novembro 30, 2005

Ainda e sempre Pessoa

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O que eu fui o que é?
Relembro vagamente
o vago não sei quê
que passei e se sente

Se o tempo é longe ou perto
Em que isso se passou
Não sei dizer ao certo
Que nem sei o que sou

Sei só que me hoje agrada
rever essa visão
sei que não vejo nada
senão o coração.

Fernando Pessoa (23/03/ 1928- Poesias coligidas inéditas -1919-1935)

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NO ANIVERSÀRIO DA MORTE DE PESSOA (nasc: 13/06/1888; morte:30/11/35)

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( Praça da Figueira)

A Praça da Figueira de manhã,
Quando o dia é de sol ( como acontece
Sempre em Lisboa), nunca em mim esquece,
Embora seja uma memória vã.

Há tanta coisa mais interessante
Que aquele lugar lógico e plebeu,
Mas amo aquilo, mesmo aqui...Sei eu
Por que o amo? Não importa. Adiante...

Isto de sensações só vale a pena
Se a gente se não põe a olhar para elas.
Nenhuma delas em mim serena...

De resto, nada em mim, é certo ou está
De acordo comigo próprio, As horas belas
São as dos outros ou as que não há.

Álvaro de Campos ( 10-1913)

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novembro 28, 2005

A sua arte é filha da memória

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( Turner)

Escritas II

Escreve numa sala grande e quase
Vazia
Não precisa de livro nem de arquivos
A sua arte é filha de memória
Diz o que viu
E o sol do que olhou para sempre o aclara

Sophia de Mello Breyner Andresen ( Ilhas)

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novembro 27, 2005

Fecho da noite - Última desgarrada-"Palavras em linha"

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( kupka)

E não há mão que me afague
Sem conhecer os meus beijos
Nem afago que resista
Ao arco-iris que ponho
No braseiro dos desejos;
Nem manto que me dê asas
Porque cavalgo com o vento
Porque aproveito os despojos
E não deixo o pensamentos
Rasgar a luz dos meus olhos
Não há mal que me destrua
Nem fogueira que me queime
Quando amanheço na foz
Porque o tempo é meu amigo
E traz-me sempre com o vento
Luas novas, sóis diferentes
Iluminando-me a Vida
Até que esta mágoa passe

Palavras em linha

Posted by addiragram at 10:52 PM | Comentários: (3)

Eles (um presente para o "Ofício Diário") - No espírito do dia

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Eles

Filhos do deus do acaso,eles não sabem
que há outros mundos para além do próprio mundo
Ignoram as marés, o movimento das estrelas,
o ritmo incessante com que as noites
dão lugar às madrugadas.


Desconhecem que, atrás de cada porta,
por mais fechada, há sempre outra porta
escancarando uma janela.
Tão-pouco os orienta o deslumbrante
ciclo das estações, o suceder
das aves no telhado.


Para eles não há qualquer mistério
no renovo das folhas pela Primavera.

E eu não consigo entender
ao que vieram.

Torquato da Luz (2005)
(Ofício Diário)


Posted by addiragram at 08:08 PM | Comentários: (6)

" O poeta desconhecido"-continuação da "desgarrada"- "Divas e Contrabaixos"

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Em dias assim
o vento rasga os arco-iris
que nascem nos meus olhos


Mas se acaso algum escapa
e desce à foz que são meus lábios
sinto que o tempo o congela
e nem a mão o apaga

e não há mão que me apague
nem manto que me dê asas
nem fogueira que me aqueça
até que esta mágoa passe

Arcos-lágrima que perduram
por sobre sóis e palavras
espalham tua iris negra
despojada de ternura.

M.R.F. ( a propósito do post "Um poeta desconhecido)

Posted by addiragram at 11:31 AM | Comentários: (2)

UM DOMINGO COM todos aqueles que acreditam no amor

Outono em Praga.jpg
(gentilmente emprestado por um jovem casal muito especial)

El Amor

Todo en el amor se llena de sentido
La fuerza renovada de este corazón
tan mal tratado por la vida, de donde sale
sino de su immenso caudal de amor?

Es,pues, sólo por el amor que nos creecen rosas
en los dedos y se nos revelan los misterios:
y en el amor todo es justo y necesario

Cree, pues, en el cuerpo, y en el intenta
perdurar y hacer que todo perdure
dignificándolo siempre com amorosa
solicitud: así darás vida.

