
( Klimt)
Segundo Poema
Sulamite
Ouço o meu amado.
Ei-lo que chega, correndo montanhas,
saltando sobre as colinas.
O meu amado é semelhante a um veado jovem.
Ei-lo de pé, junto às paredes,
espreitando às janelas, olhando pelas grades.
Ele ergue a voz.
- "Vem, meu amor
Passou o inverno, acabaram-se as chuvas.
As flores afogam a terra.
Eis o tempo das alegres canções.
Cantam as rolas no nosso país,
e as figueiras formam os seus primeiros frutos.
As videiras em flor desprendem-se em aroma.
Vem, meu amor.
Pomba escondida nas fendas dos rochedos,
nos secretos lugares das escarpas-
mostra-me o rosto,
deixa-me ouvir a tua voz.
Porque a tua voz é clara, e admirável
é o teu rosto."
Não tardou, porém que eu encontrasse
aquele a quem ama o meu coração.
Não o deixarei agora, enquanto o não levar
a casa de minha mãe,
à frente daquela que me gerou.
-Suplico-vos, ó raparigas de Jeruzalém,
pelas gazelas, pelas corças dos campos,
não acordeis, não acordeis o meu amor,antes
que ele
o deseje.
Os irmãos de Sulamite
Apanha-nos as raposas, as raposinhas
que destroem as videiras,
porque as nossas videiras estão em flor.
Sulamite
O meu amado é meu e eu sou dele.
Ele apascenta um rebanho entre os lírios.
-Antes que se levante a brisa da manhã
e se rasgue a noite, volta,
corre como um veado sobre as montanhas
da aliança.
De noite, no meu leito,procurei
aquele a quem ama o meu coração,
Levanto-me agora, e vou pela cidade.
Em vão o procurei.
Pelas ruas e pelas praças
buscarei aquele a quem ama o meu coração.
Em vão o procurei.
Acharam-me os guardas que fazem a ronda da
cidade.
- " Vistes porventura aquele a quem ama o meu
coração?"
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Cântico dos Cânticos ( in O Bebedor Nocturno - versões de Herberto Helder)

( Dor Secreta)
Com triste coração cantar alegremente
e rir, 'stando de luto, é coisa bem difícil;
o contrário mostrar de quanto nos aflige
é pior que traír um coração dolente.
Assim o tenho feito; e bem continuadamente,
Embora sem o querer, tem-me sido preciso
com triste coração cantar alegremente.
Se no meu coração trago constantemente
o luto que afinal é o que mais me aflige,
pra outros divertir tem-me sido preciso
rir em vez de chorar, e muito amargamente
com triste coração cantar alegremente.
Christine de Pisan (1343-1431)

O menino tem um arco.
É de plástico.
(Mas é de ouro
ou de ferro
ou de prata
- quem o sabe?)
E com ele
o menino colhe flores
e estrelas e algas
da funda claridade.
Nunca pássaros.
Esses, pousam no arco
enquanto o menino dorme
sob as árvores,
como um guerreiro cansado.´
Glória de Sant'Anna

( Matisse)
"Amanhã", dizes tu. " Viverei amanhã."
Quando virá, porém esse tal amanhã?
Ah! que sabemos nós do dia de amanhã?
Que idade tem ao certo o vulto de amanhã?
É coisa que se venda? É coisa que se compre?
Que certeza tens tu de estar vivo amanhã?
Tarde já é viver no próprio dia de hoje.
Mais sábio é começar a vivermos desde ontem.
Marcial.Sec I-II.( Epigramas, Livro V,58 -Vozes da Poesia Europeia.Trad.David
Mourão-Ferreira)

Nas caixas de lápis guardam os meninos os seus sonhos
Ramón Gómez de la Serna. 1888-1963. Greguerías

( Chirico)
Actuação escrita
Pode-se escrever
Pode-se escrever sem ortografia
Pode-se escrever sem sintaxe
Pode-se escrever sem português
Pode-se escrever numa língua
(sem se saber essa língua
Pode-se escrever sem saber escrever
Pode-se pegar na caneta sem haver escrita
Pode-se pegar na escrita sem haver caneta
Pode-se pegar na caneta sem haver caneta
Pode-se escrever sem caneta
Pode-se sem caneta escrever caneta
Pode-se sem escrever escrever plume
Pode-se escrever sem escrever
Pode-se escrever sem sabermos nada
Pode-se escrever nada sem sabermos
Pode-se escrever sabermos sem nada
Pode-se escrever nada
Pode-se escrever com nada
Pode-se escrever sem nada
Pode-se não escrever
Pedro Oom

A NOZ
Que maravilha ser este corpo formado
por duas peças tão unidas!
parecem as pálpebras
quando ficam cerradas
durante o sono...
Se a fenderes com uma navalha,
dirás então que é uma pupila,
tornada convexa
pelo esforço de contemplar...
E o seu interior poderias compará-lo
ao interior de um ouvido,
por causa de tantas pregas
e de tantos esconderijos...
IBN AL-QÛTIYYA .Sec XI ( Vozes da Poesia Europeia-I. Trad. de David Mourão-Ferreira)

A MENINA DOS FÓSFOROS
Estava muito frio, a neve caía e já estava começando a escurecer. Era a noite do último dia do ano. Uma menina descalça e sem agasalho andava pelas ruas, no frio e no escuro. Quando atravessou correndo para fugir dos carros, a menina perdeu os chinelos que tinham sido da mãe e eram grandes demais. Um ela não achou mais e um garoto levou o outro, dizendo que ia usar como berço quando tivesse um filho.
A menina já estava com os pés roxos de frio. Tinha um pacotinho de fósforos na mão e outro no avental velho. Naquele dia não tinha conseguido vender nada e estava sem um tostão. Com frio e com fome, ela andava pelas ruas morrendo de medo. A neve caía no cabelo cacheado, mas ela não podia pensar nem no cabelo nem no frio. As casas estavam iluminadas e havia por toda parte um cheirinho gostoso de assado de ano novo. Era nisso que ela pensava.
Num cantinho entre duas casas, ela se encolheu toda, mas continuava sentindo muito frio. Voltar para casa, nem pensar: sem dinheiro, sem ter vendido nada, era certo o castigo do pai. Além do mais, a casa deles também era muito fria, sem forro e com o telhado cheio de furos e emendas, por onde o vento entrava assobiando.
Com as mãos geladas, pensou em acender um fósforo. Conseguiu. A chama pequenina parecia uma vela na concha da mão. A menina se imaginou diante de uma lareira enorme com o fogo esquentando tudo e ela também. Mas logo a chama apagou e a lareira sumiu. Ela só ficou com o fósforo queimando na mão.
Acendeu outro que, brilhando, fez a parede ficar transparente. Ela viu a casa por dentro: a mesa posta, a toalha branca, a louça linda. O assado, o recheio, as frutas. Não é que o assado, com o garfo e faca espetados, pulou do prato e veio correndo até onde ela estava?
Mas o fósforo apagou e ela só viu a parede grossa e húmida.
Acendeu mais um fósforo e se viu junto de uma belíssima árvore de Natal. Maior do que uma que tinha visto antes. Velinhas e figuras coloridas enchiam os galhos verdes. A menina esticou o braço e... o fósforo apagou. Mas as velinhas começaram a subir, a subir e ela viu que eram estrelas. Uma virou estrela cadente e riscou o céu.
-Alguém deve ter morrido. A avó - única pessoa que tinha gostado dela de verdade e que já tinha morrido - sempre dizia: "Quando uma estrela caí, é sinal de que uma alma subiu para o céu".
A menina riscou mais um fósforo e, no meio do clarão, viu a avó tão boa e tão carinhosa, contente como nunca.
-Vovó, me leva embora! Sei que você não vai mais estar aqui quando o fósforo apagar. Você vai desaparecer como a lareira, o assado e a árvore de Natal.
E foi acendendo os outros fósforos para que a avó não sumisse. Foi tanta luz que parecia dia. E a avó ali, tão bonita, tão bonita. Pegou a menina no colo e voou com ela para onde não fazia frio e não havia fome nem dor. Foram para junto de Deus.
De manhãzinha, as pessoas viram no canto entre duas casas uma menina corada e sorrindo. Estava morta. Tinha morrido de frio na última noite do ano. Nas mãos, uma caixa de fósforos queimados.
-Ela tentou se esquentar, coitadinha.
Ninguém podia adivinhar tudo o que ela tinha visto, o brilho, a avó, as alegrias de um ano novo.
Hans Christian Andersen - 1805-2005

