janeiro 26, 2006

Tempo passado, Tempo presente, Tempo futuro...

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Mudança de Morada : http://aguarelast.blogspot.com

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janeiro 23, 2006

É travessa como uma criança... ( O ÚLTIMO POST...desta série)

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( Picasso)


É assim que a mulher exerce a sua tentação. As criaturas humanas trazem o que têm de mais magnífico para alimento dos deuses, não conhecem nada de mais magnífico que possam ofertar; também a mulher é um fruto para ser admirado, os deuses não conheciam nada que se lhe comparasse.Ei-la, aqui está, bem perto, presente, e contudo infinitamente longe, escondida no pudor, até ao momento em que ela mesma trai o seu esconderijo, embora não saiba como; o astucioso delator não é ela, mas sim a própiria existência. É travessa, como uma criança que brinca ás escondidas e que espreita do esconderijo, e contudo a travessura dela é inexplicável pois que ela própria nada sabe de tal coisa, e é sempre enigmática, enigmática quando esconde os olhos, enigmática quando envia o mensageiro do olhar que nenhum pensamento consegue seguir e as palavras ainda menos. E contudo, se o olhar é o "intérprete" da alma, onde está afinal a explicação se também o intérprete fala de maneira inexplicável.(....)

Kierkegaard ( IN VINO VERITAS- trad José Miranda Justo)

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janeiro 22, 2006

UM DOMINGO COM O POETA DE SEMPRE: EUGÉNIO

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Metamorfoses da Casa

1
Ergue-se aérea pedra a pedra
a casa que só tenho no poema.

2

A casa dorme, sonha no vento
a delícia súbita de ser mastro.

3

Como estremece um torso delicado,
assim a casa, assim um barco...

4
Uma gaivota passa e outra e outra,
a casa não resiste, também voa.

5

Ah, um dia a casa será bosque,
à tua sombra encontrarei a fonte
onde um rumor de água é só silêncio.


Eugénio de Andrade ( Ostinato Rigore)

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janeiro 21, 2006

Desfolha a luz desfolha a sombra...

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Mosteiro de Alcobaça

Desfolha a rosa e a rosásea
a beleza nasce uma só vez
desfolha a luz desfolha a sombra
na grande nave quase abstracta
a coroa e a pedra de Pedro e Inês

Desfolha a rosa e a rosásea
pétala a pétala os vitrais
e o número mágico e a geometria
o triângulo e o ponto das catedrais.

A beleza nasce uma só vez
não mais.

Manuel Alegre ( Dispersos e inéditos)

Posted by addiragram at 08:09 PM | Comentários: (2)

janeiro 20, 2006

Um tom para o ser

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UM TOM

Um tom pra cantar
Um tom pra falar
Um tom pra viver
Um tom para a cor
Um tom para o som
Um tom para o ser

Ah como é bom dormir
Ah como é bom despertar
O céu é mais aqui
Um tom é um bom lugar

Tanta coisa que cabe
Tanta pode caber
Canta e pode fazer cantar
Nova felicidade
Novo tudo de bom
Deixa-se cantar um tom

Um tom pra gritar
Um tom pra calar
Um tom pra dizer
Um tom para a voz
Um tom para mim
Um tom pra você
Um Tom para todos nós.


Caetano Veloso (Letra só)

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janeiro 18, 2006

Nas cidades felizes...

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( Monet)

Epígrafe

As pontes multiplicam o cansaço.Porém, há duas margens para o deslumbramento
nas cidades felizes, é costume atravessar o rio sem lhe tocar.

Manuela Parreira da Silva (1950- O Álbum de Vishmu )

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janeiro 16, 2006

Passarei por cima de todas as águas...

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(Magritte)

A terra é um palácio que olha para cima,
o céu é um palácio que olha para baixo.
- Passarei por cima de todas as águas,
em busca da mulher sete vezes tão bela.
E se o rei se diverte com as suas terras todas,
eu divirto-mr feliz com as filhas dos homens.

( O Bebedor Nocturno. Canções Malgaxes-Versões de Herberto Helder)

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janeiro 15, 2006

Co'a pintura de amor o olhar faz festa...