(Poema: Miguel Marti; Música: Arianna Savall. Bella Terra (Alia Vox))

Oiçam se puderem!

Posted by addiragram at 10:39 AM | Comentários: (1)

novembro 26, 2005

Em dias assim ( AINDA a propósito de "UM DOMINGO COM O POETA DESCONHECIDO)

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I

Em dias assim
Seco as lágrimas nos cantos da boca
e risco a face de arco-iris sem vento;

II

Depois trago para dentro o olhar,
Ponho ramos secos no centro das mágoas
E neles prendo flores viçosas;

III

Ganho o dia
Ganho tempo;
Amaino o bater dos chicotes nas memórias
E sento-me na calma das palavras.

( Palavras em linha)

Posted by addiragram at 11:30 PM | Comentários: (1)

É tão frágil a vida

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( Giacometti)

O melhor pretexto


É tão frágil a vida
tão efémero tudo!
(não é verdade, amiga,
Olhinhos-cor-de –musgo?)

E ao mesmo tempo é forte,
forte da veleidade
de resistir à morte
quanto maior a idade

Assim, aos trinta e sete,
fechados alguns ciclos,
a vida ainda pede
mais sentimento, vínculos,

Não tanto os que nos deram
a fúria de viver,
como esses descobertos
depois de se saber

que a vida não é outra
senão a que fazemos
( e a vida é una só,
pois jamais voltaremos).

Partidários da vida,
melhor: do que está vivo,
Digamos “não!” a tudo
que tenha outro sentido

E que melhor pretexto
( quem o saiba que o diga!)
teremos p’ra viver
senão a própria vida?

Alexandre O’Neill ( Poemas com endereço)

Posted by addiragram at 05:50 PM | Comentários: (0)

novembro 25, 2005

A Leitura

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( Escher)

Meus olhos resgatam o que está preso na página: o branco do branco e
o preto do preto.

( Ben Ammar- Poemas Arábico- Andaluzes)

Posted by addiragram at 08:45 PM | Comentários: (1)

novembro 24, 2005

´São meus estes rios

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( Renoir)

São meus estes rios
que buscam caminho
rastejando entre luar e silêncio,
sombra e madrugada,
até ao seu fim marítimo.

A minha alma está neles,
líquida e sonora
como a água entre o quissange das pedras,
o anoitecer das fontes.

Tenho rios vermelhos e quentes
na minha dimensão física,
rios remotos, remotos como eu.

Manuel Lima ( Angola)

Posted by addiragram at 02:33 PM | Comentários: (4)

novembro 23, 2005

Um recital que um pianista invisível toca para nós

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( Columbano)

No jardim da casa
onde nasceu Chopin
através das cortinas que esvoaçam
pelas janelas térreas
escutamos:

É um recital
que um pianista invisível
toca para nós
como se fosse ele.

Realmente
a ilusão é perfeita
e enquanto fascinados
escutamos
essa música gentil
que a natureza à nossa volta
explica
escutamos também
num contraponto raro
o canto dos pássaros
que a sublinha.

Dentro
nos retratos de família
Chopin olha-nos de frente
mas timidamente
sem o perfil dramático
de Delacroix.

O quarto onde nasceu
está vazio:
à entrada
colocaram
uma enorme jarra com flores.

Saindo
procuramos fazer
o menos ruído possível.

Ana Hatherly - Itinerários


(enviado por "Ao longe os barcos de flores")

Posted by addiragram at 10:06 PM | Comentários: (2)

Ainda o "Poeta Desconhecido" ( uma dádiva de "Divas e Contrabaixos")

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( Boccioni)

I
Em dias assim
envolvida neste choro do tempo
ouso saír
Que são tantas as lágrimas
que as minhas se perdem

II

que ramos quebrados são esses
que força usamos para nos perdermos
Chicotes de vento
Chicotes de tempo

III

atravessa o vidro, trespassa a árvore
desventra a nuvem e a neblina
percorre a casa que é um fantasma
e o meu olhar não encontra nada.

