ajuntamento.

E eu, que urdias estes fáceis esbocetos,
Julguei ver, com a vista de poeta,
uma pombinha tímida e quieta
Num bando ameaçador de corvos pretos.

E foi então, que eu, homem varonil,
Quiz dedicar-te a minha pobre vida,
A ti, que és ténue, dócil, recolhida,
Eu que sou hábil, prático, viril.


Cesário Verde

Posted by addiragram at 11:50 PM | Comentários: (1)

UM DOMINGO COM CESÀRIO VERDE

cesario1.jpg


Naquele "pic-nic" de burguesas,
houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima de uns penhascos,
Nós acanpámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro a saír da renda
De teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro de papoulas!

Cesário Verde ( O Livro de Cesário Verde)

papoulasisabelmagalhaes.jpeg.jpg

Posted by addiragram at 10:15 AM | Comentários: (2)

outubro 22, 2005

Podia esperar para além do tempo...

bouquet.jpg

Quando Noel se foi embora, ainda estava agarrada às flores. Sentia que o seu quarto se havia transfigurado, pois ele transformara-o em mares e planícies. Ao centro estava o seu retrato, o presente qu lhe dera, escondido. Podia esperar até depois da guerra, esperar para além do tempo de que ele precisava para tratar de tudo. Podia esperar em louca adoração e aninhar-se nos seus braços décadas depois de ele ter partido, caso tivesse de esperar tanto tempo, e dizer-lhe depois: " nunca duvidei de ti. O meu ardor não diminuiu; aumentou".
Seria paciente, mesmo que a sua temperatura oscilasse tão loucamente como na manhã seguinte, passando de tremores quentes a frios e obrigando-a a entrar na enfermaria.(...)
Fica comigo, fica comigo!
Respirou fundo, os olhos abertos fixando os dele. Desejava que este momento durasse para sempre.
"Não diga nada.Lembra-te"-repetiu para si mesma.
"Não penses nem digas nada".
-Mariana- disse ele enlaçando-a nos seus braços.
Um frágil oceano de suor passava entre eles.
Sim. Ele também não dizia:Hei-de lembrar-me, mas eu sou isto, isto agora, apenas contigo.

Katherine Vaz ( Mariana)

Posted by addiragram at 11:07 PM | Comentários: (1)

outubro 21, 2005

Em vão busquei eterna luz precisa

herring1.jpg
( Herring)


Assim o amor
Espantado meu olhar com teus cabelos
Espantado meu olhar com teus cavalos
E grandes praias fluidas avenidas
Tardes que oscilam demoradas
E um confuso rumor de obscuras vidas
E o tempo sentado no limiar dos campos
Com seu fuso sua faca e seus novelos

Em vão busquei eterna luz precisa.


Sophia de Mello Breyner Andresen

Posted by addiragram at 08:18 PM | Comentários: (1)

outubro 20, 2005

PARA OS DOIS MIL DUZENTOS E VINTE E DOIS VISITANTES!

F1020024.jpg
Tenho gostado de me encontrar convosco. Deixo-vos, por isso, mais este presente pessoal.
Posted by addiragram at 10:51 PM | Comentários: (4)

O que amo é o que é perfeito...

renoir18.jpg
( Renoir)

- Acreditai-me-disse ela,-Deveis confiar em mim.Não sei se as imperfeições...os defeitos...essas coisas a que aludis...poderão seduzir qualquer mulher, sobretudo uma mulher digna! Sobre mim, sei que não têm poder algum de sedução...Far-me-iam horror! O que amo é o que é perfeito...o que é belo...o que é luminoso!Não vos envergonheis de me obrigar a repetir-vos que vos amo porque vejo em vós esses dons?
Voltou a cabeça, num movimento quase felino, roçando muito leve a face pelo ombro. E este delicado gesto de voluptuosidade, depois das suas palavras, reacendeu em Leonel um desejo furioso. Sem bem dar por isso , estreitou-a a ponto de lhe sentir os seios esmagarem-se no seu peito.
- Oh!-fez ela com um pequeno gemido de meiguice- magoais-me..Cuidado! reparam em nós.
Por segundos, Leonel lutou contra a violenta lubricidade que o assaltava. Era um tenebroso misto de raiva, desejo, desejo, desespero, crueldade... Alargou, por fim, o amplexo brutal em que, contra todas as regras da dança, ainda a tinha apertada a si.E, procurando-lhe os olhos vazios e límpidos, disse-lhe devagar, como sondando esse deserto azul: -podeis estar descansada! Não serei eu quem vos faça horror..vos dê o que não podeis amar...-Sempre o soube!-disse elacom oseu mais lúcido sorriso.Trazia-o ainda nos lábios quando o seu principe a veio conduzir ao lugar.