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Meu olho e o coração ligam-se a par
que entre eles em boa paz estão,
se de ver-te é faminto o meu olhar
ou suspira de amor meu coração.
Co'a pintura de amor o olhar faz festa
e ao pintado banquete o outro convida,
ou, convidando-o, o coração se presta
a que o pensar de amor então divida.
E assim ou por pintura ou por amor,
se estás ausente, em mim estás presente:
não podes ir mais longe do que for
meu pensamento, e eu, e tu na mente.
Ou se dormem, o ver da tua imagem.
acorda o coração e ambos reagem.


Vasco Graça Moura ( Os Sonetos de Shakespeare)

Posted by addiragram at 04:20 PM | Comentários: (2)

UM DOMINGO COM VASCO GRAÇA MOURA/SHAKESPEARE

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Meu olhar foi pintor e a formusura
que é tua pôs na tábua do meu peito
a guardá-la meu corpo é a moldura,
na perspectiva fui pintor perfeito
Pelo pintor verás o seu engenho
e onde é pintada a tua imagem bela:
está na loja do meu seio e tenho
vidrada dos teus olhos a janela.
Que boas voltas olhos a olhos deram:
os meus traçam-te a forma e os teus a mim
são janelas do peito e reverberam
o doce sol para te olhar assim.
Mas falta-lhes na arte engenho e graça:
desenho à vista o coração não traça.

Vasco Graça Moura ( Os Sonetos de Shakespeare-versão integral)

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janeiro 14, 2006

Mas o meu cofre estava vazio...

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O Cofre


Nesta Lisboa formosa, Janeiro do ano de 2000


Esplêndido, sobre a cómoda, o cofre. Sopesei-o. Percorri-lhe todos os relevos com os dedos. Tacteando na base uma espessura anormal, sonhei com mistérios e jóias escondidas, mapas miríficos, lembrando as leituras da meninice em que o bom aventureiro descobre o mapa do tesouro, luta com o pirata da perna de pau, sua as estopinhas, esgota a imaginação e o intelecto para decifrar as charadas da cifra que sinalizam no mapa o itinerário a seguir, e acabando a escavar a terra com as mãos e paus até gritar heureca aqui está o cofre, cujo conteúdo, raramente, o contador da história nos diz como será desfrutado.
Mas o meu cofre estava vazio. Para me apoderar dele tinha arriscado e perdido, nos breves minutos da sua licitação, as economias, o vencimento e o subsídio de natal, precisando agora de aplicar também artifícios de imaginação e do intelecto, mas neste caso para inventar estratégias que me permitissem viver o resto do mês com as reservas da despensa, da arca frigorífica, da magríssima conta bancária e do passe social, pois tinha ido a um leilão de antiguidades tão desprevenida como quem vai aos saldos.
Porque me apaixonei pelo cofre de tal maneira que o meu braço se levantava para licitar, sem fazer caso nenhum da minha cabeça que o mandava estar quieto? Por estar cansada de uma rotina acolchoada, precisava de atirar-me para os sobressaltos de uma aventura, com todos os seus ingredientes de mistério, risco, demanda, ilusão de prémio, tudo sem saír do mesmo lugar? Por sentir-me envergonhada da minha perguiça na resignada aceitação das diárias frustrações, adiando desejos, teria eu pensado que a imediata satisfação do desejo de posse de um objecto assim belo e precioso me faria feliz?
Quando não compreendo a razão de alguma das minhas atitudes, consolo-me, dizendo-me que agi por instinto e que raramente o instinto me engana, mas neste caso parecia-me não ter ele presentido nesta peça de prata qualquer lucro ou proveito.
Reli a descrição que me foi entregue pelo leiloeiro:

Cofre de prata lavrada e cincelada com quatro painéis de esmalte polícromo, forma rectangular, nas faces quatro baixos-relevos com cenas dos amores de Vénus, ladeadas de festões, nos cantos sobre plintos, assentes nos pés do cofre, quatro figuras de deuses, a parte superior representa as muralhas e ameias de um castelo, tendo ao centro a figura de um Cupido em alto-relevo, por cima do fecho em forma de S, um busto de figura masculina do séc XVI; aos cantos quatro figuras femininas deitadas, em alto-relevo; restante decoração de motivos florais e volutas.Interior dourado.
180 x 213 x 164 mm, Peso 1080 gramas