M.R.F. ( a propósito do post " Um Domingo com o poeta desconhecido")


Posted by addiragram at 05:15 PM | Comentários: (7)

Relembrando, uma vez mais, PESSOA

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Tantos bons poetas!
Tantos bons poemas!
São realmente bons e bons,
Com tanta concorrência não fica ninguém,
Ou ficam ao acaso, numa lotaria da posteridade,
Obtendo lugares por capricho do Empresário...
Tantos bons poetas!
Para que escrevo versos?
Quando os escrevo parecem-me
O que a minha emoção, com que os escrevi, me parece-
A única coisa grande do mundo...
Enche o universo de frio o pavor de mim.
Depois, escritos, visíveis, legíveis...
Ora...E nesta antologia de poetas menores?
Tantos bons poetas!
O que é o génio, afinal, ou como é que se distingue
O génio, e os bons poemas dos bons poetas?
Sei lá se realmente se distingue...
O melhor é dormir...
Fecho a antologia mais cansado do que do mundo-
Sou vulgar?...
Há tantos bons poetas!
Santo Deus!...

Álvaro de Campos (Poesia -1/5/1928)

Posted by addiragram at 02:35 PM | Comentários: (0)

novembro 22, 2005

Nome escondido

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O verdadeiro Nome não é aquele que doura os pórticos, ilustra
os actos; nem o que o povo resmoneia de enfado;


O verdadeiro Nome tão-pouco é lido no Palácio, nem nos jardins ,
ou nas grutas, mas vive escondido pelas águas sob a abóbada do
aqueduto onde eu me dessedento.

Somente na muito grande sequidão, quando o Inverno crepita
sem fluxo, quando os mananciais, baixos ao extremo, se enconcham
nos seus gelos,

Quando o vazio está no coração do subterrâneo e no subterrâneo
do coração- onde o próprio sangue já não gira,- sob a abóbada
então pode recolher-se o Nome

Mas derretam as águas duras, explua a vida, vem a torrente
devastadora primeiro que o Conhecimento!

Victor Segalen ( Mesa de Amigos)

Posted by addiragram at 08:30 PM | Comentários: (0)

Quase nada

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( Picasso)

O amor
é uma ave a tremer
nas mãos de uma criança.
Serve-se de palavras
por ignorar
que as manhãs mais limpas
não têm voz.

Eugénio de Andrade ( Os amantes sem dinheiro)

Posted by addiragram at 12:00 AM | Comentários: (1)

novembro 21, 2005

Ainda uma lembrança de ( Barco de flores ao longe)

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Lembrança

Só ela compreendia o som
dos meus silêncios. Temia
às vezes que o tempo hostil
fugisse enquanto conversávamos.
Depois disso esvaiu-se a memória
e vejo-me agora a falar
dela contigo, entre espirais de fumo
que anuviam a nossa comoção.
Ests é a parte de mim que encontro
mudada. O sentimento em si informe
neste agora que é apenas saudade.

Eugénio Montale ( Itália, 1896-1981. Trad Ivo Barroso)

Posted by addiragram at 12:26 PM | Comentários: (3)

Sem relógio nem espaço proíbido

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Poema de Amor

Teu rosto, no meu rosto, descansado.
Meu corpo, no teu corpo, adormecido.
Bater de asas, tão longe, noutro tempo,
Sem relógio nem espaço proíbido.

Oh, que atónitos olhos nos contemplam,
Nos sorriem e nos dizem:Sossegai!
Românticos amantes, viajantes eternos,
Olham por nós na hora que se esvai!

Que música de prados e de fontes!
Que riso de águas vem para nos levar?
Meu rosto, no teu rosto de horizontes,
Meu corpo, no teu corpo, a flutuar.

Natércia Freire (Antologia poética)

Posted by addiragram at 12:07 AM | Comentários: (1)

novembro 20, 2005

Um presente amigo ( Palavras em linha)

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Brincávamos com as palavras e víamos a mão destra no lado de trás de cada letra. Da mão ao rosto ia apenas uma sílaba. Depois pedimos às fadas que desvendassem os esconderijos e olhámo-nos nos olhos. Foi um momento em que a magia se revelou inteira.

( Palavras em linha)

Posted by addiragram at 11:03 PM | Comentários: (1)

Um presente amigo ( Mulher dos 50 aos 60)

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Poema de Outono

O vento soprou
Tão doce e sereno
Tocou-me ao de leve
Girou sentimentos
Dormentes, silentes
Que em voo rasante
Tocaram o chão.
O fundo da alma
fez-se de cor de ouro
Castanho ou laranja
Deu frutos já secos
De um doce amargo
Surgiu o Outono
No meu coração.