José Régio ( O Príncipe com orelhas de Burro)

Posted by addiragram at 09:48 PM | Comentários: (1)

outubro 19, 2005

Pudesse o que penso exprimir e dizer...

dlm115-0.jpg
( G.Braque-derrière le miroir)

Pudesse o que penso exprimir e dizer
Cada pensamento oculto e silente,
Levar meu sentir moldado na mente
A ser natural perante o viver;

Pudesse a alma verter, confessar
Os segredos íntimos em meu ser;
Grande eu seria, mas não pude aprender
Uma língua bem, que expresse o pesar.

Assim, dia e noite novo sussurar,
E noite e dia sussurros que vão...
Oh! A palavra ou frase em que atirar

O que penso e sinto, acordando então
O mundo; mas, mudo, não sei cantar,
Mudo como as nuvens antes do trovão.

Fernando Pessoa

Posted by addiragram at 10:35 PM | Comentários: (2)

Quizera nascer lá...

06cupboard.jpg

Água-cor

O País da Cor é líquido e revela-se
na anilina dos vasos da farmácia.
Basta olhar, e flutuo sobre o verde
não verde-mata, o verde-além-do -verde.

E o azul é uma enseada na redoma.
Quizera nascer lá, estou nascendo.
Varo a laguna de ouro do amarelo.
A cor é o existente; o mais é falácia.

Carlos Drummond de Andrade

Posted by addiragram at 08:11 AM | Comentários: (2)

outubro 18, 2005

Nevoeiro

russia_watercolor.jpg

A cidade caía
casa a casa
do céu sobre as colinas,
construída de cima para baixo
por chuvas e neblinas,
encontrava
a outra cidade que subia
do chão com luar
das janelas acesas
e no ar
o choque as destruía
silenciosamente,
de modo que se via
apenas a cidade inexistente.

Carlos Oliveira

Posted by addiragram at 10:01 PM | Comentários: (2)

outubro 17, 2005

Esquece-te de mim, Amor

Magritte-Empire-Bruss.jpg
( Magritte)


Esquece-te de mim, Amor,
das delícias que vivemos
na penumbra daquela casa,
Esquece-te.
Faz por esquecer
o momento em que chegámos,
assim como eu esqueço
que partiste,
mal chegámos,
para te esqueceres de mim,
esquecido já
de alguma vez
termos chegado.

António Mega Ferreira



Posted by addiragram at 10:13 PM | Comentários: (1)

Esta noite sonhei...

145918-0374-cp.jpg

Poema de Amor

Esta noite sonhei oferecer-te o anel de Saturno
e quase ia morrendo com receio de que ele não
te coubesse no dedo


Jorge de Sousa Braga

Posted by addiragram at 07:51 AM | Comentários: (2)

outubro 16, 2005

A nossa casa

Seurat---PD.1-1948_MED.jpg
(Seurat)

A nossa casa

A nossa casa, Amor, a nossa casa!
Onde está ela, Amor, que não a vejo?
Na minha doida fantasia em brasa
Constrói-a, num instante, o meu desejo!

Onde está ela, Amor, a nossa casa,
O bem que neste mundo mais invejo?
O brando ninho aonde o nosso beijo
Será mais puro e doce que uma asa?

Sonho... que eu e tu, dois pobrezinhos,
Andamos de mãos dadas, nos caminhos
Duma terra de rosas, num jadim,

Num país de ilusão que nunca vi...
E que eu moro - tão bom! - dentro de ti
E tu, ó meu Amor, dentro de mim...

Florbela Espanca


Posted by addiragram at 05:23 PM | Comentários: (2)

Se tu viesses...

barnett2.jpg
(Barnett)


Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...