Remirei o cofre. A base apresentava uma espessura de quase dois centímetros, o que me parecia exagerado. Pegava-lhe observando todos os pormenores, palpava-o milímetro a milímetro, fazendo ligeiras pressões com os dedos, esperando ver deslocar-se alguma das figuras em relevo, mostrar-se uma abertura para as interfaces, que eu sonhara existirem e guardarem, senão um tesouro, que o espaço era mínimo para tal, pelo menos algum segredo.
Não fora apenas a sua beleza, indiscutível na verdade, a causar-me tal fascinação até à loucura de fazer uma compra para a qual não estava preparada, mas sim um apelo que emanava do cofre e eu continuo a sentir quando o toco.(...)
Assim passaram dezassete dias. Ao décimo oitavo, resolvi apelar àquela espécie de raios x , também vulgarmente chamada de sexto sentido que, vendo para lá da espessura da prata e das aparências me segredava: O segredo está na espessura da base, na espessura da base. Tantas voltas dei que a base do cofre deslizou um pouco, permitindo-me corrê-la, não totalmente, mas de maneira a deixar-me meter um dedo e rerirar um maço de folhas.Espantoso: havia ali espaço exactamente para trinta, dobradas em quatro partes, acamadas e destribuídas por toda a base.
Trinta folhas de papel almaço branco, marcado a água com o que me parecia ser um brasão. Desdobrei uma a uma, quase todas. Estavam escritas a tinta violeta, um pouco esmaecida pelo passar dos anos somados a fazer dois séculos, numa caligrafia de diferentes formas, indiciando assim mudanças de idade e dos estados de espírito
de quem as escrevera. As letras mais acentuadas diziam quando o ou a escrevente teria parado para molhar a pena de ganso no tinteiro; de prata lavrada, imaginava-o eu a pensar nesse gesto de pausa para meditação no continuar da frase. Quanto à ortografia, com muitos erros, palavras com falhas ou com abundância escusada de letras, o que, juntamente com sílabas inteiras meio apagadas nas dobras e a grafia própria da época, dificultaria a descodificação da minha descoberta.

Júlia Nery ( O Segredo Perdido)

Posted by addiragram at 10:57 AM | Comentários: (0)

janeiro 13, 2006

As nuvens flutuavam silenciosamente...

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Havia na praia um longo ribeiro, e como lhe seguisse vagarosamente o curso, admirou a incessante procissão de algas flutuantes. Verdes-esmeralda, negras, vermelhas, oliváceas, moviam-se sob água corrente, ondulando e redemoinhando. A água estava obscurecida por esta onda incessante e reflectia as nuvens que vogavam tão alto. Abaixo dele, as nuvens flutuavam silenciosamente; silenciosamente as algas emaranhadas flutuavam a seus pés; o ar quente e cinzento estava calmo; uma vida nova e selvagem cantava-lhe nas veias.

James Joyce ( Retrato do Artista Quando Jovem )

Posted by addiragram at 10:44 PM | Comentários: (2)

janeiro 12, 2006

A tarde trabalhava sem rumor...

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(Portinari)

Tarde

A tarde trabalhava
sem rumor
no âmbito feliz das suas nuvens,
conjugava
cintilações e frémitos,
rimava
as ténues vibrações
do mundo
quando vi
o poema organizado nas alturas
reflectir-se aqui,
em ritmos, desenhos, estruturas
duma sintaxe que produz
coisas aéreas como o vento e a luz.

Carlos Oliveira

Posted by addiragram at 11:04 PM | Comentários: (1)

janeiro 11, 2006

Intensamente livre

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intensamente livre

Intensamente livre o homem dirige-se para a praia mais pequena que
ele
leva na mão um mapa-múndi azul é a custo que desce as dunas mais
pequenas que ele
e sem ninguém que ateste a visibilidade radiogoniométrica destes
seres
o homem perfura o poço mais pequeno que ele
abrindo o leão de costas que há no fundo do poço
o doce leão alado muito limpo que há no fundo do poço


Como ver este homem o seu dorso a sua cabeleira
correria nocturna ao longo de um túnel em transe
onde será verdade onde é rosa iris
que este homem sobrevive
sob o seu talhe mais pequeno que ele
sob o seu pedestal a sua obscura força militar
e o seu porte essa porta essa maçã
de vinagre
essa locomotiva feita armada pronta para surgir
arrastando uma época de calendários
cheia não só de estradas mas de signos de estradas
estrada-dedal estrada-violino corpo-estrada de rei RapAz de
Estrada
Há muito vou com ele por caminho livre
quem cessará primeiro? ele? o caminho?