LIQUE ( 2004)

Posted by addiragram at 10:48 PM | Comentários: (1)

Um presente amigo: Amélia Pais (Ao Longe os Barco de Flores)


Passou o Outono já, já torna o frio...
Passou o Outono já, já torna o frio...
– Outono de seu riso magoado.
Álgido Inverno! Oblíquo o sol, gelado...

– O sol, e as águas límpidas do rio.

Águas claras do rio! Águas do rio,
Fugindo sob o meu olhar cansado,
Para onde me levais meu vão cuidado?

Aonde vais, meu coração vazio?

Ficai, cabelos dela, flutuando,
E, debaixo das águas fugidias,
Os seus olhos abertos e cismando...

Onde ides a correr, melancolias?
— E, refractadas, longamente ondeando,
As suas mãos translúcidas e frias...


Camilo Pessanha (1867-1926)

Aquele que «ENSINOU A SENTIR VELADAMENTE», segundo Fernando Pessoa

Posted by addiragram at 09:42 PM | Comentários: (0)

novembro 19, 2005

UM DOMINGO COM O "POETA DESCONHECIDO"

F1070019.jpg ( Reflexos de um olhar)

Dedico o post nº200 ao "Poeta desconhecido " que habita cada um de nós ( quantas vezes quase incógnito) e que, bruscamente, quase sem aviso, invade o papel, salta para o teclado, dança e luta com as palavras, derramando existências que se tornam vivas e únicas... Se lhes acontecer alguma emoção trazida por este pequeno presente, não deixem de a fazer "saltar" para esta página a todos vós dedicada.
Posted by addiragram at 11:58 PM | Comentários: (8)

De qualquer modo o coração

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( Matisse)

De qualquer modo dança,
De qualquer modo sente.
De qualquer modo o corpo contém o dia.
De qualquer modo as cores e o Músculo.
De qualquer modo o coração.
De qualquer modo sempre no Fundo a Memória.
De qualquer modo sem TEORIAS.
De qualquer modo com a teoria da poética que é não existir teoria e
só existir poética
De qualquer modo a ciência atrapalha 1 pouco mas não totalmente.
De qualquer modo Curiosidade.
De qualquer modo coleccionar montanhas.
De qualquer modo acabar quando o ritmo exige que se continue
o ritmo exige coisas que não devemos aceitar obedecer ser escravos.

Gonçalo M.Tavares ( Livro da Dança)

Posted by addiragram at 09:23 AM | Comentários: (1)

novembro 18, 2005

O Cérebro é mais amplo do que o Céu

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(Chagall)

O Cérebro - é mais amplo do que o Céu-
Pois- colocai-os lado a lado-
Um o outro irá conter
Facilmente- e a Vós- também-

O Cérebro é mais fundo do que o mar-
Pois- considerai-os- Azul e Azul-
Um o outro irá absorver-
Como as Esponjas- à Água- fazem-

O Cérebro é apenas o peso de Deus-
Pois- Pesai-os- Grama a grama-
E eles irão só diferir- se tal acontecer-
Como a Sílaba do Som-

Emily Dickinson ( Esta É a Minha Carta ao Mundo e Outros Poemas)

Posted by addiragram at 08:16 PM | Comentários: (2)

novembro 17, 2005

Poema sobre a canção da esperança

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(Picasso)

Dá-me lírios, lírios,
E rosas também.
Mas se não tens lírios
Nem rosas a dar-me,
Tem vontade ao menos
de me dar os lírios
E também as rosas.
Basta-me a vontade,
Que tens, se a tiveres,
De me dar os lírios
E as rosas também,
E terei os lírios-
Os melhores lírios-
E as melhores rosas
Sem receber nada,
a não ser a prenda
Da tua vontade
De me dares lírios
E rosas também.


Álvaro de Campos (Pessoa: 1888-1935)

Posted by addiragram at 08:42 PM | Comentários: (1)

novembro 16, 2005

Manhã fresca

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( Seurat)

Manhã fresca, reclinada
pela primavera crescente,
O mais pequenino nada
está como se fora gente

De um rapaz louro que finda
( na alameda) uma novela perturbada,
uma mulher ainda linda
esperou mas não foi olhada

E na folhagem também
certo desencontro corre:
a primavera que vem
na trovoada que morre

Mário Cesariny ( Manual de Prestigitação)

Posted by addiragram at 09:17 PM | Comentários: (2)

novembro 15, 2005

Todo o visível adere ao invisível...