Florbela Espanca


Posted by addiragram at 12:59 PM | Comentários: (2)

UM DOMINGO COM FLORBELA

Florbela Espanca.jpg

Canção grata

Por tudo o que me deste
inquietação cuidado
um pouco de ternura
é certo mas tão pouca
Noites de insónia
Pelas ruas como louca
Obrigada, obrigada

Por aquela tão doce
e tão breve ilusão
Embora nunca mais
Depois de que a vi desfeita
Eu volte a ser quem fui
Sem ironia aceita
A minha gratidão

Que bem que me faz agora
o mal que me fizeste
Mais forte e mais serena
E livre e descuidada
Sem ironia amor obrigada
Obrigada por tudo o que me deste

Por aquela tão doce
e tão breve ilusão
Embora nunca mais
Depois de que a vi desfeita
Eu volte a ser quem fui
Sem ironia aceita
A minha gratidão

Florbela Espanca


Nota: graças à prestimosa colaboração de Amélia Pais de "Ao longe os barcos de flores"venho repôr a autoria do poema, indevidamente atribuido a Florbela Espanca. A sua autoria pertence a CARLOS QUEIRÓZ.

Posted by addiragram at 10:54 AM | Comentários: (0)

outubro 15, 2005

A poesia, uma barragem contra a desumanidade...

magrittememoire.jpg
( Magritte- Memoire)

O poeta chora como só no absoluto da adolescência se sabe:uma lágrima correndo do rosto para o coração, com pressa de se tornar fogo outra vez, outra guardada a ferros dentro dos olhos, fazendo do corpo um submarino e do mundo visível uma tempestade distante. Para chorar assim é preciso que a alma seja funda e cavada na rocha como o precepício da eternidade. O fim da juventude sucede quando os exércitos do bom senso aparecem ao redor das almas para as aplanarem, a poder de terra ou, nalguns casos, de cimento. E para nos fazerem perceber claramente o perigo destabilizador dessas paixões que nos ateiam lágrimas e riso, cientistas e publicitários chamam " parceiros sexuais" aos amantes, namorados e apaixonados de todo o mundo. Querem que as pessoas comecem por se conhecer bem.Mas se o ser humano fosse vocacionado para o conhecido, acasalaria com irmãos, tios, primos, com os gatos. Que nem por isso parecem particularmente íntimos uns dos outros.
Trata-se de um processo lento, profissional, quase inperceptível: um dia um amigo abandona-nos e encolhemos os ombros, um dia descobrimo-nos cáusticos por tudo e deslumbrados por nada, um dia a própria palavra deslumbramento nos dá vontade de rir, um dia a febre da melancolia transforma-se na enxaqueca do tédio, um dia chamamos pudor ao pavor e juramos que nunca mais havemos de chorar.
Os poetas sobrevivem a estas juras, pela arte que têm em escapar às fronteiras epistemológicas que isolam essências e aparências. E pela contínua vigilância sobre a corrosão das palavras. O seu trabalho intelectual parte da ousadia de se expor sentindo. Entendem que a fraude é um bicho carnívoro e não um animal doméstico que podemos amimar ou dispensar. Fazem da escrita uma fórmula infinita de multiplicação da vida, morrem e ressuscitam vezes sem conta em busca da palavra, a canção ligeira sobre música séria onde cintila o sangue desse movimento de passagem. Têm coragem de manter a alma adolescente, velha, cheia de musgo e de rasgões. Sabem que a vulnerabilidade é o preço a pagar pelo luxo de uma aparição. Sabem que quem mente ao que é cai do primeiro degrau da escada da eternidade.(...)
A poesia impede a dissolução dos rostos, nomeia-os e descreve cada uma das suas sombras, fragilidades, desejos e sonhos. Nesse sentido é uma barragem contra a desumanidade, fixando o"acontecimento" ético- normalmente intermitente-do súbito encontro de um rosto-o rosto inesperadamente humano do inimigo em que se tropeça no campo de batalha, de que falava Emmanuel Lévinas.

Inês Pedrosa (prefácio à antologia Poemas de Amor)

Posted by addiragram at 11:17 AM | Comentários: (2)

outubro 14, 2005

Era prisioneiro e suspirava pela liberdade...

rivera2.jpg
( Diego Rivera)