Este homem que apenas nasceu- este homem
sem lágrimas
voltou-se! é prodigioso o espaço que arde na sua sombra
face árida lisa para o incêndio com as mãos.

Mário Cesariny ( Pena capital )

Posted by addiragram at 10:02 PM | Comentários: (0)

janeiro 10, 2006

No outono preparo a primavera...

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Nas quatro estações

No outono preparo a primavera
no verão o outono
e no inverno espero
a ausência dos dias que tiveram
no outono a raiz.Na
primavera quando
o ar cortado pelas folhas corre
no sangue desde os fins
de janeiro
a água do sol move-me
até ao mar inteiro


Gastão Cruz ( Crateras)

Posted by addiragram at 09:57 PM | Comentários: (1)

janeiro 09, 2006

Oh Tempo...

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( J.Hogan)

EXÍLIO

Oh tempo tempo tempo
tempo de colher
o que temos maduro:
o lume dos olhos
a luzir no escuro.

Eugénio de Andrade ( Ostinato Rigore )

Posted by addiragram at 10:58 PM | Comentários: (2)

janeiro 08, 2006

A mística noite amorosa...

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( cont)

..................................................................................................
O curioso vagabundo, mão que vagabundeia por todo o corpo, a carne
tímida que se retracta onde os dedos se detêm e se movem acariciantes,
O líquido límpido no interior do jovem,
A corrosão atormentada tão melancólica e tão dolorosa,
A angústia, torrente irritável que não se vai deter,
Sinto qualquer coisa semelhante a isso, uma coisa semelhante nos outros,
O jovem que subitamente cora sem parar, e a jovem que subitamente cora sem parar,
O jovem que desperta a meio da noite, a mão escaldante qu procura reprimir aquilo
que queria dominá-lo,
A mística noite amorosa, as estranhas angústias, visões, suores quase agradáveis,
A pulsação que bate nas palmas das mãos, os dedos crispados e trémulos, o jovem
todo corado, envergonhado, encolerizado;
O mar salgado, o meu amante, que me cobre, quando me deito deliciado e nu,
A alegria dos bebés gémeos que gatinham pela erva ao sol, a mãe que nunca
afasta deles os olhos vigilantes,
O tronco da nogueira, as cascas de noz, e as nozes redondas e alongadas
que amadurecem ou que estão maduras,
A continência dos vegetais, pássaros, animais,
A minha mediocridade se me escondesse ou se me sentisse indecente,
enquanto pássaros e animais nunca se escondem ou se
sentem indecentes,
A grande castidade da paternidade, que se harmoniza com a castidade da
maternidade,
O juramento de procriação que pronunciei, as minhas filhas adâmicas e
inexperientes,
A avidez que me devora dia e noite com dentes ávidos, até que eu inunde
o que há-de produzir rapazes para preencher o meu lugar quando eu
morrer,
O alívio, o repouso, o contentamento salutares,
E este ramo colhido de mim ao acaso
Fez o seu trabalho- atiro-o descuidadamente para caír em qualquer sítio.


Folhas de Erva ( Walt Whitman -vol I)

Posted by addiragram at 07:11 PM | Comentários: (0)