( Josefa de óbidos)
Na tal habitação volto a falar-te
Na tal que já eu-próprio não conheço
Na tal que mais que tálamo era berço
Na tal em que de noite nunca é tarde
Na tal de que por fim ninguém se evade
Na tal a que sei bem que não regresso
Na tal que umbilical cabe num verso
Na tal sem universo que a iguale.
Na tal habitação te vou falando
Na tal como quem joga às escondidas
Na tal a ver se tu me dizes qual
Na tal de que eu herdei só este canto
Na tal que para sempre está perdida
Na tal em que o natal era Natal.
David Mourão-Ferreira (Cancioneiro de Natal)

S.Martinho de Anta, 24 de Dezembro de 1962
Natal
Um anjo imaginado
Um anjo dialéctico, actual,
Ergueu a mão e disse: - É noite de Natal,
Paz à imaginação!
E todo o ritual
Que antecede o milagre habitual
Perdeu a exaltação.
Em vez de excelsos hinos de confiança
No mistério divino,
E de mirra e de incenso e oiro
Derramados
No presépio vazio,
Duas perguntas brancas, regeladas
Como a neve que cai,
E breves como o vento
Que entra por uma fresta, quezilento,
Redemoinha e sai:
À volta da lareira
Quantas almas se aquecem
Fraternamente?
Quantas desejam que o Menino venha
Ouvir humanamente
O lancinante crepitar da lenha?
Miguel Torga ( Diário IX)

(Giotto)
RECEITA PARA UM NATAL
Primeiro, ficar parado
durante um momento, de pé
ou sentado, numa sala ou mesmo
noutra dependência do lar.
Depois preparar
os olhos, as mãos, a memória
e outros utensílios indispensáveis. A seguir
começar a reunir
coisas, por ordem bem do interior
do coração e do pensamento:
a ternura dos avós, uma mancheia;
rostos de primos distantes, uma pitada;
sons de sinos ao longe, quanto baste;
a recordação duma rua, uns bocadinhos
um velho livro de quadradinhos
duas angústia mais tardias, alguns restos de azevias,
a lembrança de vizinhos ainda vivos mas ausentes
e de uns já passados.
Quatro beijos de seres amados ou de parentes
um cachecol de boa lã cinzenta aos quadrados
e um pouco de azeite puro e fresco
igual ao que a mãe usava noutro tempo saudoso.
Mexe-se bem, leva-se ao forno
e fica pronto e saboroso
- mesmo que, nostálgica, se solte uma pequena lágrima.
Nicolau Saião

(Leonardo da Vinci)
Versos de Natal
Espelho, amigo verdadeiro,
Tu reflectes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exacto e minucioso,
Obrigado, obrigado!
Mas se fosses mágico,
Penetrarias até ao fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera do Natal
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.
Manuel Bandeira ( Lira dos cinquent' anos)

Esta árvore foi encontrada acidentalmente numa missão abandonada e semi-destruida pela guerra e pelo abandono dos homens - MISSÃO DE BOROMA- perto de Tete. Achei-a como quem acha um tesouro. Olhei-a e, ainda hoje a olho, como símbolo da vitória da vida sobre a morte. É esta,pois, a Árvore de Natal que trago para todos.

( Lila Amora)
Natal, e não Dezembro
Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio,
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa , em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.
Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos despojados , mas entremos.
Das mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.
David Mourão-Ferreira (Cancioneiro de Natal.1960-1987)

( Manet)
EM RAMOS TUFADOS,CHEIOS...
Eram ramos tufados, cheios,
Olha, minha Amada, vê!
Deixa que te mostre os frutos
Dentro dos ouriços verdes.
Redondos, há muito pendem,
Calmos, fechados em si,
E um ramo a baloiçar
Os embala paciente.
Mas de dentro amadurece
E incha o fruto castanho;
Gostava de vir pra o ar
E de poder ver o sol.
A casca rebenta, e cai
Alegre pra o chão o fruto;
Tais minhas canções aos montes
Te vão caír no regaço.
J.W.GOETHE (Poemas)

( lua)
SE DA AMADA ESTÁS AUSENTE...
Se da Amada estás ausente
Como o Oriente do Ocidente,
O coração transpõe todo o deserto;
Só, por toda a parte acha o seu caminho certo.
Para quem ama Bagodá é aqui perto.
J.W.Goethe ( Poemas)

CANTO DOS ESPIRITOS SOBRE AS ÁGUAS
A alma do homem
É como a água:
Do céu vem,
Ao céu sobe,
E de novo tem
Que descer à terra,
Em mudança eterna.
Corre do alto
Rochedo a pino
O veio puro,
Então em belo
Pó de ondas de névoa
Desce à rocha lisa,
E acolhido de manso
Vai, tudo velando,
Em baixo murmúrio,
Lá para as profundas.
Erguem-se penhascos
De encontro à queda,
- Vai, 'spumando em raiva,
Degrau em degrau
Para o abismo.
No leito baixo
Desliza ao longo do vale relvado,
E no lago manso
Pascem seu rosto
Os astros todos.
Vento é da vaga
O belo amante;
Vento mistura do fundo ao cimo
Ondas 'spumantes.
Alma do Homem,
És bem como a água!
Destino do homem
És bem como o vento!
J.W. GOETHE ( Poemas -antologia, versão portuguesa ...de Paulo Quintela)