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(Turner)

Todo o visível adere ao invisível, tudo o que pode entender-se ao que não se pode entender, todo o sensível ao insensível. Talvez tudo o que pode pensar-se ao que não se pode pensar.

Novalis ( Fragmentos)

Posted by addiragram at 10:49 PM | Comentários: (2)

novembro 14, 2005

Os amigos

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(Gatineau)

Os Amigos

Esses estranhos que nós amamos
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos no seu exagero
de temporalidade pura

Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis

Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor


José Tolentino Mendonça ( De Igual para igual)

Posted by addiragram at 11:10 PM | Comentários: (5)

novembro 13, 2005

Ignorá-lo é saber

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(Metsys)

Não sei como, nem quando, nem que cousa
senti que me inundava de doçura:
sei que a meus braços veio a formosura,
de gozar-se comigo cobiçosa.

Sei que chegou, se bem, com temerosa
vista, mal pude olhar sua figura:
logo pasmei, como o que em noite escura,
perdido o tino, o pé mover não ousa.

Seguiu-se um grande gozo ao pasmo louco
- não sei quando, nem como, nem que há sido-
que todo o meu sensível pôs em calma.

Ignorá-lo é saber: pois que é bem pouco
o que pode abarcar o só sentido,
enquanto isto me coube na só alma.

Francisco de Medrano (Espanha 1570-1607)

Posted by addiragram at 10:40 PM | Comentários: (2)

novembro 11, 2005

Quando oiço ao telefone a voz que brinca

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( Vermeer)


Quando oiço ao telefone a voz que brinca
e canta, sem saber, os dias novos,
pouco me importam tempo,espaço, luas,
ou maneiras sequer de ser humano.
Vagueio pelo ar, e arranco estrelas
ao cenário sem fim do universo;
e faço pobres contas aos cabelos
depenados no chão, verso após verso.
Nada é real senão o meu desejo,
nem sei de lei nenhuma que não dobre
a dura mansidão da tua boca;
inventou-nos um deus, veloz o lume na manhã sem nome,
e chama viva a voz que nos consome.

António Franco Alexandre


Posted by addiragram at 09:42 AM | Comentários: (4)

novembro 10, 2005

Uma mulher quase nova

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( Seurat)

Uma mulher quase nova
com um vestido quase branco
numa tarde quase clara
com os olhos quase secos

vem e quase estende os dedos
ao sonho quase possível
quase fresca se liberta
do desespero quase morto

quase harmónica corrida
enche o espaço quase alegre
de cabelos quase soltos
transparente quase solta

o riso quase bastante
quase músculo florido
deste instante quase novo
quase vivo quase agora

Mário Dionísio

Posted by addiragram at 08:05 AM | Comentários: (3)

novembro 09, 2005

DUZENTOS COMENTÁRIOS! -Obrigada a todos!

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"Há coincidências e é impossível saber como entendê-las."

Paul Auster ( Experiências com a verdade)

Posted by addiragram at 06:59 PM | Comentários: (1)

Um monte de adubo onde nascem inesperadas plantas...

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( Vincent Van Gogh)

Uma vantagem de envelhecer é que a pessoa passa a apreciar mais o minuto que vive. Aparecem sorrateiramente dorzinhas, dores nas articulações e por aí fora, mas é espantoso como prejudicam pouco a felicidade.(...) A memória é muito problemática: não é, de modo nenhum o equivalente, na mente, a um ficheiro, parecendo mais um monte de adubo onde crescem inesperadas plantas. Veja-se esta velha fotografia dos Winter, tirada pela mãe na hora exacta em que rebentou a guerra. Nem isso merece confiança. Usurpou a memória real e tornou-se memória. Parou o passado. Por causa da fotografia, fizemos as nossas recordações parecerem-se com retratos de família, estáticos e em pose. Mesmo assim, o ingrediente único do momento que se vive é a sua malebilidade, a sua efemeridade, o peixe que nada ao sabor da corrente, com um reflexo de sol no corpo ondulante. Nunca ninguém apanhou esse momento evanescente, essa coisa cara, essa solenoidade do pôr do sol. Todos os memorialistas do mundo andam, afanosamente, à procura disso mas, mesmo assim, estar e desaparecer continua a ser o seu malicioso prazer. Desaparecer, desaparecer, apenas para ser imediatamente substituído por outro malicioso momento. Gostava que a Sheila voltasse. Adoro tê-la por perto.(...)" Estes minutos que estão a passar agora para onde desaparecem? É, de certo modo, contra natura pensar que se perderam para sempre. Mesmo assim passam para além da memória e nunca mais os recordarei, a partir deste momento.(...) Para algumas pessoas, é uma verdadeira maldição a maneira com essas recordações premanecem. Talvez a memória seja o lugar de todas as doenças psicológicas. Mas isso é um pensamento que eu já tinha tido. Nenhum pensamento é inteiramente novo. Este é mais velho do que a maioria- com excepção daquele que me faz interrogar-me sobre o estado de espírito de Joe quando soube que estava a morrer. Seguramente ele não queria morrer, realmente...Talvez chegue a hora em que eu desejarei esquecer Joe. Mas isso é uma coisa ignóbil de dizer."