Philip não se abandonou sem luta à paixão que o consomia. Sabia que todas coisas humanas são transitórias e, por isso, devem cessar um dia ou outro. Suspirava ardentemente por esse dia. O amor era como um parasita no seu coraçãp, nutrindo uma existência odiosa com o sangue da sua vida.Absorvia-o de modo tão intenso, que ele não podia encontrar prazer noutra coisa. A princípio deliciava-se com o recanto do St.James's Park e, muitas vezes sentava-se a olhar para os ramos de uma árvore recortada contra o céu: era como uma estanpa japonesa.Encontrava uma sempre nova magia no lindo Tamisa, com os seus batelões e os seus cais; o céu mutável de Londres enchera-lhe a alma de agradáveis fantasias. Agora porém , a beleza nada significava para ele: ficava entediado e inquieto quando não estava com Mildred. Às vezes pensava que podia consolar a sua tristeza olhando quadros, mas percorria a National Gallery como um indiferente; e nenhuma tela lhe despertava a atenção. Poderia voltar a interessar-se por todas as coisas que amara? Fora dedicado à leitura, mas agora os livros não tinham significado para ele: passava as horas vagas na sala de fumar do club do Hospital a folhear revistas intermináveis.Aquele amor era um tormento Philip ressentia-se amargamente da sujeição em que ela o mantinha. Era prisioneiro e suspirava pela liberdade.
Às vezes acordava pela manhã e nada sentia, a sua alma exaltava-se à ideia de estar livre e de já não a amar. Dentro em pouco porém, ao acordar de todo, novamente a dor se lhe aninhava no coração e ele via que não estava ainda curado. Embora desejasse Mildred como um doido, desprezava-a. Pensava para consigo que não podia haver no mundo maior tortura do que amar e ao mesmo tempo desprezar.

Somerset Maugham ( Servidão Humana)

Posted by addiragram at 08:53 PM | Comentários: (1)

outubro 13, 2005

Onde andará o meu amigo só

amadeo so-thumb.jpg
( Amadeu de Souza Cardoso)

Onde andará meu Amigo só
que pedra em flor pisando
no caminho?
Gótica a agulha do silêncio ao alto
longe quem passa perto não a vê
eu perto a vejo de tão longe
quando

Onde andará o meu Amigo só
trepando às fontes derrubando
cantos?
Como quem tece um vento de memória
e dele se despede ou só da teia
Não sobrevivo à minha vida
quando

Maria Alberta Menéres

Posted by addiragram at 11:02 PM | Comentários: (1)

outubro 12, 2005

Sonhei ter sonhado...

renoir33.jpg
( Renoir)

Tema e variações

Sonhei ter sonhado
Que havia sonhado.

Em sonho lembrei-me
De um sonho passado
O de ter sonhado
Que estava sonhando.

Sonhei ter sonhado
Ter sonhado o quê?
Que havia sonhado
Estar com você.
Estar? Ter estado,
Que é tempo passado.

Um sonho presente
Um dia sonhei.
Chorei de repente,
Pois vi, despertado,
Que tinha sonhado.

Manuel Bandeira


Posted by addiragram at 10:27 PM | Comentários: (5)

outubro 11, 2005

Comprimiam-lhe o cérebro...

pic_meta11.jpg
( Picasso)

Nos seus braços sentiu que se tinha tornado súbitamente forte, destemido e seguro de si próprio. Mas os lábios não queriam baixar-se para a beijar.
Com um inesperado movimento ela inclinou-lhe a cabeça e colou os lábios nos dele e ele leu o sentido dos seus movimentos nos olhos francos levantados para ele.Era demais. Fechou os olhos, submetendo-se a ela, de corpo e alma, sem consciência de mais nada no mundo que não fosse a rude pressão dos lábios dela entreabrindo-se suavemente. Comprimiam-lhe o cérebro como lhe comprimiam os lábios, como se fossem o veículo de uma vaga linguagem; e entre estes lábios sentiu uma desconhecida e tímida pressão, mais tenebrosa que o desmaio do pecado, mais suave do que um som ou um perfume.

James Joyce (Retrato do Artista quando Jovem)

Posted by addiragram at 09:51 PM | Comentários: (2)

outubro 10, 2005

Quando pela noite chegas...

carneiro_amor-1.jpg

Quando pela noite chegas dissolvem-se as trevas
e eu partir não quero porque esta é a noite
que ilumina o dia,canto do silêncio, eco subtil
no discurso do mundo. Quando pela noite chegas
é meu o teu amor, e a morte tarda doce como o mel.

Ana Marques Gastão

Posted by addiragram at 10:15 PM | Comentários: (1)

outubro 09, 2005

Viu-a boiar suspendida...

TACA.jpg

A canção do Rei de Tule


Era uma vez um bom rei
Em Tule-essa ilha distante,
Ao morrer, deixou-lhe a amante
Um copo de oiro de lei.