AQUÉM DE SUA VONTADE
Não busques o equilíbrio
nas coisas. Elas jazem
aquém de sua vontade.
Nem no dia que se alteia
longe de teus braços.
O equilíbrio é um arrabalde,
um corte na justiça.
Nem o amor, nem o antigo
vagar dos planetas.
Nada te equilibra,
nada salva
seu rumor de semente.
Carlos Néjar (de A Ferocidade das Coisas, 1980)

A infinitude do alcance daquele assobio resultava, certamente, de um também enorme conhecimento metafísico da arte de assobiar, que mexesse não só com o ouvido das pessoas, mas alcançasse, de modo incisivo, a profundidade das suas almas, o recôndito canto onde cada um escondia escondia as suas coisas- essa assustadora gruta a que muitos chamam âmago do ser.
As pessoas boquiabertavam-se, incapazes dos mínimos movimentos, comentários, vivências conscientes.Num tom menos exaltado mas com a mesma capacidade hipnotizante, cada um naquela praça sentiu uma mão invisível e assobiada entrar-lhe pela boca adentro, arranhando a garganta da alma, revolvendo as mais delicadas vísceras do passado. Em verdade, era um momento quase bruto, delicadamente bruto.
KeMunuMunu, embora não fechasse os olhos, esteve munido de uma perturbadora sensação que não soube explicar a si próprio. Como se em imagens isoladas lhe surgissem capítulos da novela da sua vida. Capítulos que nunca mais tivera tempo de reviver ao ponto de os analisar com degusto. Queria mexer-se, e não podia; queria respirar muito,mas só conseguia respirar pouco. O Padre apertava os olhos, tentando esmagar as lágrimas que, vindas lá da sua alma, lhe queimavam a escura visão, o momento apagado, a quentura do toque da pálpebra de cima na pálpebra de baixo.
Kalua chegara a meio do assobio com as calças ainda por apertar, com dois ou três rolos de papel higiénico nas mãos, e, estranhamente, com algumas lágrimas num só olho. Há anos que perdera a capacidade de chorar, de se emocionar, ou até mesmo de se lembrar das coisas.
Ondjaki ( O Assobiador)

Os cometas dão a volta e batem as caudas.
Têm luz própria, estes peixes orbitais
e crisântemos. Nos viveiros das bolhas, ébrios de oxigénio.
As águas atravessam as trevas.
Atravessam-nas os animais de coração translúcido entre os ombros.
Quando um abraço engrandece tudo, cabem na barragem
espádua a espádua.
As palavras com bolhas dos pulmões à boca.
E no bravio espaço de nome a nome-desabrochadamente:
guelras, e os cometas florais derramados.
Quando a loucura abala as residências vivas
entre a água e a instantânea
atmosfera
dos besouros, altos, todos, furiosos
como jóias. Quando a loucura me abala
com ar e água.
Herberto Helder ( Poesia Toda)

(Demuth)
Dentro da casa o mar ressoa como no interior de um búzio.Quando abro as gavetas a minha roupa cheira a maresia como um molho de algas. Profundos os espelhos reflectem demoradamente os dias.E em frente das janelas o mar brilha como inumeráveis espelhos quebrados. Os móveis são escuros e finos, sem verniz, encerados. O chão é esfregado, as paredes caiadas. Em todas as coisas está inscrita uma limpeza de sal.A exaltação marinha habita o ar. A casa é aberta e secreta, veemente e serena. Nela o menor ruído-tinir de loiça, degrau que range, respiração do vento, comboio que ao longe passa- é escutado. A casa está atenta a cada coisa. Todos os dias a renovam. A mais leve nuvem que passa ensombra o vidro dos espelhos. Nela cada dia é único e precioso como se contivesse a totalidade do tempo. No brilho da mesa, na transparência do copo há como que uma intensidade repousada.
Sophia de Mello Breyner Andresen ( A casa do mar)

Olhei quase sempre para o chão.
E aquela estrela que parava no sul, descia de
repente e caía aos nossos pés.
Recolhi-a,
ano após ano,
e com o resto da sua luz quis iluminar o
teu caminho.
Mas tu não viste as suas lágrimas que eram
as minhas,
apagando a última luz, sobre o chão.
José Agostinho Baptista ( 1948- Biografia)

( Turner)
PERDOA e ganhará o amor
um outro realce, outra beleza,
é que se punires será o rancor
a tomar mais evidência e mais clareza.
IBN ' AMMÂR (1031-1084; Drama de um Poeta)

IMAGEM DO MUNDO
Vejo o mundo. E ao ver as coisas do mundo,
com a sua realidade própria, vejo também
a diversidade que existe em cada coisa,
distinguindo-a, múltipla ou plural,
como se diz. No entanto, o que eu vejo
é sempre igual ao que eu penso
que o mundo é; e tudo se torna
semelhante, dentro deste mundo que é
o meu, e é sempre diferente do mundo que
existe no pensamento do outro É por isso
que não penso nas coisas do mundo como
se fossem minhas; e que o deixo para os outros,
para que eles façam o mundo como quizerem,
para que seja diferente do meu, quando o
olho e o que vejo me restitui o mundo
como eu o quero, diferente do mundo que
os outros pensam.
Nuno Júdice ( Geometria Variável)

A IMAGEM DA FLOR
Não vou cantar este inverno como se fosse o outono
nem a queda das folhas que inundam os passeios por onde
passo, devagar, como se te levasse ao meu lado, nem
esse pássaro que aqui ficou por engano, e me traz com
o seu canto o horizonte de rouxinois que o teu olhar
me abre, quando o fixo na embriaguez do estio. Talvez
seja um outro sentimento que inunda esta doce estação
em que a melancolia é redonda como a laranja que
ficou, por esquecimento, num canto da mesa: refiro-me
a esta saudade que amadurece quando a primavera
está longe, ainda, e me cai nas mãos quando a corto
do ramo que o teu desejo alimenta. Embalo-a, como
se fosse um recém-nascido, e pouso-a na terra húmida
onde a manhã já desfaz uma névoa de solidão.
Nem vou esvaziar a noite do seu peso de música,
dos momentos em que a tua voz a enche com seu
murmúrio de palavras, do luminoso eco de uma
sombra que se desfaz quando o teu corpo se liberta
do espelho da memória. Abraço esta noite, com o seu
vazio e a sua treva, e tiro de dentro dela a imagem
da flor que me deste, com o seu centro entreaberto,
e um pólen de frases em que principia a manhã
do mundo, branca e imensa, onde me esperas com
a surpreza da vida. Hoje, vestir-te-ia da cor do mar,
rodear-te-ia o corpo com um ouro de maré, e
enrolar-te-ia nos cabelos um fio de vento litoral,
como se fosses o porto e a viagem, ao mesmo tempo,
a água e a terra em flutuo e renasco.
E vejo-te, nesta linha de luz em que se liberta
uma intimidade de respiração com a realidade do teu rosto,
o desenho de pétala do verso que te envolve, e
o breve gesto da despedida em que o amor se demora.
Nuno Júdice ( Geografia Variável)