Brian Aldiss ( Vida esquecida)

Posted by addiragram at 08:37 AM | Comentários: (1)

novembro 08, 2005

Tanto o Mar como o Amor amargam por metade...

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( Edward Barton)

Tanto o mar como o amor amargam por metade,
tão amargo é mar como é o amor amargo
vai-se ao fundo de amor tanto como no mar largo,
que nunca mar e amor serão sem tempestade.

Quem águas recear, ficar nas margens há-de,
quem os males temer que amor traz a seu cargo,
pois ponha ao inflamar de amor algum embargo
e evita naufragar sem risco de verdade.

A mãe do amor nasceu e foi no mar também,
o fogo sai do amor, das águas sai-lhe a mãe,
mas água em fogo tal não pode amá-lo tanto.

Pudesse água extinguir um braseiro amoroso,
que teu amor a arder-me e a ser tão doloroso,
seu fogo eu apagava em mar feito de pranto.


Pierre de Marbeuf

Posted by addiragram at 08:55 AM | Comentários: (3)

novembro 07, 2005

Fica a cinza de um corpo no olhar...

carlosbotelho.jpg
( Carlos Botelho)

Rua do Quelhas 35, 3º
(valsinha)

Morre-se devagar neste país
onde é depressa a mágua e a saudade
ó meu amor de longe quem me diz
como é a tua sombra na cidade.

Morre-se devagar em frente ao Tejo
repetindo o teu nome lentamente
cintura com cintura beijo a beijo
e gritá-lo abraçado a toda a gente.

Morre-se devagar e de morrer
fica a cinza de um corpo no olhar
ó meu amor a noite se vier
é seara de nós ao pé do mar.

António Lobo Antunes (Letrinhas de cantigas)

Posted by addiragram at 09:32 AM | Comentários: (1)

novembro 06, 2005

Podemos sentar-nos sobre a pedra votiva

arula.jpg


XIX


Não quero o teu retrato
Nem o meu, a não ser
Num templo em ruínas:
Aí o tempo tanto

Gastou degraus, colunas,
E fez do musgo acanto
Que podemos sentar-nos
Sobre a pedra votiva

E ficar de mãos dadas
Sob um céu de ameaça
Olhando a objectiva. há
Felizmente um disparo


Automático a
Fuzilar-nos de amor na nossa imagem.


Vasco Graça Moura ( nó cego o regresso)

Posted by addiragram at 03:14 PM | Comentários: (2)

UM DOMINGO COM VASCO GRAÇA MOURA

renoir90.jpg
( Renoir)

IX


e uma tarde tu
falaste-me da sombra,
da solidez do reino
de árvores imponderáveis.


mostrei-te a luz das praças
e das arcadas, viste
que a sombra era um reduto
só de acompanhamentos.

e viste o sol, o seu
benéfico poder, as tuas
narinas estremeceram
como se de um perfume

de archotes aromáticos:
as árvores ardiam.


Vasco Graça Moura ( Nó cego, o regresso)

Posted by addiragram at 11:02 AM | Comentários: (1)

novembro 05, 2005

Outono do amor que folhas moves

Gatineau.jpg
(Gatineau)

Outono do amor que folhas moves
na direcção dos corpos separados
e molhas desses prantos ignorados
de quem da primavera conheceu o

movimento das aves
e desse movimento estas esperas
agora só conhece já e ouve
a própria descida com as folhas

a voz própria cansada
quando a vida
e a voz lhas está a dor tirando

Outono do amor outono de aves
e de vozes caladas e de folhas
molhadas de temor e surdo pranto


Gastão Cruz

Posted by addiragram at 04:47 PM | Comentários: (1)

novembro 04, 2005

Pequeno como um deus...