Era um copo de oiro fino
Todo lavrado a primor;
Se fosse o cálix divino
Não lhe tinha mais amor.

Seus tristes olhos leais
Não tinham outra alegria:
E só por ele bebia
Nos seus banquetes reais.

Chegada a hora da morte
Põs-se o rei a meditar
Grandezas da sua sorte,
Seus reinos à beira-mar.

Deixava um rico tesoiro,
Palácios, vilas, cidades;
De nada tinha saudades,
A não ser do copo de oiro.

No castelo da devesa,
Naquelas salas sem fim,
Mandou armar uma mesa
Para o último festim.

Convidou sem mais tardar
Os seus fiéis cavaleiros,
Para os brindes derradeiros
No castelo à beira-mar.

Então, vazando-a de um trago,
E com entranhada mágua,
Pôs nas ondas o olhar vago
E atirou a taça à água.

Viu-a boiar suspendida,
'Té que as ondas a levaram
Os olhos se lhe toldaram,
E não bebeu mais na vida!

Antero de Quental( 1870-1871)


Posted by addiragram at 07:46 PM | Comentários: (4)

Mea culpa

rousseau_jesters.jpg

Não duvido que o mundo no seu eixo
Gire suspenso e volva em harmonia;
Que o homem suba e vá da noite ao dia,
E a homem vá subindo insecto e seixo.

Não chamo a Deus tirano, nem me queixo,
Nem chamo ao céu da vida noite fria;
Não chamo à existência hora sombria;
Acaso, à ordem; nem à lei desleixo.

Natureza é minha mãe ainda...
É minha mãe... Ah, se eu à face linda
Não sei sorrir; se estou desesperado;

Se nada há que me aqueça esta frieza;
Se estou cheio de fel e de tristeza...
É de crer que só eu seja culpado!

Antero de Quental ( 1862-1866)

Posted by addiragram at 03:09 PM | Comentários: (3)

UM DOMINGO COM ANTERO

antero01.jpg


Nós somos loucos,não somos?
D'esta louca poesia,
D'esta riqueza dos pobres
Que se chama fantasia!

Ergamos pois nossa tenda
E nosso lar de pobreza
No mais ermo desses montes,
No fundo da natureza.

Se o frio apertar connosco,
Pois não temos mais calores,
Aqueceremos os membros
Na fogueira dos amores!

Se for tão grande a nossa sede,
Tão longe da fonte fria,
Contar-nos-emos, filha,
Com as águas da poesia!

Assim à nossa pobreza
Daremos a Imensidade...
Que com isto se contente
Nossa pouca seriedade.

E pois somos loucos, vamos,
Atrás dos loucos mistérios...
Deixemos ricas cidades
Ao sério dos homens sérios.


Antero de Quental (Beatrice -1861-1862)

Posted by addiragram at 10:11 AM | Comentários: (1)

outubro 08, 2005

Somos folhas breves...

brussb001057.jpg

Somos folhas breves onde dormem
aves de silêncio e solidão.
Somos só folhas ou o seu rumor.
Inseguros, incapazes de ser flor,
até a brisa nos perturba e faz tremer.
Por isso a cada gesto que fazemos
cada ave se transforma noutro ser.

Eugénio de Andrade ( Poesias-1945-1965)

Posted by addiragram at 08:47 AM | Comentários: (1)

outubro 07, 2005

Lancei cordas...

lachiavedeicampi.jpg

Lancei cordas de campanário a campanário; grinaldas de janela a janela; cadeias de ouro de estrela a estrela, e danço.


Jean-Arthur Rimbaud ( Iluminações/ Uma Cerveja no Inferno)

Posted by addiragram at 08:25 AM | Comentários: (2)

outubro 06, 2005

Dar sempre chama, sem me desfazer...

courbet2.jpg

SONETO AMOROSO

Dar sempre chama, sem me desfazer;
após sempre chorar, não me acabar;
após tanto correr não me cansar;
e após sempre viver, jamais morrer;
depois do mal jamais me arrepender;
de tanto engano, não me desenganar;
depois de tanta dor, não me alegrar;
nunca me rir, após tanto sofrer;
em tantos labirintos não perder-me,
nem após tanto olvido, ter lembrado
- que fim alegre pode prometer-me?
Antes morto estarei que escarmentado:
já não penso tratar de defende-me,
se não de ser deveras desgraçado.