( Monet)
Colheita
Houve uma altura em que me preocupava
com o significado das palavras; o seu
sentido tinha de corresponder a qualquer coisa de
compreensível, como se tudo no mundo tivesse
uma explicação. Por vezes, no entanto, havia imagens
que não tinham qualquer correspondência
com a realidade: flores abstractas cujas pétalas
eu colhera num campo da memória, uma a uma,
para as colar em cada verso. E essa contradição
entre o que eu queria dizer e o
que estava escrito, em que não havia
uma relação imediata com o pensamento,
inquietava-me. Porém, ao descobrir que
essa inquietação faz parte do poema, pus
de parte o significado, e limpei de pétalas a
página. Fiquei com as palvras no seu campo
de significações, verdes como as folhas
da primavera; e ao passar sobre os ramos da
frase, arranhando-me nas suas consoantes mais
ásperas, e respirando o ar fresco das vogais,
percebi que o sentido se encontra no gesto
em que lanço à terra a semente do acaso,
para que dela nasçam arbustos
em cujos ramos se abrigam os pássaros
que cantam nesta estrofe.
Nuno Júdice ( Geometria Variável)

(M.C.Escher -retrato do pai)
Desde que provei a sopa tive a sensação de que todo o mundo adormecido despertava na minha memória. Sabores que tinham sido meus na infância e que perdera desde que me fui embora da aldeia reapareciam intactos com cada colherada e apertavam-me o coração.
Desde o princípio da conversa
Dissimulei a atrapalhação com um relato espectral dos meus estudos: bacharelato completo e bem classificado num internato oficial, dois anos e uns meses de Direito caótico, jornalismo empírico. A minha mãe ouviu-me e, em seguida, procurou o apoio do doutor.
- Imagine, compadre-disse-,quer ser escritor.
Os olhos do doutor resplandeceram-lhe no rosto.
- Que maravilha, comadre!- exclamou. -É um presente do céu. - E voltou-se para mim: - Poesia?
- Romance e conto- respondi, com a alma por um fio.
Ele entusiasmou-se:
- Leste Dona Bárbara?
- Com certeza- respondi-, e quase tudo o restante de Rómulo Gallegos.
Como que ressuscitado por um entusiasmo súbito, contou-nos que conhecera numa conferência que fez em Maracaibo e lhe parecera umdigno autor de livros. A verdade é que naquele momento, com a minha febre de quarenta graus pelas sagas do Mississipi, começava a estar um pouco farto do romance vernáculo. Mas a comunicação tão fácil e cordial com o homem que fora o pavor da minha infância parecia-me um milagre e preferi concordar com o seu entusiasmo. Falei-lhe de " La Jirafa"- a minha nota diária em el El Heraldo- e adiantei-lhe a novidade que muito em breve pensávamos publicar uma revista na qual depositávamos grandes esperanças. Já mais seguro, contei-lhe o projecto e até lhe antecipei o nome: Crónica.
Ele mirou-me de cima a baixo.
-Não sei como escreves- disse-me- mas falas como um escritor.
Gabriel Garcia Márquez ( Viver para contá-la)

( Calder)
Motivo
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa
Não sou alegre nem sou triste
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico
se permaneço ou me desfaleço
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo
Tem sangue eterno a asa ritmada
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.
Cecília Meireles

( Fernando Pessoa no primeiro ano de vida)
O processo de dissociação iniciado na infãncia, e depois durante as férias em Lisboa e nos Açores, continua então, e torna-se mais complexo. É em 1903-1904 que aparecem novas "personalidades literárias", melhor caracterizadas que as precedentes.Estes escritores, para dizer a verdade, têm no seu activo mais projectos que realizações: será, até ao fim, um dos traços mais marcantes da Personalidade de Pessoa, talvez a sua maior fraqueza: um jorrar incessante de ideias novas, sem que nenhuma delas tenha o tempo necessário para pousar no espaço limitado do seu livro. Mas, enfim, de alguns destes precursores juvenis dos futuros heterónimos ficariam vestígios suficientes para se ter uma ideia precisa das promessas que não se mantiveram completamente.
Nem sempre é fácil identificá-los. De vez em quando muda-lhes o nome, ou então esita entre dois deles para a atribuição de um poema ou de um texto em prosa. Contudo, sem demasiado risco de erro , podem identificar-se seis ou sete " personalidades literárias" que partilham com Pessoa " ele mesmo" o espaço da sua consciência criadora nesses anos cruciais. Pode-se deixar de lado James Faber, autor virtual de romances policiais ( os únicos que interessam a Pessoa) e teórico da literatura de mistério inaugurada por Edgar Poe, e na altura ilustrada sobretudo por Conan Doyle. Charles James Search, especialista dos problemas de tradução que sempre preocuparam Pessoa, é apenas a sombra do irmão, Alexander Search, o mais fecundo e original de todos, o mais próximo de Pessoa, de quem é o duplo absoluto, nascido fictíciamente no mesmo dia que ele, 13 de Junho de1888. Vamos reencontrá-lo depois de 1905 em Lisboa, par onde o seu demiurgo o levará consigo.É ainda o caso de Charles Robert Anon ( abreviatura de "Anónimo"), que vimos entrar em polémica no jornal de Durban com o professor Haggard. Este é o mais cínico e o mais violento de toda a coterie: um energúmeno, que contrasta com o rapaz bem educado que é o jovem Pessoa.Mas os seus textos mais significativos são posteriores ao regresso a Lisboa.Talvez ele prefigure Campos.A estes quatro pré-heterónimos ingleses, é preciso acrescentar Jean Seul, o primeiro, desde o Chevalier de Pas, a escrever em francês. Também este reencontraremos em Lisboa depois de 1905.
Robert Bréchon ( Estranho Estrangeiro)

O Verão Novo
O verão que perdemos
não poderá fazer-nos
perder o verão novo
Há-de voltar o corpo
e o mar será o mundo
revolto que já foi
O outono o inverno
serão se nós quizermos
o verão que perdemos
Gastão Cruz (1941)

Infância
A Abgar Renault
Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé
Comprida história que não acaba mais.
No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da sanzala- e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem preta velha
café gostoso
café bom.
Minha mãe ficava sentada, cosendo
olhando para mim:
- Psiu... Não acorde o menino,
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro...que fundo!
Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.
E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.
Carlos Drummond de Andrade ( Antologia Poética - A Família que me dei)