UM DOMINGO COM WALT WHITMAN

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EU, ESPONTÂNEO

Eu, espontâneo, a Natureza.
O dia amante, o sol que sobe, o amigo com quem sou feliz,
O braço do amigo negligentemente sobre o meu ombro,
A encosta coberta de branco pelas flores da sorveira brava.
O mesmo no final do outono, os cambiantes de vermelho,amarelo,cas-
tanho claro, púrpura, e verde claro e escuro.
A rica colcha da erva, animais e pássaros, o talude íntimo para tratar, as
maçãs primitivas e os seixos,
Os belos fragmentos gotejando, a negligente enumeração de cada um
conforme os vou recordando ou pensando,
Os verdadeiros poemas( aquilo a que chamamos poemas são simples-
mente imagens),
Os poemas da intimidade da noite, e de homens como eu,
Este poema que se inclina tímido e escondido, que trago sempre comi-
go e que todos os homens trazem
(Sabei de uma vez por todas, confesso-o de propósito, que onde quer
que se encontrem homens como eu, aí se escondem os
nossos poemas virís e enérgicos),
Pensamentos de amor, suco de amor, odor de amor, docilidade de amor,
trepadeiras de amor e ascenção da seiva,
Braços e mãos de amor, lábios e mãos de amor, polegar fálico de amor, seios de
amor, ventres comprimidos e unidos com amor,
Terra de casto amor, vida que é somente vida depois do amor,
O corpo do meu amor, o corpo da mulher que amo, o corpo do homem,
o corpo da terra,
As amenas brisas da manhã que sopram de sudoeste,
A abelha selvagem e peluda que murmura e suspira em todos os sentidos,
que se prende à flor feminina toda aberta, se curva sobre
ela com pernas firmes e amorosas, tira dela a sua energia,
e mantém-se trémula e firme até ficar satisfeita;
a humidade dos bosques durante as horas da manhã,
Duas pessoas adormecidas que à nite, ficam juntas, uma com o braço
atravessado e abaixo da cintura da outra,
O cheiro das maçãs, aromas de sálvia, hortelã e casca de vidoeiro esmagadas,
As ansiedades do rapaz, o entusiasmo e a força ao confiar-me o que estava
a sonhar,
A folha morta que rodopia num turbilhão em espiral e que cai no solo
imóvel e satisfeita,
Os aguilhões ainda por formar que com o que vejo,pessoas e objectos,
me aguilhoam,
O meu próprio aguilhão saliente que me aguilhoa mais do que qualquer outra
pessoa,
Os dois irmãos sensíveis, redondos e suspensos, apenas destinados a serem ali
tocados intímamente por privilegiados,
.............................................................................................................................

Walt Whitman ( Folhas de Erva-vol- I)

Posted by addiragram at 10:28 AM | Comentários: (0)

janeiro 07, 2006

Ah, se não fosse...já não era o que sou

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Ah, se não fosse a névoa da manhã
E a velhinha janela onde me vou
Debruçar, para ouvir a voz das coisas,

Eu não era o que sou.

Se não fosse esta fonte, que chorava,
E como nós cantava e secou...
E este sol, que eu comungo, de joelhos,

Eu não era o que sou.

Ah, se não fosse este luar, que chama
Os espectros à vida, e se infiltrou,
Como fluido mágico, em meu ser,

Eu não era o que sou.

E se a estrela da tarde não brilhasse;
E se não fosse o vento, que embalou
Meu coração e as nuvens, nos seus braços,

Eu não era o que sou.

Ah, se não fosse a noite misteriosa
Que meus olhos de sombra povoou,
E de vozes sombrias meus ouvidos,

Eu não era o que sou.

Sem esta terra funda e fundo rio,
Que ergue as asas e sobe, em clero voo;
Sem estes ermos montes e arvoredos,

Eu não era o que sou.


Teixeira de Pascoais ( Portugal)


Posted by addiragram at 07:34 PM | Comentários: (1)

janeiro 06, 2006

Ninguém usa o machado...

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(Bruegel)

Ninguém usa o machado
onde as árvores são mais densas-
um duende as habita.

Shiki(1869-1902)-Imagens orientais

Posted by addiragram at 11:40 PM | Comentários: (1)

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( Miró)

Posted by addiragram at 12:49 AM | Comentários: (1)

janeiro 05, 2006

Às quatro da manhã...


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Arrozal de Madrugada

Às quatro da manhã, arranco
ervas daninhas do arrozal.
Mas que é isto? orvalho do campo

ou lágrimas de dor?

O Bebedor Nocturno (Canções de Camponeses do Japão - versões de Herberto Helder)

Posted by addiragram at 12:05 AM | Comentários: (1)

janeiro 03, 2006

Prendi a frase ao texto do universo

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NOMEIO O MUNDO

Com medo de o perder nomeio o mundo,
Seus quantos e qualidades, seus objectos,
E assim durmo sonoro no profundo
Poço de astros anónimos e quietos.

Nomeei as coisas e fiquei contente:
Prendi a frase ao texto do universo.
Quem escuta ao meu peito ainda lá sente,
Em cada pausa e pulsação, um verso.