Francisco de Quevedo (1580-1645)

Posted by addiragram at 08:53 PM | Comentários: (1)

outubro 05, 2005

Para quê?

Bacon.jpg

Café

XII ( De repente, o café tornou-se cósmico)


Vais perguntar outra vez porque existes?
Para quê? Para ficares com os olhos
do tamanho de ilhas tristes?
Pois não sabes que já milhões como tu e como eu
pediram em vão às aves
que procurassem nas nuvens aquela Porta
de que nem a Morte tem as chaves?

E quem a abriu? Quem sabe que Porta é?

(Rapaz! Mais um café!)


José Gomes Ferreira


Posted by addiragram at 07:55 PM | Comentários: (2)

outubro 04, 2005

Prelúdio

Arvore.jpg


Partem os altos choupos,
mas deixam o seu reflexo.

Partem os altos choupos,
deixando apenas o vento.

O vento na sua mortalha
jaz debaixo do céu.

Mas não levou os seus ecos,
que flutuam sobre os rios.

O mundo dos pirilampos
invadiu minha lembrança.

E um coração pequeno
vai-me brotando nos dedos.

Frederico Garcia Lorca ( Trinta e seis poemas e uma aleluia erótica- trad-E.Andrade)

Posted by addiragram at 08:23 PM | Comentários: (2)

outubro 03, 2005

Um amor a contragosto

cassat34.jpg

Poderá andar-se metido num amor a contragosto?
Claro que sim.
Um amor a contragosto é um amor em relação ao qual o sujeito que o sofre /palpita que está numa perspectiva catastrófica e que, em princípio, nada poderá fazer para evitar a catástrofe, que esta o espera no fim de tudo e se prepara para o mastigar sem contemplações, reduzindo-o a cisco.
" Reconquista-me!", diz o objecto desse amor a contragosto, entremostrando-se e furtando-se logo de seguida. E o sofrente do amor a contragosto compraz-se (afinal com imenso gosto!) em esfalfar-se e em arruinar-se nessa descida aos inferninhos do amor infeliz.
Como se chega- e para quê- a uma situação destas?
Por muitos caminhos e para muitos fins. Mas o que importa aqui dizer é que o amor a contragosto não é um amor partilhado. O sofrente nunca é igual a quem lhe inflige o sofrimento. É mais. Mais sentimento, mais tormento.
" Mas que figurões!", dirão as rãs que, na circunstância, sempre se juntam para fazer coro. É que eles- o sofrente e o que faz sofrer- não sabem que estão, na sua luta (assalto e defesa), a dar-se em espectáculo aos que, e ainda por cima isentos, assistem a essa terrível devoração afectiva.
De um amor a contragosto dificilmente se sai. É como um vício arraigado, é como um redemoinho que puxa irresistivelmente para baixo.
Talvez a única maneira, como ensinam certos nadadores experimentados em águas traiçoeiras, seja o sofrente deixar-se ir até ao fundo e aí, com um golpe rápido de braços e de pernas, saír do medonho vórtice. Então, poderá voltar à superfície, nadar para terra, sentar-se na areia e dizer:
- Olha do que me safei!- O mundo recobrará cor e significado.
Quem tiver na situação de sofrente, metido num amor a contragosto, pode treinar esse processo de salvação. A Caparica não é longe.

Alexandre O'Neill ( Uma coisa em forma de assim)

Posted by addiragram at 10:26 PM | Comentários: (1)

outubro 02, 2005

Escada sem corrimão

escherbelvedere.jpg


É uma escada em caracol
e que não tem corrimão.
Vai a caminho do Sol
mas nunca passa do chão.

Os degraus, quanto mais altos,
mais estragados estão.
Nem sustos nem sobressaltos
servem sequer de lição.


Quem tem medo não a sobe.
Quem tem sonhos também não.
Há quem chegue a deitar fora
o lastro do coração.

Sobe-se numa corrida.
Correm-se p'rigos em vão.
Adivinhaste: é a vida
A escada sem corrimão.


David Mourão-Ferreira ( A guitarra e a viola.1954-1960)

Posted by addiragram at 02:53 PM | Comentários: (3)

UM DOMINGO COM DAVID MOURÃO-FERREIRA

147.jpg

CASA


Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão...

Só por dentro de ti rebentam flores
Só por dentro de ti a noite escuta
o que sem voz me sai do coração.