( Miró)
Camponês, que plantaste estas árvores reais com pássaros vivos
na verdura autêntica das ramagens, sabias bem que nada valem as
asas fulvas e imaginárias nas florestas do tempo.
Tu sim, que concebeste todas estas folhas, flores e frutos, toda esta
terra de harmonia- no tamanho duma semente mais pequena que o
coração das aves.
Carlos Oliveira ( Trabalho Poético -1921-1981)

( Monet)
AO SOL
(Oração de tradição oral)
Eu te saúdo. Sol das estações,
Na tua viagem pelos altos céus.
Rasto indelével no cimo dos montes,
Senhor amável de todas as estrelas.
Mergulhas sereno nas trevas do mar,
E nada te toca e nada tu sofres.
Depois te alevantas da calma das ondas,
Como jovem príncipe coroado de rosas.
Cultura celta ( gaélico escocês) in Rosa do Mundo -2001 Poemas para o Futuro

Roubo na Quinta das Vinhas
A acção passa-se numa noite de setembro de 1905, na Quinta das Vinhas, com a presença do proprietário, José Mendes Borba, e do seu filho, José Alves Borba, bem como da sua irmã Adelaide, sua sobrinha (filha desta), Maria Adelaide, de um primo, aspirante a oficial, Manuel Barata, e de uma amiga de Maria Adelaide, Maria Elisa. Também está com e/es o Eng. Augusto Claro, a convite de José Mendes Borba, o dono da Quinta. É o narrador do caso.
Uma noite, pelas 24 horas, depois de uma explosão, foi encontrado arrombado o cofre da casa, de onde tinham desaparecido cem títulos da Dívida Externa Portuguesa, que aliás, dois dias depois, tinham entrado em circulação. Depois das investigações a cargo do agente Lima, este desconfiou do filho do dono da casa, com dificuldades de dinheiro e que aliás tinha já maus precedentes, além de que era amigo de Manuel, passador de moeda falsa. Por outro lado, o roubo devia ser da responsabilidade de alguém da casa. Sabia-se que, a hora do crime, todas as pessoas citadas estavam na casa, já recolhidas aos seus quartos, com a exceção do proprietário e do Eng. Augusto Claro.
O agente Lima estranhava que o Engenheiro tivesse justamente subido ao 1º andar (onde se localizava o cofre) pouco antes da explosão. Convencido de que tudo fora obra de uma quadrilha com inteligências, não só com o filho do dono da casa, mas também com mais alguém, o agente prendeu o jardineiro José Algarvio.
É então que o Engenheiro pede ao Dr. Quaresma que procure resolver o enigma, tanto mais que está convicto da inocência do jardineiro. É por aqui que principia, no texto de Pessoa, a narrativa do Eng. Augusto Claro, em discurso direto.
Observe-se que, em apontamento dactilografado, o poeta nos deixou uma síntese do livro, dividida em cinco partes:
l. Indicações sobre as pessoas, os locais, e o caso como se deu até ao princípio da investigação policial .
II. Narrativa das investigações policiais, incluindo o encontro de quatro títulos, o esbarrar das investigações (conduzidas sempre na hipótese de o culpado ser um estranho), até a saída do narrador da Quinta das Vinhas.
III. Narrativa de como o caso realmente se passou, até o narrador ficar aguardando com receio a vinda do princípio do ano.
IV. A segunda investigação policial, a visita ao Dr. Quaresma, até ao braço no ombro do narrador.
V. A explicação do Dr. Quaresma.
Eis os fragmentos da narrativa do Engenheiro, que o autor chegou a escrever:
1º fragmento:
Apesar de me maçar, por antecipação, a idéia de ir contar ao Dr. Quaresma toda a história do roubo, não podia decentemente furtar-me a fazê-lo. Por isso, resignando-me com placidez, lhe expus, resumindo o mais possível, todos os fatos que vão expostos no decurso desta narrativa. Fiz, como e de supor, algumas supressões: não falei nas dividas do José Alves, nem no caso dos quinhentos escudos, e muito menos da parte do discurso do Lima de que estas coisas tinham sido o assunto e a base. Não pude, porem, esquivar-me a falar da hipótese policial, de que havia uma quadrilha a trabalhar, e que a polícia suspeitava que o fizessem em ligação com alguém de dentro da Quinta das Vinhas. Se não explicasse isto, era incompreensível a prisão de José Algarvio; e, aliás, bastava que o Dr. Quaresma se interessasse activamente por ele para o descobrir na policia.
O Dr. Quaresma ouviu-me com grande atenção; mas, se assim posso dizer, com uma atenção dividida. Parecia, ao mesmo tempo que me ouvia com os olhos, estar escutando uma voz que não era a minha. Reconheço o absurdo deste modo de dizer, mas transcrevo a minha impressão sensorial. Na realidade, o Dr. Quaresma parecia, sem deixar de me ouvir atentamente, estar todavia a seguir o decurso interior de uma outra coisa - raciocínio ou conjectura ligada - que não deixava de ter relação com o que eu ia narrando.
Acabei, por fim, a minha narrativa, e supunha-me livre do fardo dela. Mas o Dr. Quaresma, que não me interrompera enquanto eu contava, começou nesta altura a inter- rogar-me. Pediu-me uma descrição minuciosa das pessoas que estavam na casa por ocasião do roubo; a minha descrição directa havia sido sumária. Interrogou-me sobre idades, profissões, estados financeiros, e tudo mais. Comecei a sentir-me menos à vontade, sobretudo quando o José Alves era o assunto do interrogatório. Eu não podia dizer toda a verdade sobre o José Alves, mas também, em simples justiça ao preso, não podia suprimir redondamente os fatos. Além disso, não estava muito seguro que o Dr. Quaresma, falando depois à polícia, não iria descobrir os fundamentos da outra hipótese do agente Lima. Decidi narrar o caso de certas atrapalhações financeiras do José Alves, não explicando o jogo que ele motivara, nem fazendo referência ao furto anterior.
A certa altura, porém, comecei a atrapalhar-me, pois o medico entrou no assunto por desvios. Perguntou-me se as relações entre pai e filho tinham sido sempre boas, ao que eu respondi que me parecia que sim, mas o próprio verbo "parecer" me soou cauteloso demais, e receei que levasse ao Dr. Quaresma mais informação do que eu queria dar. Com essas e outras perguntas me entreteve, sem me divertir, durante cerca de uma hora e meia, a contar do início da minha conversa.
Há aqui uma lacuna, a do pedido do Engenheiro ao Dr. Quaresma, para que salve o jardineiro, a seu ver injustamente preso. A narrativa prossegue:
2º fragmento:
- Só o posso fazer pondo a mão no verdadeiro criminoso.
- Então faça-o, Sr. Dr. Quaresma.
Quaresma desdobrou as mãos, estendeu a destra e tocou-me no ombro. Por fim, levantou-se da cadeira, e dirigiu-se para um cabide onde tinha o chapéu.
- Não se importa que saíssemos? - perguntou. - Queria passear um pouco para acabar uns certos raciocínios.
- Não me importo nada. - E saímos.
Descemos a Rua dos Fanqueiros. Estava uma tarde linda de Outono. Seguimos lado a lado, silenciosos ambos, e, no fim da rua, seguindo o movimento do Dr. Quaresma, viramos à direita, para o Terreiro do Paço. O Dr. Quaresma avançou lentamente, cabisbaixo, as mãos sempre cruzadas atrás das costas, até à muralha da esquerda. Ali parou, e eu com ele, e contemplou vagamente o rio. Esteve assim um momento. Depois voltou-se para mim com uma expressão grave e direta nos olhos naturalmente um pouco febris.