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(Escher)

Eternidade

Vens a mim
pequeno como um deus,
frágil como a terra,
morto como o amor,
falso como a luz,
e eu recebo-te
para a invenção da minha grandeza,
para rodeio da minha esperança
e pálpebras de astros nus.


Nasceste agora mesmo. Vem comigo.

Jorge de Sena ( Perseguição)

Posted by addiragram at 10:10 PM | Comentários: (2)

novembro 03, 2005

Metade água metade mágua

degas_young_woman.jpg
(Degas)

Mulher

Metade mulher metade pássaro
Metade anémona metade névoa

Metade água metade mágoa
Metade silêncio metade búzio

Metade manhã metade fogo
Metade jade metade tarde


Metade mulher metade sonho

Jorge Sousa Braga ( A Ferida Aberta)

Posted by addiragram at 10:21 PM | Comentários: (1)

novembro 02, 2005

De porta a porta ( ou carta a um amigo que me fez chegar este poema)

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A Porta Aporta

a porta roda ao invés da lua
a porta roda bússula enterrada ao invés dos olhos
a porta geme é um cão nocturno
a porta geme extinta na trela da noite
a porta areia
a porta caruncho pária do mar
a porta maré que vem e que vai que bate e que fecha
a porta com máscara de morte
a porta sem sorte
a porta joelho na alma das portas
a porta mulher da casa de passe
a porta manchou a manhã com o grito de porta
a porta enforcada no mastro da casa
a porta por asa
a porta roda
a porta sexo a vida toda
a porta tosca da madrugada pregos são estrelas mortas
a porta pregada
a porta leilão
a porta batente a porta aranha por coração
a porta tu
a porta eu
a porta ninguém na terra pequena
a porta geme
a porta facho
a porta leme

Luiza Neto Jorge ( poesia)

Posted by addiragram at 10:46 PM | Comentários: (2)

Regresso devagar a tua casa...

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( Hopper)

Amor como em casa

Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.

Manuel António Pina

Posted by addiragram at 08:23 AM | Comentários: (1)

novembro 01, 2005

Nada de pedir ao coração que saiba manter o seu lugar...

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(Matisse)

Como assim? Vivermos para sempre nesta escravatura de disfarçarmos os sentimentos? Será necessário louvar, necessário aprovar sem descanso? Chegará a tirania a exercer-se sobre os nossos pensamentos? Quem está no direito de exigir de nós esta espécie de idolatria? Por certo que o homem é bem fraco ao prestar semelhantes homenagens, e bem injusto ao exigi-las. Contudo, como se todo o mérito consistisse em servir, exibimos uma baixa complacência. É a virtude do século; é todo o estudo do dia de hoje. Os que têm ainda hoje alguma nobreza no coração fazem tudo o que podem para a perder. (...) A verdade permanece sepultada sob as máximas de uma falsa delicadeza. Chama-se saber viver à arte de viver com baixeza. Não se põe diferença entre conhecer o mundo e enganá-lo; e a cerimónia que deveria ater-se inteiramente ao exterior, introduz-se nos nossos costumes mesmos.
A ingenuidade deixa-se aos espíritos pequenos, como uma marca da sua imbecilidade. A franqueza é olhada como um vício na educação. Nada de pedir ao coração que saiba manter o seu lugar; basta que façamos como os outros. É como nos retratos, aos quais não se exige mais do que parecença.(...)Que é o que nos agrada mais nos nossos amigos? São os contínuos louvores, que deles recolhemos como tributos.(...) Com efeito tirar à amizade a sinceridade é fazer dela uma virtude de teatro; é desfigurar essa rainha dos corações; é tornar quimérica a união das almas; é pôr artifício no que há de mais santo e o impedimento no que há de mais livre.(...)Que um homem tenha a força de ser sincero, e vereis uma certa coragem difundida em todo o seu carácter, uma independência geral, um império sobre si mesmo igual ao exercido sobre os outros, uma alma isenta das nuvens do temor e do terror, um desprezo pelos que se lhe abandonam. De um tronco tão nobre e tão belo, não podem nascer senão ramos de ouro.*

*...Aureus arbore ramus. Virgílio, Eneida,livro VI,v 187.

Montesquieu ( Elogio da Sinceridade .Ed-Fenda)

Posted by addiragram at 12:12 AM | Comentários: (2)