David Mourão-Ferreira (Infinito pessoal-1959-1962)

Posted by addiragram at 10:51 AM | Comentários: (1)

outubro 01, 2005

Glosando o mote de um amigo

fotografia02.jpg

(...) Pai, como poderei pagar-lhes por me haverem ensinado a amar os contos e os feitos heróicos, a pátria e a vida humana em toda a sua grandeza, em todas as suas fraquezas?
A estas palavras, o pai acomoda-se na poltrona e os seus olhos têm uma expressão tão linda...E diz:
- Estou bastante contente por ter contribuído para contraíres essas dívidas.
- Sim, talvez tenhas razão , pai. Mas devo dizer-te que ainda não é tudo. Tenho tantos credores! Penso em todos esses pobres homens sem pouso que vagabundeavam pela Vermelândia quando eras novo e que passaram o tempo a tocar e a cantar.Devo-lhes as loucas aventuras e as fugas sem conta. E, pensa em todas as velhas narradoras de contos que habitam nas cabanas cinzentas à entrada da floresta e que me contavam tantas histórias do Neck, dos feiticeiros e das virgens roubadas pelo Troll. Foram elas, sem
dúvida, que me ensinaram a traduzir a poesia da dura montanha e da floresta escura.(...)E não me bastou ter contraído dívidas com os homens... tenho por credora toda a Natureza. Há os animais da terra, as aves do céu, as flores e as árvores. Todos têm tido os seus segredos para me confiar.(...)
Mas pai ainda não disse tudo. Devo também aqueles que têm enriquecido e cultivado a língua, que forjaram esse belo instrumento e me ensinaram a manejá-lo. E não sou também devedora aos que despertaram ideias e abriram caminhos? Não devo sobertudo àqueles que na minha mocidade eram os pioneiros da criação literária, os grandes norugueses e grandes russos?(...)
Sim, sim tens razão- diz meu pai. Estás muito cheia de dívidas. Mas nós arranjaremos tudo.
Creio que não compreendes bem nítidamente como tudo isto é difícel para mim. Decerto não pensaste que estou também em dívida com os meus leitores. Quanto não devo a todos, desde o velho rei e o seu filho mais novo, que pagou a minha viagem de aprendizado ao Sul, até às crianças das escolas que garatujavam cartas para me agradecerem Nils Holgersson! Que seria de mim se não tivessem querido saber dos meus livros? E é preciso não esquecer também os que escreveram a meu respeito. Lembras-te do grande crítico dinamarquês que me conquistou amigos por toda a parte no seu país apenas com algumas palavras? E pensa naquele que está morto e que temperava a sua bebida de mel e vinagre tão sabiamente como nenhum outro o fez antes dele? Pensa em todos os que, nos países estrangeiros, têm trabalhado por mim. Devo a todos, tanto aos que me têm louvado, como aos que me censuraram.(...)
- Parece-me que não será muito fácil ajudar-te, minha filha. Mas, enfim está acabado, não é assim?
- Oh, não! Tudo isso eu tenho podido suportar. Mas há pior. E é por isso que vim aqui procurar um conselho.
- Não compreendo que possas ter ainda mais dúvidas!
- Mas tenho, sim, pai.
E revelo-lhe o meu segredo.
- Nunca acreditei que a Academia Sueca...
Mas olha para mim e vê que"isso" é verdade, e então cada ruga do seu velho rosto começa a tremer e as lágirmas afloram-lhe aos olhos.
- Que direi eu àqueles que assim decidiram e aos que me indicaram para este prémio?Porque, pensa nisto pai, não foi só honra e dinheiro que me deram. Eles tiveram fé em mim, pois ousaram distinguir-me perante o Universo. Como poderei alguma vez saldar esta dívida?
Meu pai fica um momento silencioso, absorto nas suas reflexões. Depois , enxugando de repente as lágrimas de alegria, bate rudemente com o punho no braço da poltrona e exclama:
- Não! Não quebrarei acabeça por uma coisa a que ninguém, nem aqui na Terra poderá responder. Dado que obtiveste o Prémio Nobel, não quero pensar em mais nada senão em regozijar-me com isso!

Selma Lagerlöf ( A lenda de uma dívida- contada no banquete do Prémio Nobel, a 10 deDezembro de 1909)

Posted by addiragram at 06:29 PM | Comentários: (3)