- Eu salvo o José Algarvio - disse. - Mas, antes de o fazer, preciso estudar com muito cuidado como hei de proceder no assunto. Calhou muito bem que fosse o Sr. Claro que me procurasse, porque é consigo que eu tenho estudar a sério a resolução do assunto. Diga-me uma coisa: ocorreu-lhe alguma vez que o José Alves pudesse ser suspeito?
- Se me ocorreu? Não. Como sabe o Sr. Dr. Quaresma que ele é, ou pode ser suspeito?
Depreende-se que assim é. O diálogo continua:
- Se eu salvar este José Algarvio, o José Alves será fatalmente preso.
- Talvez não - disse eu.
- É-o com certeza. Será preso e será condenado. Este José Algarvio salva-se com facilidade, nem era preciso o meu auxilio para nada. O José Alves é que se não salva. É pena. Quer dizer, não se salva, se o caso seguir o seu curso entregue só à policia. Há só um processo de o salvar: é pôr a mão no criminoso. Ora a polícia não é capaz de o fazer, porque caiu, desde o princípio, num erro fundamental, naquele mesmo erro em que o criminoso quis que ele caísse.
- E o Sr. Dr. Quaresma sabe quem é criminoso?
- Sei. Quer que eu salve o José Alves?
- Quero - disse eu hesitantemente, sem perceber o que se seguiria.
No fragmento seguinte, também encontrado no espólio, quem fala agora é o Dr. Abílio Quaresma, médico e decifrador, expondo os raciocínios que o levaram à conclusão lógica do problema.
4º fragmento:
O critério de investigação que adopto, porque o acho o mais racional de todos, é o dividir a investigação preliminar em três tempos. O primeiro tempo é determinar quais são os fatos incontestáveis, absolutamente incontestáveis, eliminando todos os elementos que não o sejam, ou porque não há certeza directa deles, ou porque sejam conclusões - talvez lógicas, talvez inevitáveis - tiradas desses fatos, mas, em todo o caso conclusões e não fatos. Citarei um exemplo para esclarecer inteiramente o que desejo significar com estas observações. Suponha que está um dia de chuva e que estou em casa. Aparece-me um indivíduo com o fato a escorrer em água. É natural que eu pense: "Este homem andou à chuva e assim ficou molhado." Mas pode bem ser que não andasse à chuva, que entornassem água sobre ele aqui dentro de casa. A maioria da gente consideraria um fato o ter andado esse homem à chuva. Afinal é uma conclusão - uma conclusão naturalíssima, mas uma conclusão, ou uma dedução. Se eu tivesse estado à janela, tivesse visto esse indivíduo vir pela rua fora sob uma chuva pesada, poderia ainda, é certo, esse molhar da chuva ser suplementado por outra circunstância qualquer, mas alguma coisa da chuva teria molhado o homem, e eu poderia, em todo o caso, afirmar que o homem tinha andado à chuva. E então isso seria um fato.
Ora, neste caso do roubo na Quinta das Vinhas, há alguns fatos que parecem incontestáveis (digo "parecem", pois eles se baseiam em testemunhos que podem ser falsos, involuntária ou propositadamente). Esses fatos são: que cerca da meia-noite do dia ... de Setembro se deu uma explosão de dinamite na fechadura do cofre no escritório da Quinta das Vinhas; que esse escritório e a saleta anexa estavam fechados por dentro, aberta a janela da saleta, e dois cães mortos por envenenamento; que se verificou nessa altura não estarem no cofre dinamitado uns títulos (cem) da Divida Externa Portuguesa, 1ª série, que haviam estado nesse cofre; que se não encontrou sinal de ninguém suspeito na busca que se passou imediatamente nas proximidades da casa; que todos os títulos roubados, verificados os seus números por uma lista que existia em poder do proprietário dos títulos, foram passados para a circulação bancária da praça sem que qualquer deles fosse apanhado no processo de passagem. Fatos, simplesmente fatos, há só estes. Quanto mais se queira passar por fato é simplesmente dedução.
Estabelecidos os fatos incontestáveis, chegamos ao segundo tempo da investigação. Este tempo consiste no seguinte: em descobrir qual e a hipótese que mais completamente liga e explica os fatos incontestáveis. Mas, descoberta esta hipótese, há que investigar que outras hipóteses haverá que também, embora com menos probabilidade aparente, se ajustem ao conjunto dos mesmos fatos. E essas hipóteses determinam-se por um processo simples: descoberta a hipótese mais provável, estabelece-se Jogo a hipótese contrária e verifica-se qual o grau de probabilidade que a essa hipótese contrária compete. Estabelecido isto, será possível partir para as outras hipóteses, isto é, aquelas que estejam intermédias, entre a mais provável e a sua contrária, e ir verificando, a uma e uma, quais as probabilidades delas.
No caso de que se estamos tratando, a hipótese aparentemente mais provável é a que toda a gente aceitou desde logo, instintivamente, achando-a tão provável que a tomou, até, por fato e não por hipótese ou conclusão. Essa hipótese é de que o roubo houvesse sido praticado por um indivíduo ou indivíduos, estranhos à Quinta das Vinhas, que houvessem envenenado os cães, entrando em casa escondidos, posto a dinamite, roubado os títulos e fugindo depois, suficientemente depressa para não serem vistos. Conhecida esta hipótese, estabeleceremos a hipótese contrária. A hipótese contrária é que o roubo não tenha sido praticado por indivíduos estranhos, que não tenha havido nenhuma das circunstâncias aparentes já indicadas. É isso que constitui, como é de ver, a hipótese contrária.
Ora que probabilidade se pode ligar a esta hipótese contrária? Como a hipótese mais provável, a mais imediata para todos, é que o roubo fosse feito por estranhos, e nas circunstâncias indicadas, a hipótese contrária será realmente provável apenas num caso: se houve a intenção de simular esse roubo por estranhos. Nesse caso, a hipótese contrária é provável; tão provável como a primitiva é natural.
Estamos, pois, perante duas hipóteses prováveis, e que entre si se opõem. Qual das duas é a mais provável? Temos que considerar isto à luz do exame das circunstâncias directas do roubo, ou seja, considerando (1ª) o local do roubo, (2ª) a hora em que o roubo foi praticado, (3ª) a natureza do objeto roubado. São estes os três elementos materiais directos do sucesso.
O local do roubo pode ser considerado sob dois aspectos - o local em si mesmo, e a escolha deste local para roubo; ou seja, o ser o roubo praticado no escritório da Quinta das Vinhas, e o ser a Quinta das Vinhas o local escolhido para o roubo. Quanto a dar-se o roubo no escritório da Quinta, nada há de extraordinário pois ali é que está o cofre, e o roubo havia forçosamente de ser ali. Mas quanto a escolher a Quinta das Vinhas para casa a roubar, o caso é diferente. Que presunção havia de que o cofre da Quinta das Vinhas era mais proveitoso de roubar que qualquer outro cofre? Que presunção dessa ordem havia para estranhos? Quem tivesse a habilidade e os processos para roubar como se roubou neste caso, por que escolheria a Quinta das Vinhas, quando, sem desperdício de habilidade, nem maior risco, obteria melhores vantagens atacando outro ponto? A probabilidade neste caso é, pois, em favor de uma pessoa não estranha à casa; capaz de roubar esse cofre por não ter outro a mão - razão suficiente e clara - e sentindo-se na necessidade de simular o roubo dum estranho para desviar a atenção de alguém de dentro da casa, entre os quais ele estaria incluído.