Vitorino Nemésio ( O Verbo e a Morte)

Posted by addiragram at 10:23 PM | Comentários: (1)

janeiro 02, 2006

Levanto-me para saudar o dia...

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Levanto-me da cama com gestos
semelhantes aos golpes de asa
de um corvo rápido.
Levanto-me
para saudar o dia,
Uá, uá!
Minha face afasta-se das trevas da noite
e olha para a aurora
que se abre.

O Bebedor Nocturno ( Cinco poemas Esquimós- versões de Herberto Helder)

Posted by addiragram at 10:18 PM | Comentários: (5)

janeiro 01, 2006

NO PRIMEIRO DIA DO ANO- Àcerca da Pintura ...e da Vida

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( Ucello)

Em Nova Iorque: monólogos

Corpo a corpo

Desmontem-se os mitos: há pessoas que julgam que eu pego num carvão, em bisnagas de tinta, e pronto, lá vou eu, aí está o quadro pronto para ser pendurado na parede. E embora aconteça que o quadro possa dar essa ideia, o que induz em erro as pessoas de boa vontade, sou obrigado a afirmar alto e bom som que nada para mim é fácil.(...) Quando falo das minhas dificuldades, as pessoas espantam-se, não me levam a sério, julgam que estou a fazer pouco delas, a tentar enganá-las.
Feliz ou infelizmente, não sou membro do mesmo clube a que pertencem muitos dos meus primos-artistas: o dos felizes optimistas que estão convencidos de que tudo o que deitam cá para fóra é arte. Ora, eu não vejo que diferença há entre um indivíduo que se intitula artista, ou que como tal é considerado, e quem o rodeia: qualquer um poderá vir a produzir alguma coisa mais ou menos válida- ou pura merda. A chatice é o estado mais democrático do mundo.
Escusado será dizer que, como a maioria dos pintores com um mínimo de experiência, sou capaz de encher uma tela rapidamente. Mas esse primeiro jacto é para mim um exercício de aquecimento, como o futebolista antes do jogo. Não sei sequer onde ele me levará. Avanço ao sabor do que destruo e do que acrescento, cujos vestígios ficam na tela, e é com esses vestígios, com esses destroços, que componho o que virá a ser o meu quadro.A superfície virgem é rapidamente coberta, não por causa do horror da tela branca, de que se fala tanto (como se fala do medo da página branca a propósito do escritor), e também não por horror ao vazio: é para pré-formular o que ainda é nebuloso, para - a pouco e pouco- passar da fase de indefinição à fase de aproximação, do acercar-me do que penso ser o coração do assunto. E o coração daquilo que chamo o assunto é a própria pintura.(...)
Estou a pensar na carne da pintura. Ainda não há muito tempo dir-se-ia espírito da pintura: por detrás das palavras está o obscuro das crenças. As palavras mágicas é que mudam.
Carne ou espírito tanto faz; mas não nos façamos à ideia de nos servirmos destes não-ditos como de palavras de uma linguagem embrionária, sem códigos nem gramática.Este não-dito vejo-o, este indizível, vejo-o como um oceano, donde o quadro, tal como uma ilha, irá emergir. Cada quadro será terra firme, com todos os equívocos que as certezas escondem, cercado de um grande oceano de pintura (carne, espírito, sangue) - um corpo estranho, uma excrescência, uma rejeição dessa pele que se prolonga a perder de vista: o oceano-pintura. Essa rejeição, o quadro, está para a carne da pintura como uma ilha ou um barco ( um barco é uma espécie de ilha que se desloca) está para o mar.
Para que o navegador possa fruir do mar precisa de um barco. Este está ao mesmo tempo fora do mar e dentro do mar. Assim se mostra a carne oceânica da pintura, que fica a existir na ilha que é o quadro, que dela se soltou-mas que por ela permanece cercado.(...)
Apetece-me chamar odisseia a essa viagem que é a execução de cada quadro. Para que servem a mitologia, a poesia, e a ficção que chapinham nos velhos mitos, senão para nos ajudadem a vazar os nossos actos nos moldes que permitem fugas?Chamo-lhe odisseia ou via-sacra, com as suas estações em que o protagonista cai e torna a levantar-se.(...)

Júlio Pomar ( Então e a Pintura?)

Posted by addiragram at 11:34 AM | Comentários: (3)