Agora quanto à hora do roubo. Quanto à hora do roubo, é mais estranha se ele foi obra de estranhos do que se foi obra de alguém de dentro de casa. Entrado em casa, o gatuno estranho deixa passar o tempo necessário para ter a certeza, ou a probabilidade grande de estarem todos a dormir. Para que operar logo, ainda que não se soubesse que tinha ficado alguém cá em baixo? Para estranhos é a hora mais espantosa que se pode imaginar. Mas para alguém de dentro da casa, que quisesse simular um roubo por estranhos, a hora e exactamente a que seria escolhida. Estava quase toda a gente deitada, mas ainda estava alguém a pé. Não havia tanta gente a pé que se corresse o risco de cruzar com alguém ao dispor as coisas para a simulação; mas havia ate o número bastante de pessoas para marcar a hora - neste caso a pretensa hora - do roubo e para dar sinal de que o roubo estava cometido.
A natureza do objeto roubado... Se o roubo foi praticado por estranhos, ou iam roubar os títulos ou não iam roubar senão o que encontrassem. Contra a hipótese de que iam ao acaso, milita a própria natureza do roubo, e a maneira como depois foi passada a matéria roubada parece indicar preparação para dispor dela.
Em toda a investigação de um fato, cuja natureza se desconhece e se quer saber ou cujo autor se ignora e se quer descobrir, o que importa, acima e antes de tudo, é isolar nele qualquer elemento que, sendo absolutamente indubitável, seja, ao mesmo tempo, inesperado ou estranho. Este roubo contém dois elementos que são inesperados ou estranhos - as circunstâncias do roubo, e o fato de que se conseguiu passar os títulos sem encontrar obstáculos. Por um destes dois fatos, portanto, convém que principiemos a investigação.
Mas, isolados que sejam os fatos de que se não possa duvidar que se deram, e que são estranhos (presumindo, é claro, que haja mais do que um), escolheremos, para verdadeiro princípio da investigação, aquele desses fatos que seja susceptível de menos interpretações, isto é, aquele que pareça mais misterioso. Ora a passagem dos títulos é susceptível de várias interpretações; pode haver um conluio com qualquer indivíduo num banco ou na bolsa; pode haver um erro qualquer na lista dos títulos; pode ter havido uma troca de títulos sem que se verificasse a troca, nem portanto se conferissem os números. Mas sobre as circunstâncias do próprio roubo não há várias hipóteses plausíveis. Há simples estranheza.
Sim. O roubo foi praticado, ao que se viu, por um processo ruidoso, e a hora não tão cedo que fosse dia, mas não tão tarde que houvesse a certeza de estarem todos deitados em casa, como efectivamente não estavam. Podendo o cofre ser aberto por vários processos que não envolviam ruído, foi escolhido um processo que precisamente o causava; e, ainda, um processo invulgar. Resultado: foi escolhido um processo invulgar porque era desnecessário e produzia alarme - exactamente as razões contrárias àquelas que levariam a escolher um processo invulgar. Que a intenção era roubar os títulos é evidente, primeiro porque o modo misterioso como se passaram os títulos deve, qualquer que fosse, ter sido objecto de preparação; segundo, porque, sendo o roubo praticado com gente dentro de casa, não haveria tempo para roubar mais que os títulos.
Ora estas circunstâncias levam-nos a uma conclusão: que o processo empregado para o roubo foi empregado precisamente para dar alarme. Ora não se dá alarme senão para um fim: para enganar sobre a hora do roubo. E, se considerarmos que o processo de roubo - uma deflagração por rastilho - é coisa que pode ser disposta por uma pessoa para produzir resultado quando essa pessoa não esteja presente, chegamos a outra e ulterior conclusão: que o roubo não foi praticado pela deflagração de dinamite. Se o não foi, é porque foi por chave falsa e se foi por chave falsa, quem roubou era uma pessoa da casa, que, pela deflagração, quis dar a ideia de que quem roubara era pessoa de fora. Mas, se essa pessoa queria dar a ideia de que o que roubava não era ele, haveria de completar o seu cenário com o cuidado de estar onde o vissem na ocasião da deflagração e assim assegurar a si mesmo um álibi suficiente. Na altura da deflagração estavam todos deitados menos duas pessoas - o pai Borba e V. Ex.ª. E, como era ele o proprietário dos títulos, a primeira suspeita é sobre V. Ex.ª que recai.
Para que a suspeita se confirme, ou se confirme mais, é preciso ver, primeiro, se, um pouco antes de se dar a deflagração, V. Ex.' saiu de casa de jantar sob um pretexto qualquer e se demorou bastante para dispor o cenário. Ora V. Ex.' saiu sob um pretexto directo - o ter deixado uma cigarreira no quarto do aspirante -, e demorou-se o bastante para dispor o cenário completo, aliás obra de minutos sobretudo para quem, tendo tudo estudado, procede rapidamente.
Agora é o Eng. Augusto Claro, apontado por Quaresma como autor do roubo, que volta a ser o narrador.
5º fragmento:
O Dr. Quaresma desligou as mãos detrás das costas, olhou sem expressão e rapidamente para mim, e, estendendo a mão direita de repente, tocou-me no ombro. Depois tornou a posição em que estava, as mãos outra vez atrás das costas, atadas, e os olhos perdidos sobre o Tejo.
Como uma bola de sabão, estoirou-me a alma, sem ruído, dentro de mim. Fiquei suspenso de um vácuo interior, sem razão, sem fala, sem gesto. Se o Dr. Quaresma tivesse dito qualquer coisa, eu teria respondido qualquer coisa; teria tido a que adaptar a minha razão e a minha voz. Ao silêncio não pude responder nada. O seu gesto era guilhotinante. No longo espaço de curtos segundos tentei desesperadamente formar uma atitude, uma palavra, um gesto, qualquer coisa... Não pude... e então compreendi violentamente quanto pode em nos, se sabem excita-la, a consciência da culpabilidade. Fosse eu inocente, e alguma coisa diria, alguma coisa sucederia. Com cada fracção de segundo do meu silêncio a minha culpabilidade enchia o espaço. Com cada fracção da minha consciência desse silêncio aumentava a minha incapacidade de falar, de agir, de me defender. A minha derrota era completa. No fim do que deviam ser poucos segundos reconheci-o inteiramente.
O Dr. Quaresma desviou o olhar do Tejo, mas não o passou por mim. Voltou-se de costas para o rio, disse-me, com um tom de quem antes nada dissera que pesasse: "E se nós nos fôssemos embora?" E, avançando ele para o Arco da Rua Augusta, avancei, silencioso ao lado dele, soterrado em mim sob a acusação definitiva que não fora proferida.
A meio da Praça o Dr. Quaresma voltou para mim a face, mas não os olhos, e disse: "O que pensa fazer?"
Tive uma grande vontade de chorar, de lhe pedir perdão, a ele, a quem nada fizera. Durante um momento não pude falar. Depois encontrei a minha voz dizendo-lhe: "Não sei." E acrescentei, passado um momento: "O doutor dirá o que quiser."
O Dr. Quaresma olhou então em cheio para mim, e disse-me com grande simplicidade: "Eu não tenho nada a dizer. Como já compreendeu, decifrei - posso dizer-lhe que decifrei com muita facilidade - o seu caso. O resto é consigo."


No Tejo altura dos mouchões à noite
tão longe quanto o olhar sempre de luto alcança
manadas de pianos negros enterram-se
até aos joelhos como que descem do palco
ou é o tablado que sossobra Sua música
ao rés da plateia de barro é a sonata
apaixonada das rãs bocas ávidas do delírio
mais líquido As cordas embriagam-se de água
E assim que o Tejo cansado das margens
lhes diz adeus Pisa em fuga os muros da valagem
Pontapeia cabanas de avieiros Parte amarras
Saveiros e pontes dançam ao sabor da música
Todos os anos é este nosso Festival de Bayreuth
Vem gente automobilizada de toda a parte
ajudar a mugir os pianos negros Estendem-se
como vacas na lama e babam os sostenidos
As rãs coquettes marterlando nas gargantas
rebentam como badalos e exigem grinaldas
mas os pianos negros soergem-se nos joelhos
e a plateia debanda em aplausos a galope.
Alexandre Pinheiro Torres ( in O ressentimento dum Ocidental)

Um dia comecei a escrever como se uma voz me ditasse as palavras. Por vezes perguntei-me se não seria Etelvininha, a que comunicava com os espíritos, que me pegava na mão e se punha a escrever or mim.Ou talvez aquele animal que devora a memória, como disse outro poeta. Era uma relação de energia encantatória entre mim e a caneta, entre a caneta e a página em branco. Ou entre a escrita e a vida. Porque tudo se passava numa terra mágica, num tempo mágico. A terra e o tempo da infância, da descoberta encantada de si mesmo, dos outros e do mundo.
Manuel Alegre ( Arte de Marear- Alma)

Durante os vinte anos da sua ausência, os habitantes de Ítaca conservaram muitas recordações de Ulisses mas não sentiam por ele qualquer nostalgia. Enquanto Ulisses sofria de nostalgia e não se recordava de quase nada.
Pode compreender-se esta curiosa contradição se se considerar que a memória, para poder funcionar bem, precisa de um treino incessante: se as recordações não são evocadas, uma vez mais e outra vez ainda, nas conversas entre amigos, vão-se embora. Os emigrados agrupados em colónias de compatriotas contam uns aos outros até à náusea as mesmas histórias que, assim, se tornam inesquecíveis. Mas os que não frequentam os seus compatriotas, como Irena ou Ulisses, são inevitávelmente feridos de amnésia. Quanto mais forte é a sua nostalgia, mais se esvazia de recordações. Quanto mais Ulisses enlanguescia, mais esquecia. Porque a noltalgia não intensifica a actividade da memória, não desperta recordações, basta-se a si própria,à sua própria emoção, absorta por completo como está no seu próprio sofrimento.(...)
E, convencidos de que nada a não ser a sua Ítaca lhe interessava (como teriam podido não o pensar se ele percorrera a imensidão dos mares para regressar ali?)seringavam-lhe o que se passara durante a sua ausência, ávidos de responderem a todas as suas perguntas.Nada o aborrecia mais que isso. Só esperava uma coisa; que lhe dissessem enfim:conta! E foi a única palavra que nunca lhe disseram.
Durante vinte anos só pensara no seu regresso. Mas uma vez de volta compreendeu, espantado,que a sua vida, a própria essência da vida, o seu centro, o seu tesouro,perdera-o e só poderia reeencontrá-lo contando.
Depois de ter deixado Calipso, durante a sua viagem de regresso naufragara na Feácia, onde o rei o recebera na sua corte. Aí era um estrangeiro, um desconhecido misterioso. A um desconhecido pergunta-se: "Quem és tu? De onde vens? Conta! E ele contara. Durante oito longos cantos da Odisseia reconstruíra com minúcia as suas aventuras diante os Feáciosassombrados. Mas em Ítaca não era um estrangeiro, era um deles e era por isso que ninguém pensva em dizer: "Conta!"
Milan Kundera ( A IGNORÂNCIA)

Talvez eu queira devolver uma janela aos aneis secretos;
em dezembro
irradia a rosa que me deu a terra ardida,
o ventre sempieterno.
o sonho, esse, vem em frente,
é uma constelação bordada na bandeira submersa
pelo mar-
escavo clamor de rosto, meu fogo intenso e tão menino.
mariagomes (27, Nov,2005)

Tout homme a donc affaire aux autres hommes; le monde dans lequel il s'engage est un monde humain, où chaque object est pénétré de significations humaines; c'est un monde parlant, d'où montent des sollicitations, des appels; on comprend par là qu'à travers ce monde chaque individu puisse donner un contenu concret à sa liberté.
Simone de Beauvoir ( pour une morale de l' ambiguité)

(Museu de Ciências Naturais de Houston -Borboleta)
Flores do mais
devagar escreva
uma primeira letra
escreva
nas imediações construídas
pelos furacões;
devagar meça
a primeira pássara
bisonha que
riscar
o pano de boca
aberto
sobre os vendavais
devagar imponha
o pulso
que melhor
souber sangrar
sobre a faca
das marés;
devagar imprima
o primeiro olhar
sobre o galope molhado
dos animais; devagar
peça mais
e mais
e mais.
Ana Cristina César